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Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Maioria nas urnas e minoria no poder

Com 52% do eleitorado, as mulheres ficaram com apenas quatro das 30 cadeiras da Alepi e nenhuma das dez vagas piauienses na Câmara dos Deputados.

Por Willian Tito

05 de outubro de 2026 às 10:38 ▪ Atualizado em 05/10 às 12:01

Ver resumo
  • O eleitorado do Piauí é composto por 52% de mulheres, mas elas são sub-representadas nos cargos eletivos.
  • Na Assembleia Legislativa, apenas quatro mulheres foram eleitas entre 30 cadeiras.
  • As mulheres receberam 13,9% dos votos válidos para deputada estadual, mas obtiveram apenas 13,33% das cadeiras.
  • Nenhuma mulher foi eleita para a Câmara dos Deputados ou Senado.
  • A bancada federal do Piauí é inteiramente masculina.
  • No Executivo estadual, o governador e o vice são homens.
  • Apesar de maioria no eleitorado, mulheres têm apenas 9,1% de representação eleita.
  • O cenário de representação feminina na Alepi está estagnado há doze anos.
  • Forte concentração de poder político em partidos da coligação governista, mas com pouca presença feminina.
  • A eleição revela uma desigualdade entre a distribuição demográfica e a representação política.
  • A questão feminina destaca a necessidade de maior equidade e diversidade representativa política.

As urnas fecharam, os números chegaram e o Piauí acordou nesta segunda-feira diante de uma eleição que produziu resultados políticos expressivos, algumas mudanças importantes e uma contradição difícil de esconder.

Comecemos por ela. O Piauí tem 2,7 milhões de eleitoras e eleitores aptos a votar. Desse universo, 1.400.770 são mulheres. Aproximadamente 52% do eleitorado. Elas são maioria na lista de quem pode escolher. Não são, nem de longe, maioria entre os escolhidos.

Para a Assembleia Legislativa, foram eleitas quatro mulheres entre 50 candidatas listadas, para as 30 cadeiras em disputa. Anyara Santos (MDB), 51.919 votos. Janainna Marques (PT), com 49.601. Ana Paula (MDB), totalizou 47.356. E Simone Pereira (PSD), fechou com 33.914. Somadas, as quatro receberam 182.790 votos. O suficiente para eleger uma deputada federal.

Os votos válidos para deputado estadual foram 2.104.590. Desconsiderando a pequena parcela de candidaturas cuja votação aparece fora do denominador oficial por situação jurídica, o total em mulheres corresponde a cerca de 13,9% dos votos válidos. Quatro representa 13,33% da Alepi. Os outros 26 lugares, ou 86,67% da Casa, serão ocupados por homens.

Para a Câmara dos Deputados, o resultado é ainda mais eloquente. Das 59 candidatas que disputaram as dez cadeiras, a soma foi 160.435 votos. Nenhuma foi eleita. Considerando apenas as candidaturas cujos votos integram o denominador de válidos do TSE, as mulheres concentraram cerca de 7,5% dos votos válidos para deputado federal. Mulheres que concorreram à Alepi receberam mais votos que as que disputaram a Câmara Federal.

Nenhuma mulher. O Piauí enviará dez deputados federais a Brasília e não haverá uma única mulher eleita em 2026. A bancada federal piauiense é integralmente masculina.

Nas duas vagas disputadas para o Senado, o resultado se repete. Foram eleitos Marcelo Castro e Júlio César. Dois homens. As candidatas mulheres somaram 33.491 votos. Maria Madalena Nunes (PSOL), 27.015 votos. Jardenya Bezerra (Democrata), 6.476 votos. Corresponde a aproximadamente 0,91% dos 3.666.473 votos válidos registrados ao Senado. Nenhuma mulher.

No Executivo estadual, Rafael Fonteles foi reeleito governador tendo Washington Bandeira como vice. Mais dois homens. Para governadora do Piauí em 2026, três mulheres candidatas. Dra. Lúcia Santos (PSDB), 9.611 votos. Lourdes Melo (PCO), 1.296 votos. Ravenna da Inclusão (Democrata), 819 votos. Somadas, receberam 11.726 votos. Cerca de 0,58% dos votos válidos para governador. O total de votos ao cargo foi de 2.026.275.

Façamos uma conta simples. Somando governador, vice-governador, as duas vagas ao Senado, os dez deputados federais e os 30 estaduais, chegamos a 44 pessoas eleitas. Mulheres, quatro. Homens, quarenta. O eleitorado que tem aproximadamente 52% do total produziu uma representação feminina de apenas 9,1%.

Ainda não há regra segundo a qual a composição dos parlamentos deva reproduzir matematicamente a composição do eleitorado. A comparação serve para outra coisa. A ilustração serve para medir a distância entre presença social e presença institucional.

Se a Alepi espelhasse a proporção de mulheres existente no eleitorado, seriam aproximadamente 16 deputadas. Serão quatro. Na Câmara, uma representação próxima da composição do eleitorado significaria cerca de cinco mulheres entre as dez vagas piauienses. Serão zero.

Não estamos diante de um problema novo. Em 2010, sete mulheres foram eleitas para a Assembleia Legislativa do Piauí. Foi o maior número registrado na história. Em 2014, foram quatro. Em 2018, quatro novamente. Em 2022, mais uma vez, quatro. Agora, em 2026, quatro. Doze anos se passaram sem que a bancada feminina eleita da Alepi saísse do mesmo número. A eleição de 2026 está bem abaixo das sete cadeiras alcançadas 16 anos atrás.

Na representação federal, a curva é mais incômoda. Em 2018, o Piauí elegeu quatro deputadas federais. Em 2022, apenas uma, Rejane Dias. Ela renunciou ao mandato antes da posse da legislatura para assumir como conselheira do Tribunal de Contas do Estado, deixando a representação piauiense na Câmara sem mulheres. Agora não será necessária renúncia.

A eleição produziu uma bancada formada exclusivamente por homens. A eleição demonstrou pouquíssima disposição para mudanças no campo majoritário.

 Para Todos Verem: Imagem mostra mulheres de diferentes idades e tons de pele votando, enquanto, à direita, um plenário político aparece ocupado majoritariamente por homens. Ao fundo, referências visuais ao Piauí reforçam o cenário. A composição simboliza o contraste entre a maioria feminina no eleitorado e sua baixa representação nos espaços de poder.Para Todos Verem: Imagem mostra mulheres de diferentes idades e tons de pele votando, enquanto, à direita, um plenário político aparece ocupado majoritariamente por homens. Ao fundo, referências visuais ao Piauí reforçam o cenário. A composição simboliza o contraste entre a maioria feminina no eleitorado e sua baixa representação nos espaços de poder. 

Rafael Fonteles foi reeleito governador no primeiro turno com 1.436.697 votos, correspondentes a 70,90% dos votos válidos. Joel Rodrigues alcançou 27,54%. Em 2022, Rafael havia vencido com 57,17%. Quatro anos depois, ampliou consideravelmente sua votação proporcional.

O resultado presidencial no Piauí quase reproduziu o número do governador. Lula obteve 70,99% dos votos válidos no estado. Flávio Bolsonaro, 24,09%. A diferença entre os percentuais de Rafael e Lula no território piauiense foi de apenas 0,09 ponto percentual.

O contraste com o país é enorme. Nacionalmente, Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03%, enquanto Lula obteve 45,16%. Os dois voltam às urnas no dia 25 de outubro para o segundo turno. O Piauí continua bastante diferente do resultado nacional na disputa presidencial.

No Senado, Marcelo Castro foi reeleito com 35,67% dos votos válidos para o cargo. Júlio César ficou com a segunda vaga, com 26,98%. Ciro Nogueira terminou em terceiro, com 24,68%, e não conseguiu a reeleição. Como em 2026 cada eleitor podia votar em dois candidatos ao Senado, os percentuais precisam ser lidos dentro dessa particularidade. As duas cadeiras ficaram com partidos que integraram a aliança que sustenta Rafael Fonteles.

Na Câmara dos Deputados, a mesma força política aparece com enorme dimensão, 90%. Dos dez eleitos pelo Piauí, nove pertencem a partidos que fizeram parte da coligação de Rafael. PT, PV, MDB, PSD e Republicanos. Apenas Júlio Arcoverde, do PP, está fora do conjunto.

Na Assembleia Legislativa, a fotografia praticamente se repete. PT, MDB, PSD e PV, partidos integrantes da coligação governista, somam 27 das 30 cadeiras. Novamente, 90%. Ao PP ficaram as outras três.

A eleição entregou um desenho de poder extremamente concentrado. O governador venceu no primeiro turno com mais de 70%. Os dois senadores eleitos são da aliança. Nove dos dez deputados federais pertencem a partidos da coligação. E 27 dos 30 deputados estaduais vêm das mesmas legendas que sustentaram sua candidatura. Força eleitoral, capilaridade partidária e domínio territorial evidentes nos números.

Diante do cenário, a questão feminina fica ainda mais incômoda. Um sistema político capaz de organizar aliança tão abrangente, distribuir candidaturas por todo o estado, eleger senadores, formar 90% da bancada federal e 90% da Assembleia Legislativa não conseguiu produzir representação feminina minimamente próxima da composição real do eleitorado.

As mulheres estão no título, na fila, nas urnas, nas campanhas, mas continuam dramaticamente sub-representadas entre quem é escolhido. Não basta perguntar quem ganhou. É preciso perguntar quem continua sem chegar.

Democracia não se mede apenas pela quantidade de votos depositados na urna. Mede-se pela capacidade de transformar a diversidade de quem vota na diversidade de quem ocupa as cadeiras onde o poder decide.

No Piauí de 2026, as mulheres são maioria no eleitorado. No poder, continuam minoria absoluta. A urna contou os votos, mas a representação ainda não aprendeu a contar todas as pessoas. Como resolver tudo isso? Não sei. Tenho algumas ideias. Vou colocar aqui antes do segundo turno. Afinal, são as mulheres que vão decidí-lo. A equidade deve entrar na urna daqui a vinte dias.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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