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Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Sotaque de poder

Depois de décadas fornecendo braços, cultura, energia e riqueza ao Brasil, o Nordeste vai ao segundo turno com força eleitoral decisiva e enfrenta quem tenta reduzir a região a caricatura.

Por Willian Tito

08 de outubro de 2026 às 11:18 ▪ Atualizado em 08/10 às 12:17

Ver resumo
  • O Dia do Nordestino destaca a importância cultural e histórica da região, responsável por um quarto do eleitorado brasileiro.
  • Enfrenta-se a persistente xenofobia, com estigmas relacionados à pobreza e à dependência econômica, apesar de contribuições significativas ao Brasil.
  • O Nordeste tem uma diversidade cultural rica, com música, literatura e culinária influentes.
  • Historicamente, a migração nordestina foi vital para o desenvolvimento de cidades como São Paulo e Brasília.
  • Em contextos eleitorais, a região é frequentemente estereotipada, mas tem um impacto eleitoral significativo, refletido nos números do último pleito.
  • A xenofobia contra nordestinos contraria leis brasileiras que punem discriminação e preconceito.
  • O potencial energético do Nordeste, através de fontes eólica e solar, tem se destacado, levando a um reconhecimento crescente.
  • Discussões sobre a influência do Nordeste nas eleições e propostas políticas, como a redução da jornada de trabalho, refletem sua importância no cenário nacional.
  • Celebra-se a memória de figuras como Patativa do Assaré, que simbolizam a resistência cultural e política da região.
  • O artigo propõe que o reconhecimento do valor da região não deve ser pedido, mas reconhecido como parte vital da construção do país.

No Dia do Nordestino, a região que reúne mais de um quarto do eleitorado brasileiro chega ao segundo turno novamente decisiva. Mas tem que enfrentar xenofobia.

Neste Dia do Nordestino, vamos começar pelas praias. As mais bonitas do Brasil. Não pretendo abrir consulta pública sobre o assunto porque democracia também precisa conhecer seus limites.

Temos comida para derrubar regime, música maravilhosa suficiente para várias encarnações, literatura que cabe da feira livre à academia. Nove estados, nove sotaques que não cabem numa única legenda e a habilidade secular de oferecer café a quem acabou de chegar dizendo que não toma.

O 8 de outubro é uma boa oportunidade para falar menos do Nordeste de cartão-postal e mais do Nordeste que ajudou a carregar o Brasil nas costas. O primeiro detalhe é bem brasileiro. O Dia do Nordestino ficou nacionalmente conhecido antes de virar uma data nacional.

A comemoração entrou no calendário da cidade de São Paulo pela Lei municipal nº 14.952, de 13 de julho de 2009, que determinou a celebração em 8 de outubro. Naquele ano, a Câmara paulistana realizou solenidade que uniu o Dia do Nordestino às homenagens pelo centenário de Patativa do Assaré.

Hoje, tramita no Congresso o Projeto de Lei nº 2.755/2022, já aprovado no Senado e enviado à Câmara em dezembro de 2024, para instituir nacionalmente o Dia do Nordestino em 8 de outubro. Na justificativa do projeto federal, a referência da data é Catulo da Paixão Cearense, poeta, músico e teatrólogo maranhense nascido em São Luís em 8 de outubro de 1863.

Cabe um acerto histórico importante. Antônio Gonçalves da Silva, que o Brasil inteiro aprendeu a chamar de Patativa do Assaré, nasceu em 5 de março de 1909, na Serra de Santana, em Assaré, Ceará. Morreu em 8 de julho de 2002 aos 93 anos. Agricultor, cantador, compositor e um dos maiores poetas populares brasileiros. A associação ao Dia do Nordestino vem especialmente do centenário celebrado em 2009 e da homenagem que a Câmara de São Paulo realizou solenemente. 

Pouca gente liga Antônio Gonçalves da Silva ao homem genial que se escondia atrás do nome Patativa. Menos gente ainda lembra que Patativa entendia de eleição. Em “O que mais dói”, enumera saudade, amizade traída, doença e perda de posição. Mas nada supera a derradeira aflição.

“O que mais dói não é sofrer saudade Do amor querido que se encontra ausente Nem a lembrança que o coração sente Dos belos sonhos da primeira idade. Não é também a dura crueldade Do falso amigo, quando engana a gente, Nem os martírios de uma dor latente, Quando a moléstia o nosso corpo invade. O que mais dói e o peito nos oprime, E nos revolta mais que o próprio crime, Não é perder da posição um grau. É ver os votos de um país inteiro, Desde o praciano ao camponês roceiro, Pra eleger um presidente mau.”

O poema é atribuído a Patativa em diferentes registros literários e chegou a ser utilizado em prova da Universidade Regional do Cariri. Patativa morreu há 24 anos e continua metido na eleição de 2026. Poeta bom é assim.

1/4 das urnas

O Nordeste não é uma pequena faixa no mapa pedindo atenção. O Censo de 2022 contou 54.658.515 habitantes nos nove estados nordestinos. Em 2026, a região reúne 43.529.845 eleitoras e eleitores, o equivalente a 27,42% de todo o eleitorado brasileiro. Mais de um em cada quatro votos disponíveis no país está aqui.

No primeiro turno de domingo, Lula recebeu 21.494.584 votos no Nordeste, 63,77% dos válidos da região. Flávio Bolsonaro teve 10.398.973, ou 30,85%. A diferença regional ultrapassou 11 milhões de votos. Mas há um dado que desmonta a caricatura de um Nordeste eleitoralmente uniforme. Flávio cresceu nos nove estados em relação à votação de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022.

No país inteiro, o resultado foi outro desenho. Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio terminou o primeiro turno com 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos, e Lula com 53.876.617, ou 45,16%. O segundo turno vai ser resolver a parada em 25 de outubro.

Levantamento da Ativaweb DataLab, divulgado hoje, quinta-feira, monitorou 32,8 milhões de interações públicas relacionadas ao Nordeste nas primeiras 72 horas posteriores ao primeiro turno. Segundo a metodologia do estudo, 82,2%, algo próximo de 27 milhões de interações, apresentavam conteúdo crítico ou pejorativo associado ao comportamento eleitoral da região. O levantamento identificou referências recorrentes à pobreza, dependência econômica e suposta inferioridade intelectual.

Discordar do voto nordestino é democracia. Considerar o nordestino inferior porque votou diferente é outra coisa.

A legislação brasileira pune discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional pela Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Em 2023, a Lei nº 14.532 acrescentou à mesma legislação o crime de injúria em razão também da procedência nacional, com pena prevista de dois a cinco anos e multa. A aplicação a situações específicas de preconceito regional depende do conteúdo e da análise jurídica de cada caso. Na dúvida, é mais econômico ter educação. Sai mais barato que advogado.

quem carregou quem?

Há uma ingratidão histórica em tratar o Nordeste como passageiro de um Brasil cujo desenvolvimento ajudou a construir. A migração nordestina forneceu braços às cidades que se industrializavam e urbanizavam. O IBGE registra que São Paulo recebeu mais de um milhão de migrantes entre 1940 e 1950, atraídos pela industrialização e pelo setor de serviços, com forte presença de pessoas vindas de Minas Gerais e da Bahia.

Os trabalhadores que chegaram para erguer Brasília ficaram conhecidos como candangos. Documentos históricos do Distrito Federal registram que vinham de várias partes do país, principalmente do Nordeste. O DNOCS registra a construção, iniciada em 1958, da Rodovia Nordeste–Brasília. Aberta para ligar diretamente a nova capital à região, atravessando Ceará, Piauí, Bahia e Goiás. Picos, Simplício Mendes, São João do Piauí e São Raimundo Nonato estavam no caminho.

 Para Todos Verem: Imagem horizontal em formato de colcha de retalhos reúne as bandeiras dos nove estados do Nordeste, costuradas lado a lado como partes de uma única peça de tecido. Aparecem as bandeiras de Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. As costuras aparentes entre os retalhos reforçam a ideia de união entre identidades diferentes. A composição colorida simboliza diversidade, pertencimento regional e a força coletiva dos nove estados nordestinos.Para Todos Verem: Imagem horizontal em formato de colcha de retalhos reúne as bandeiras dos nove estados do Nordeste, costuradas lado a lado como partes de uma única peça de tecido. Aparecem as bandeiras de Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. As costuras aparentes entre os retalhos reforçam a ideia de união entre identidades diferentes. A composição colorida simboliza diversidade, pertencimento regional e a força coletiva dos nove estados nordestinos. 

Tiririca e a geografia do voto

É sempre bom ter cuidado antes de atribuir regionalmente as escolhas eleitorais duvidosas. Por exemplo, não fomos nós que elegemos Tiririca quatro vezes deputado federal. Francisco Everardo Oliveira Silva, cearense de Itapipoca, foi eleito pela primeira vez por São Paulo, em 2010, com 1.353.820 votos. Repetiu a dose paulista em 2014, 2018 e 2022. Em 2026 resolveu disputar pela primeira vez uma cadeira federal no Ceará. Recebeu 5.523 votos e não se elegeu.

Nada contra Tiririca, cuja trajetória artística merece respeito e cuja votação sempre foi absolutamente legítima. O episódio serve apenas para uma higiene de raciocínio. Escolha eleitoral controversa não tem sotaque exclusivo. E não vale combater preconceito de CEP inventando outro CEP para o preconceito.

O resultado de 2026 ampliou numericamente a presença da direita. O PL elegeu 121 deputados federais, tornando-se a maior bancada da Câmara. No Senado, o partido elegeu 19 das 54 cadeiras em disputa e deverá começar 2027 com 28 dos 81 senadores, também a maior bancada partidária da Casa. A composição saiu das urnas de 27 unidades da Federação. Não dá para despachar a responsabilidade inteira por Sedex ao Nordeste.

Normalmente, o sol do Nordeste aparece como personagem de tragédia. O sol da seca, da retirada, da terra rachada, do sofrimento. Agora descobriram que ele também produz megawatt. Em 2025, as fontes eólica e solar juntas já respondem por 26,4% de toda a geração de eletricidade brasileira. Na expansão da capacidade de geração ocorrida naquele ano, 42,9% do crescimento nacional das fontes solar e eólica aconteceu no Nordeste, segundo o Ministério de Minas e Energia. O Banco do Nordeste calcula que a região concentrava, ao fim de 2025, 52% dos projetos fotovoltaicos centralizados do país. O vento que levantava poeira agora movimenta turbina. O sol que castigava sertanejo virou ativo energético. Bastou alguém descobrir como cobrar por ele.

relógio na campanha

A PEC 221/2019, que propõe reduzir a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, permitir o cumprimento em cinco dias e garantir dois dias de repouso sem redução salarial, está sendo discutida no Senado. Na terça-feira, 6 de outubro, ocorreu a primeira das cinco sessões regimentais de discussão em primeiro turno. Ontem aconteceu a segunda. Para esta quinta-feira, 8 de outubro, está marcada a terceira sessão, a partir das 14h. Depois, ainda haverá votação em dois turnos. A PEC precisa de pelo menos 49 dos 81 senadores em cada votação. Por enquanto, ninguém acabou com a 6x1.

Lula incorporou a redução da jornada à campanha e cobra de Flávio Bolsonaro e do PL uma posição sobre a PEC. Flávio critica o momento da tramitação, classifica a condução como eleitoralmente oportunista e defende uma alternativa baseada em maior flexibilidade contratual e pagamento proporcional às horas, mantendo o teto constitucional de 44 horas.

São duas propostas distintas para o mundo do trabalho e, agora, duas narrativas tentando conquistar o eleitor. O Nordeste volta a ter peso importante na escolha presidencial de 25 de outubro. Representam 27,42% do eleitorado nacional. Número não aceita xenofobia como argumento.

Patativa olhando

Voltamos ao agricultor Antônio Gonçalves da Silva. O menino que frequentou escola formal por poucos meses, tornou-se Patativa do Assaré, recebeu títulos honoríficos de universidades, foi cantado por Luiz Gonzaga e fez poesia sobre terra, fome, seca, desigualdade, política e voto. O Governo do Ceará registra a trajetória como a de um poeta que denunciou desigualdades, defendeu reforma agrária, eleições diretas e renovação política.

A urna não pergunta sotaque. Depois da apuração, deveria continuar sem perguntar. O Nordeste não precisa provar que merece pertencer ao Brasil porque construiu Brasília, ajudou a erguer São Paulo, produz energia, música, literatura, comida, ciência ou as praias mais bonitas do planeta. Sendo a última afirmação dispensada de auditoria por absoluto bom senso.

Neste Dia do Nordestino, vale guardar o orgulho e dispensar a raiva. Quando vierem perguntar novamente por que o Nordeste votou assim ou assado, podemos explicar. Com calma, números, história. Até oferecer café. Somos acolhedores. Mas não confunda gentileza com obrigação de pedir licença. O Nordeste passou tanto tempo carregando o Brasil nas costas que não deveria causar espanto quando resolve também ajudar a escolher para onde vai o país.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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