Por Willian Tito
02 de outubro de 2026 às 18:41 ▪ Atualizado em 02/10 às 19:32
Rádio e televisão baixam o volume, comício desmonta o palco, jornal chega aos últimos anúncios, portal encerra a divulgação e o santinho se prepara para a aposentadoria. A rede social continua acesa. A eleição tem uma praça que cabe no bolso e nela candidato pede voto e pode ter atenção.
Chegamos ao último texto da série sobre comunicação e marketing nas eleições de 2026. Passamos por jingles, slogans, imagens, programas, ataques, desconstruções, estratégias e a impressionante capacidade que a campanha eleitoral tem de fazer alguém caminhar no sol do “pingo” do meio-dia sorrindo como se fosse perfeitamente normal.
Na Grécia antiga, a ágora era praça, mercado, encontro, conversa, política e confusão. A versão contemporânea continua com tudo isso. Mas acrescentou câmera frontal e caixa de comentários. A campanha ultrapassou o horário
Rede social não é apenas veículo de campanha. Ela altera os outros. Entrevista em televisão não termina mais depois que o apresentador agradece a presença. Vira corte e começa outra vida. Corte vira Reel, que vira TikTok, que vai ao WhatsApp. Frase vira card. Careta vira figurinha. Se o candidato tropeçar espetacularmente numa palavra, pode virar meme e viralizar antes de chegar em casa.
A comunicação política ganhou sobrevida e velocidade. Na reta final, fica mais visível a consolidação do poder da social media. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão relativo ao primeiro turno terminou ontem, 1º de outubro. Os comícios também tiveram seu prazo encerrado.
Nesta sexta-feira, 2 de outubro, termina a propaganda eleitoral paga na imprensa escrita. A distribuição de material gráfico, caminhadas e carreatas ainda pode ocorrer até as 22 horas de sábado, dia 3. O impulsionamento pago de propaganda eleitoral na internet, por sua vez, terminou em 1º de outubro.
A internet não desaparece quando desliga a chave do anúncio. Os perfis, os vídeos e os seguidores continuam lá. O algoritmo, personagem misterioso da democracia contemporânea, também continua trabalhando.
No domingo da eleição, é proibida a publicação de novos conteúdos de propaganda eleitoral nas aplicações de internet e também o impulsionamento. Conteúdos anteriormente publicados podem permanecer disponíveis, sem impulsionamento. A rede tem silêncio eleitoral. Só que cheio de postagem antiga.
Quem chegou em agosto, chegou atrasado. Foi uma das maiores lições de 2026 aos incautos neopolíticos. Rede social não se inaugura em campanha. Constrói-se. A pré-campanha deixou muito claro.
Quem passou meses ou anos conversando com uma comunidade digital, chegou ao período oficial carregando a familiaridade. Coisa que dinheiro nenhum compra de pronta.
O eleitor conhece o rosto. Reconhece a voz. Entende o jeito de falar. Sabe se a pessoa faz vídeo andando, sentada, de paletó, de camiseta, dentro do carro, na feira ou tenta encontrar um lugar desocupado da casa. Isso é identidade digital que não nasce porque alguém contratou uma boa equipe encima da hora.
Candidato que abriu o Instagram em agosto com “Olá, meus amigos! Agora também estou nas redes sociais!”, chegou à festa quando o bolo já estava sendo embrulhado.
Rede não é outdoor eletrônico. É convivência. Quem aparece somente quando precisa do voto corre o risco de lembrar parente que passa três anos sem telefonar e surge repentinamente. Você já sabe. Vai pedir alguma coisa.
Para quem tem mandato, todo dia é dia de rede. A rede deixou de ser apenas instrumento eleitoral. É extensão do mandato. Prestação de contas. Agenda. Resposta. Posicionamento. Cobrança. Explicação. Algumas vezes, explicação da explicação.
Campanha digital não começa no primeiro dia permitido pela Justiça Eleitoral. A propaganda eleitoral tem regras e datas. Em 2026, a propaganda oficial começou em 16 de agosto, inclusive na internet. Mas presença pública não nasce em 16 de agosto. Para quem tem mandato, é cotidiano. Para quem pretende ter, a questão é mais complexa.
Não basta entrar na rede. Tem que passar a ser da rede. Conhecer linguagem, velocidade, tamanho. Saber que nem toda ideia merece sete minutos. Algumas bastam quinze segundos. Outras merecem silêncio. Habilidade digital rara.
Para Todos Verem: Imagem horizontal mostra uma cena de campanha eleitoral fortemente conectada às redes sociais. No centro, um grande smartphone exibe um candidato falando ao microfone e erguendo o braço diante de uma multidão. Ao redor, eleitores seguram celulares e acompanham vídeos, transmissões e postagens, enquanto ícones de curtidas, reações e quadros de conteúdo aparecem sobrepostos à cena, sugerindo o fluxo constante das plataformas digitais. Ao fundo, sob a luz dourada do fim de tarde, aparece a paisagem urbana de Teresina, com a Ponte Estaiada em destaque sobre o rio. A composição mistura política, tecnologia e participação popular, representando a campanha que sai do palanque tradicional e passa a disputar atenção dentro da tela do celular. Para conversar com uma multidão, o político precisava de intermediários. Rádio. Televisão. Jornal. Portal. Carro de som. Comício. Hoje, um telefone conectado entrega ao candidato uma central de comunicação. Transmite ao vivo. Responde. Grava. Edita. Publica. Reage.
A aparente liberdade trouxe um intermediário. O algoritmo não aperta mãos, mas decide o que aparece primeiro no celular. É o cabo eleitoral sem título e sem rosto.
As regras chegaram às plataformas. Para 2026, a Justiça Eleitoral reforçou normas sobre desinformação, impulsionamento e uso de inteligência artificial. Plataformas como Google, Meta, TikTok, X, Telegram, Kwai, LinkedIn e outras apresentaram planos de conformidade relativos ao processo eleitoral. A praça ficou digital e ganhou fiscal.
E o Piauí? A campanha nas redes mostrou dois movimentos bastante distintos. Candidaturas majoritárias, especialmente entre grupos e personagens que já carregam grande reconhecimento público, trabalhou a massa como ativo de audiência. Quem conversa com muita gente não precisa reinventar o alfabeto a cada postagem.
Na leitura desta coluna, boa parte dessa comunicação buscou fazer exatamente o que campanhas competitivas costumam fazer quando sua linguagem já está estabelecida: preservar reconhecimento, repetir códigos conhecidos, manter frequência e evitar experiências que possam romper uma relação já consolidada com seu público.
Candidaturas majoritárias falam para públicos amplos, heterogêneos e já bastante expostos às suas imagens. Postagem experimental demais pode conquistar especialistas em comunicação e deixar cinquenta mil eleitores no vácuo. Inovação tem dose.
Desconhecidos precisam nascer diante da câmera. Quem começa a disputa com baixo reconhecimento, precisa usar as próprias redes para diminuir a distância. Repetir a estética de quem já é conhecido nem sempre ajuda.
Algumas experiências encontraram um caminho mais autoral. Sem superproduções. Às vezes, justamente o contrário. Formato próprio. Maneira particular de falar. Enquadramento reconhecível. Humor. Bordão. Ritmo. Edição. Uma identidade audiovisual que permita ao eleitor reconhecer quem estava falando antes de ler o nome. É um patrimônio imenso no ambiente digital.
Na rede, ser conhecido é um tesouro. Ser reconhecível é ainda mais. Não adianta vestir a roupa de outro perfil. Não adianta colocar candidato tradicional para fazer dancinha porque alguém da equipe viu outra pessoa conseguir três milhões de visualizações. Outra coisinha. O digital é implacável com personagens mal vestidos. Não estou falando de roupa. É sobre personalidade.
Cada candidatura tenta organizar fatos, propostas, símbolos e emoções dentro de uma história que faça sentido para o eleitorado. As redes aceleraram essa disputa. Agora acontece minuto a minuto. Mas o objetivo continua sendo o mesmo. Estabelecer conexão com o público, tornar a candidatura compreensível, gerar identificação e apresentar razões que o eleitor considere relevantes para a grande decisão. O voto.
Depois da urna, vem a segunda-feira. A eleição chega ao voto. Quem for eleito, vai precisar conversar ainda mais com a sociedade. Quem for para no bucho da porca, terá de decidir se a presença digital era apenas campanha ou se realmente havia uma relação verdadeira com um público. Será fácil descobrir. Se o perfil passar quatro anos em silêncio e reaparecer em 2030...
Redes sociais não são apenas lugar de estar. São lugar de permanecer. Para quem tem mandato, presença é o cotidiano. Para quem pretende ter, precisa começar antes do pedido de voto.
Campanha passa. Santinho passa. Carro de som e horário eleitoral passam. O algoritmo passa por cima de todo mundo e a tela continua rolando.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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