01 de setembro de 2026 às 15:24 ▪ Atualizado em 01/09 às 15:44
Imagine uma empresa vender R$ 100 e, depois de contabilizar os custos, despesas, impostos e demais efeitos sobre o resultado, terminar com aproximadamente R$ 62 de lucro líquido.
Imagine uma empresa ter 62% de lucro sobre tudo que vende - Foto: Divulgação/ Nvidia
Parece exagero. Mas essa é uma maneira simples de entender o resultado apresentado pela Nvidia no seu trimestre mais recente.
A companhia registrou US$ 96,2 bilhões em receita no segundo trimestre do ano fiscal de 2027, encerrado em 26 de julho de 2026. No mesmo período, obteve US$ 59,7 bilhões de lucro líquido.
Isso representa uma margem líquida de aproximadamente 62%. A margem bruta, antes das despesas operacionais e demais itens que levam ao lucro final, chegou a 75%.
Não é apenas um lucro gigantesco em valores absolutos. É a capacidade de transformar uma parcela extraordinariamente grande de cada dólar faturado em lucro.
E isso está acontecendo enquanto a empresa cresce em uma velocidade igualmente extraordinária.

Para entender o tamanho da transformação, precisamos voltar apenas alguns anos.
No ano fiscal de 2022, a Nvidia faturou US$ 26,9 bilhões durante o ano inteiro.
Quatro anos depois, a empresa acaba de faturar US$ 96,2 bilhões em apenas três meses.
Isso significa que um único trimestre atual da Nvidia representa aproximadamente 3,6 vezes tudo o que a companhia faturava durante um ano inteiro em 2022.
A evolução é impressionante: 2022 — US$ 26,9 bilhões; 2024 — US$ 60,9 bilhões; 2025 — US$ 130,5 bilhões; 2026 — US$ 215,9 bilhões.
E o salto pode continuar. O consenso dos analistas atualmente aponta para uma receita próxima de US$ 409 bilhões no ano fiscal de 2027. Se essa estimativa se confirmar, a Nvidia terá multiplicado seu faturamento anual por aproximadamente 15 vezes em apenas cinco anos.
Poucas empresas na história recente conseguiram combinar uma expansão dessa magnitude com margens tão elevadas.

Para o leitor brasileiro, talvez seja mais fácil compreender fazendo uma conta bastante simples.
Imagine quatro empresas que faturam R$ 100.
Usando como referência os resultados analisados, a JBS ficaria com algo próximo de R$ 2 de lucro líquido. A Petrobras, cerca de R$ 22. O Itaú, considerando sua receita operacional IFRS, aproximadamente R$ 27.
Na Nvidia, seriam aproximadamente R$ 62.
Evidentemente, são empresas de setores completamente diferentes. Um banco possui estrutura contábil diferente de uma petroleira; uma companhia de alimentos opera com margens e custos diferentes dos encontrados na indústria de semicondutores.
A comparação, portanto, não pretende dizer qual empresa é melhor. Ela serve para mostrar quão fora da curva é uma margem líquida de 62% em uma companhia que já movimenta quase US$ 100 bilhões por trimestre.

Aqui começa a parte mais interessante da história.
Quando pensamos em uma companhia que vende equipamentos físicos, imaginamos enormes fábricas, linhas de produção, milhares de máquinas e investimentos bilionários para produzir cada unidade.
A Nvidia possui um modelo diferente. Ela é uma companhia conhecida na indústria como fabless.
Isso significa que a Nvidia desenvolve seus chips, arquiteturas e tecnologias, mas não precisa ser proprietária das fábricas avançadíssimas responsáveis pela fabricação física de seus principais semicondutores.
Parte fundamental dessa produção é realizada por companhias especializadas, principalmente a TSMC.
É uma divisão de trabalho extremamente interessante. A Nvidia concentra seus esforços justamente em algumas das partes mais valiosas da cadeia: pesquisa, arquitetura, design, propriedade intelectual, sistemas e software.
A fabricação fica com empresas que investiram dezenas de bilhões de dólares na construção das fábricas mais sofisticadas do planeta. Mas isso, sozinho, ainda não explica os 62%.

Talvez esse seja um dos maiores erros ao tentar compreender a companhia.
A Nvidia já não pode ser analisada simplesmente como uma fabricante de placas de vídeo.
Ao longo de décadas, ela construiu um ecossistema envolvendo GPUs, sistemas completos de computação, redes de alta velocidade, bibliotecas, softwares e ferramentas para desenvolvedores.
Um dos ativos mais importantes desse ecossistema é o CUDA, plataforma criada pela Nvidia ainda em 2006.
Durante anos, desenvolvedores, pesquisadores e empresas construíram aplicações utilizando essa plataforma.
Quando ocorreu a explosão da inteligência artificial generativa, portanto, a Nvidia não tinha apenas um processador poderoso. Ela tinha o chip, o software, as ferramentas e uma enorme comunidade de desenvolvedores trabalhando dentro de seu ecossistema.
Isso criou uma vantagem competitiva difícil de reproduzir rapidamente.

Existe outro número no balanço que talvez explique melhor do que qualquer outro o que aconteceu com a Nvidia.
Dos US$ 96,2 bilhões faturados no último trimestre, nada menos que US$ 89 bilhões vieram do segmento de Data Centers.
Há um ano, essa divisão faturava aproximadamente US$ 41 bilhões. O crescimento foi de 117% em apenas doze meses.
É praticamente uma nova Nvidia surgindo dentro da própria Nvidia a cada poucos trimestres.
Microsoft, Amazon, Google, Meta e inúmeras outras companhias estão investindo centenas de bilhões de dólares na construção da infraestrutura necessária para desenvolver e operar inteligência artificial.
Governos também entraram nessa disputa. Novos laboratórios de IA precisam de capacidade computacional. Empresas tradicionais querem incorporar inteligência artificial aos seus produtos. E cada novo modelo, aplicação ou agente de IA precisa rodar em algum lugar.
É justamente aí que a Nvidia encontrou uma posição extraordinariamente valiosa.

Existe uma velha analogia do mundo dos negócios que se encaixa muito bem no momento atual.
Durante uma corrida do ouro, milhares de pessoas podem disputar para descobrir quem encontrará ouro. Algumas ficarão ricas. Muitas perderão dinheiro.
Mas alguém precisa vender as pás, as picaretas e os equipamentos utilizados por praticamente todos os participantes.
Na corrida da inteligência artificial, a Nvidia conseguiu se posicionar como uma das principais fornecedoras das ferramentas.
Não sabemos ainda quem serão todos os grandes vencedores da IA. Não sabemos qual modelo dominará o mercado daqui a dez anos. Não sabemos quais aplicações serão capazes de justificar os centenas de bilhões de dólares atualmente investidos.
Mas existe uma certeza no presente: para participar dessa corrida é necessário poder computacional.
E uma parcela enorme desse poder computacional utiliza tecnologia da Nvidia.

Nenhuma margem extraordinária deve ser considerada permanente.
Margens de 62% naturalmente atraem concorrentes.
AMD e outras fabricantes querem ampliar sua participação nesse mercado. Google, Amazon, Microsoft e outros gigantes tecnológicos desenvolvem seus próprios aceleradores. Clientes da Nvidia possuem interesse econômico evidente em reduzir sua dependência de um único fornecedor.
Existe também o desafio dos custos. A própria Nvidia já sinalizou que sua margem bruta deve recuar dos atuais 75% à medida que aumentam os custos de componentes, especialmente memória, e novos sistemas chegam ao mercado.
É o paradoxo de todo negócio extraordinariamente lucrativo: quanto maior o lucro, maior o incentivo para que outras empresas tentem capturar uma parte dele.
Por isso, talvez o grande teste para a Nvidia não seja simplesmente continuar crescendo. Será preservar seu poder de precificação e sua vantagem tecnológica enquanto clientes e concorrentes gastam bilhões tentando diminuir sua dependência.

O que está acontecendo com a Nvidia é difícil de encontrar em qualquer período recente da economia mundial.
Em 2022, a companhia faturava US$ 26,9 bilhões durante um ano inteiro. No último trimestre, faturou US$ 96,2 bilhões em três meses. Seu lucro líquido trimestral chegou a US$ 59,7 bilhões. Sua margem líquida alcançou aproximadamente 62%. E o mercado acredita que seu faturamento anual pode se aproximar dos US$ 400 bilhões.

É tentador olhar para esses números e concluir que estamos diante apenas de uma história sobre inteligência artificial.
Talvez seja algo maior.
A Nvidia é também uma aula sobre posicionamento empresarial.
Durante anos, a companhia investiu em uma tecnologia cujo mercado ainda era relativamente pequeno. Construiu hardware, software, ferramentas e uma comunidade em torno dessa tecnologia.
Quando o mercado finalmente explodiu, ela já estava posicionada no centro dele.
E essa talvez seja a principal lição que fica para quem acompanha negócios: grandes empresas não são construídas apenas capturando uma tendência quando ela já se tornou evidente. Muitas vezes, são construídas anos antes, preparando-se para estar no lugar certo quando a tendência finalmente acontece.
A inteligência artificial pode ainda estar no começo de sua história. Mas, até aqui, uma coisa já está clara: poucas empresas conseguiram ganhar tanto dinheiro com essa revolução quanto a Nvidia.

Nota editorial: Valores da Nvidia apresentados em dólares e referentes aos anos fiscais da companhia. A projeção de 2027 corresponde a estimativa de mercado, não a guidance anual oficial da empresa.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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