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Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Algoritmo não veste toga

A virada digital de Lula muda o ritmo do segundo turno, incomoda a campanha adversária, leva a disputa pelo alcance das publicações aos tribunais e as plataformas entram na mira das acusações.

Por Willian Tito

13 de outubro de 2026 às 11:10 ▪ Atualizado em 13/10 às 11:32

Ver resumo
  • A disputa presidencial no segundo turno envolve algoritmos, influenciadores e estratégias digitais.
  • Flávio Bolsonaro teve inicialmente vantagem nas redes, mas a campanha de Lula reagiu rapidamente.
  • A mobilização de fãs e influenciadores ajudou Lula a expandir sua presença digital.
  • O canal "Exército do Lula" cresceu rapidamente em número de seguidores.
  • A comunicação de Lula adotou um estilo mais espontâneo e direto para se adaptar às redes.
  • Estratégias incluem a desconstrução da imagem de Flávio Bolsonaro.
  • O TSE enfrentou questões sobre imparcialidade e decisões controversas.
  • A campanha de Lula acusou a Meta de interferência na distribuição de conteúdos.
  • Há debates sobre a transparência das plataformas digitais na regulação do alcance do conteúdo.
  • A eficácia da mobilização digital em converter engajamento em votos ainda é incerta.
  • O cenário político brasileiro vivencia uma transformação significativa com o uso avançado das redes sociais.

A campanha presidencial entrou na fase em que a disputa não acontece apenas entre candidatos. Algoritmos, influenciadores, militantes, plataformas digitais e até decisões judiciais passam a protagonizar o segundo turno. A vantagem de Flávio Bolsonaro nas redes transformou-se numa batalha de alcance, criatividade e mobilização. E Lula, que começou atrás nesse território, entrou no jogo para valer.

O candidato do PL terminou o primeiro turno na liderança. Ficou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente. Diferença pequena nas urnas acompanhada por uma presença digital mais favorável ao bolsonarismo.

A reação petista ganhou corpo ao incorporar comunidades de fãs de artistas nacionais e internacionais, os chamados fandoms. Grupos acostumados a mobilizar multidões por lançamentos musicais, votações e disputas nas plataformas encontraram uma nova arena. Em cena os mutirões digitais. Republicações, comentários, compartilhamentos e a criatividade de quem conhece os caminhos dos algoritmos dando aula de engajamento. O resultado foi rápido.

O canal Exército do Lula, criado pelo deputado André Janones, saiu de pouco mais de 50 mil inscritos e ultrapassou quatro milhões em poucos dias. Na noite de ontem, segunda-feira, dia 12, reunia mais de 4,1 milhões de seguidores, diante de 1,4 milhão da Tropa do Flávio. A militância descobriu que organização também é audiência. Bem trabalhada, vira distribuição.

algoritmo em campanha

A comunicação de Lula mudou de figurino. Menos solenidade, mais espontaneidade. Vídeos em selfie, linguagem direta, respostas rápidas e conteúdos pensados para circular nas timelines. Um dos novos vídeos ultrapassou 27 milhões de visualizações, enquanto o conjunto das publicações alcançou números expressivos. A campanha encontrou a fórmula que aproxima o candidato da linguagem cotidiana das redes.

A mudança não aconteceu apenas na embalagem. A desconstrução da imagem de Flávio Bolsonaro passou a ocupar espaço central, com conteúdos que questionam suas propostas, seu histórico político e a herança eleitoral do sobrenome. Será que o flerte com o mago do marketing, João Santana, deu certo? Do outro lado, bolsonaristas reagiram reforçando estrutura digital, contestando informações divulgadas por adversários e recorrendo à Justiça Eleitoral. O segundo turno é como um novo campeonato. Ninguém quer ficar fora da final.

apito do tribunal

A ofensiva digital petista encontrou resistência no campo jurídico. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Kassio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro, passou a receber críticas por decisões consideradas favoráveis à candidatura de Flávio.

O episódio mais emblemático ocorreu no domingo, dia 11, quando Nunes Marques determinou a suspensão do canal Exército do Lula, atendendo a uma iniciativa da campanha adversária. A decisão durou pouco. Horas depois, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, determinou a reativação do canal, considerando insuficientes os elementos apresentados para justificar a medida.

 Para Todos Verem: Imagem apresenta Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente, em lados opostos de uma disputa digital. Lula aparece à esquerda, iluminado por tons vermelhos, cercado por uma multidão com celulares e símbolos de curtidas. Flávio está à direita, em tons azulados, diante de ícones das redes sociais. Ao centro, a estátua da Justiça, vendada e segurando uma balança, domina a composição. Ao fundo, aparecem o Congresso Nacional e elementos tecnológicos. A montagem simboliza a batalha eleitoral nas redes, o poder dos algoritmos e a participação da Justiça na disputa política.Para Todos Verem: Imagem apresenta Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente, em lados opostos de uma disputa digital. Lula aparece à esquerda, iluminado por tons vermelhos, cercado por uma multidão com celulares e símbolos de curtidas. Flávio está à direita, em tons azulados, diante de ícones das redes sociais. Ao centro, a estátua da Justiça, vendada e segurando uma balança, domina a composição. Ao fundo, aparecem o Congresso Nacional e elementos tecnológicos. A montagem simboliza a batalha eleitoral nas redes, o poder dos algoritmos e a participação da Justiça na disputa política. 

A área técnica do TSE informou posteriormente não ter localizado, no período examinado, os conteúdos apontados na denúncia, embora tenha registrado limitações decorrentes de mensagens apagadas. Também é questionada a diferença de velocidade no julgamento de pedidos apresentados pelas duas campanhas. A atuação de Nunes Marques e de André Mendonça passou a alimentar discussões sobre isonomia e equilíbrio na Justiça Eleitoral.

É importante distinguir suspeitas de conclusões. Decisões favoráveis a um candidato não demonstram, isoladamente, parcialidade de magistrados. Mas a sucessão de episódios, as divergências internas e os diferentes tempos de resposta exigem transparência institucional. Numa campanha decidida pela velocidade da informação, postagem retirada do ar hoje pode perder completamente a relevância quando autorizada a voltar amanhã. A Justiça tem seu tempo. O algoritmo não espera.

Meta no radar vermelho

A campanha de Lula abriu outra frente ao acusar a Meta, proprietária do Instagram, Facebook e WhatsApp, de interferir na distribuição de conteúdos eleitorais. Segundo a equipe petista, publicações do presidente tiveram o alcance reduzido depois da sequência de resultados expressivos. A campanha também relatou dificuldades para impulsionar postagens pagas entre os dias 9 e 10 de outubro. A acusação foi encaminhada ao TSE, que solicitou esclarecimentos à empresa.

Até o momento, a denúncia não comprova manipulação deliberada dos algoritmos. Oscilações de alcance podem decorrer de diferentes fatores técnicos. O que a campanha exige é transparência para compreender o funcionamento das restrições. O assunto ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio.

Quando poucas empresas privadas controlam os principais canais de distribuição da comunicação política, conhecer os critérios de funcionamento das plataformas deixa de ser apenas interesse dos candidatos e passa a ser uma questão democrática. Não basta saber quem publicou. É preciso compreender quem recebeu, quem deixou de receber e por quê.

batalha das telas decide as urnas?

A reação digital de Lula é um dos acontecimentos mais interessantes do segundo turno e da história das eleições no Brasil. A campanha que parecia correr atrás conseguiu produzir mobilização, ampliar presença nas redes e obrigar o adversário a responder em nova dinâmica.

Mas existe uma diferença entre ganhar engajamento e conquistar votos. A tendência nas plataformas merece atenção e precisa ser acompanhada por indicadores consistentes de alcance, sentimento, conversão e preferência eleitoral.

O marketing político está diante de uma experiência fascinante. Comunidades de fãs se transformam em redes de mobilização, políticos adotam linguagens de criadores de conteúdo, decisões judiciais interferem na circulação de mensagens e plataformas privadas precisam explicar o funcionamento de seus sistemas. Acompanho e participo ativamente de campanhas eleitorais há mais de 40 anos. Nunca vi nada parecido.

A campanha deixou de ser conversa entre candidatos e eleitores e virou disputa permanente pela atenção de milhões de pessoas. Se antes o bolsonarismo parecia jogar praticamente sozinho no campo digital, agora encontrou um adversário que aprendeu a ocupar o gramado, movimentar a torcida e disputar lance a lance em tempo real.

Na internet, Lula virou o jogo. Resta saber se a virada atravessa a tela e chega na urna no próximo dia 25.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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