Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

É Primavera

Na Caatinga, a estação das flores assume outra forma no Piauí, onde a vida se recolhe, economiza força e atravessa a secura à espera da primeira chuva que devolve folhas e cores à paisagem.

Por Willian Tito

23 de setembro de 2026 às 18:36 ▪ Atualizado em 23/09 às 19:11

Ver resumo
  • A primavera começou oficialmente no Hemisfério Sul em 22 de setembro, mas a Caatinga, no semiárido, não segue o calendário tradicional.
  • Na Caatinga, a relação entre chuva e crescimento de plantas é crucial, com a estação seca de maio a outubro.
  • A chegada da primavera no Piauí coincide com um período mais quente, seco e sem chuvas significativas.
  • A vegetação da Caatinga se adapta economizando água, mas algumas espécies respondem rapidamente a chuvas ocasionais.
  • A história da ursa Marsha, que foi levada a um santuário para viver seus últimos meses em um ambiente adequado, é lembrada como símbolo de renovação.
  • Apesar da aparência seca, a Caatinga transforma-se rapidamente com a chegada das chuvas, evidenciando a resiliência e adaptação local.

A primavera chegou ontem à noite. Exatamente às 21h05 de 22 de setembro, o Sol cruzou o Equador celeste e inaugurou oficialmente a nova estação no Hemisfério Sul. É o que diz a astronomia.

A Caatinga não lê calendário. Quem procura no sertão a primavera clássica, com árvores subitamente verdes, campos cobertos de flores, temperatura amena e passarinhos compondo a trilha sonora, errou de endereço.

Errou não. A primavera daqui tem outra gramática. No Semiárido, mais importante que virar setembro para outubro é saber quando a água virá. Estudos da Embrapa sobre a fenologia de espécies da Caatinga mostram a relação estreita entre chuva, nascimento de folhas, flores e frutos. No Semiárido, os maiores índices de brotação ocorrem durante os meses chuvosos. Entre maio e outubro predomina a perda das folhas. A floração se concentra principalmente no começo da estação das chuvas. A água é o grande relógio da Caatinga.

No Piauí, a chegada astronômica da primavera coincide com o período mais quente do ano. Sol forte. Baixíssima umidade. Vegetação aparentemente imóvel. Tons de terra, palha, cinza e madeira. O verde que dominou a paisagem meses atrás recua. Muitas plantas dispensam as próprias folhas para diminuir a perda de água e atravessar a estiagem. Não estão mortas. Estão economizando vida. O que parece abandono é estratégia.

A planta que se despe, trabalha para sobreviver.

A previsão sazonal do Inmet indica precipitações inferiores a 100 milímetros durante a estação em áreas do norte piauiense e do noroeste cearense. Para hoje, o instituto destaca calor e baixa umidade no Matopiba. Primavera não significa necessariamente chuva. Muito menos friozinho. No Piauí significa mais sol. Forte. Fortíssimo.

Seria injusto imaginar a Caatinga como um enorme cenário marrom esperando janeiro. Ela guarda surpresas. Durante a seca, diferentes espécies obedecem a relógios próprios. Algumas florescem quando quase tudo parece dormir. Outras antecipam folhas diante da chuva isolada. Há plantas capazes de responder rapidamente a pequenas mudanças de umidade. Pesquisas fenológicas mostram que chuvas ocasionais, mesmo fora do período habitual, podem provocar novos fluxos de folhas e alterações na floração.

A Caatinga não explode inteira em primavera. Acende luzes. Uma flor acolá. Um botão aqui. Uma árvore que decide se vestir enquanto a vizinha continua nua. Um pássaro que encontra alimento na planta que resolveu desafiar a aparência geral da paisagem. Uma primavera menos cenográfica. Talvez mais interessante.

 Para Todos Verem: Imagem em formato horizontal mostra uma paisagem da Caatinga ao entardecer. Em primeiro plano, cactos, pedras e árvores de galhos retorcidos dividem espaço com pequenos brotos verdes e delicadas flores claras, sinais discretos de renovação em meio à vegetação seca. Ao fundo, serras baixas e uma extensa área de mata recebem a luz dourada do sol próximo ao horizonte. O céu tem nuvens suaves e tons quentes de amarelo e laranja. A cena contrasta a aridez típica do sertão com os primeiros sinais de uma primavera que chega de forma sutil.Para Todos Verem: Imagem em formato horizontal mostra uma paisagem da Caatinga ao entardecer. Em primeiro plano, cactos, pedras e árvores de galhos retorcidos dividem espaço com pequenos brotos verdes e delicadas flores claras, sinais discretos de renovação em meio à vegetação seca. Ao fundo, serras baixas e uma extensa área de mata recebem a luz dourada do sol próximo ao horizonte. O céu tem nuvens suaves e tons quentes de amarelo e laranja. A cena contrasta a aridez típica do sertão com os primeiros sinais de uma primavera que chega de forma sutil. 

O calendário também traz memória piauiense impossível de esquecer. Há oito anos, em 21 de setembro de 2018, a ursa Marsha deixava Teresina num avião da Força Aérea Brasileira. Era um Hércules C-130. Aeronave que foi substituída pelo Millenium KC-390. Eu voei junto com ela.

Depois de uma vida marcada por circo, cativeiro e anos no Zoobotânico sob temperaturas inadequadas para uma ursa-parda de origem fria, siberiana, Marsha desembarcou em São Paulo já à noite. Estava gelado. Na manhã de 22 de setembro, chegou ao Rancho dos Gnomos, em Joanópolis. Lá receberia o nome de Rowena. Ela carregava a chave que abriu as jaulas de outros ursos.

A primavera de 2018 somente começou às 22h53 de 22 de setembro. Marsha chegou ao santuário no último dia astronômico do inverno. Horas depois, começava outra estação. Outro ciclo. Outra vida. Rowena recebeu espaço maior, alimentação adequada, temperatura sempre amena, intensos cuidados veterinários e uma rotina totalmente diferente do Brasil que conhecera.

A permanência no santuário seria breve. Morreu em julho de 2019, após complicações de um tumor grave. Foram cerca de dez meses naquela nova vida. De rainha. Foram cinco anos de luta. Guerra nos tribunais e nas redes. Ela teria vivido mais tempo sob cuidados adequados. Talvez nem desenvolvesse o câncer no útero. Talvez fosse tratado. Talvez não se espalhasse para o cérebro. Talvez.

Dez meses foi pouco. Mas tempo de dignidade conta diferente. No curto espaço de tempo ela recebeu o oposto do que sempre experimentou na maior parte de sua vida. Sendo explorada desde bebê. Quando foi arrancada de sua mãe e traficada para o circo, que ainda hoje está em funcionamento. Marsha cabe perfeitamente na conversa. Nem toda primavera começa com flores. Algumas começam quando termina a jaula.

Nesta primeira manhã completa da primavera de 2026, a Caatinga continua parecendo seca. Os galhos retorcidos. O chão quente. Verde é exceção. Não há contradição. O equinócio pertence à astronomia. A floração pertence à biologia.

A Caatinga fez um acordo antigo com a chuva. Quando a água chega, o que parece inerte vai responder depressa. Troncos aparentemente secos brotam folhas. Flores despertam. Insetos reaparecem. A paisagem muda totalmente diante dos olhos em poucos dias. Enquanto isso, olhamos para o céu. Alegria no olhar quando encontra nuvem. Esperança de chuva. Água. O relógio do sertão. Até lá, a vida permanece guardada.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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