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Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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O jogo virou?

Depois da vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, Lula reinventou sua comunicação, mobilizou artistas, conquistou as redes e transformou a disputa numa eleição novamente imprevisível.

Por Willian Tito

22 de outubro de 2026 às 20:44 ▪ Atualizado em 22/10 às 21:07

Ver resumo
  • Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno voto a voto, com uma diferença inicial de pouco mais de 2 milhões de votos em favor de Flávio.
  • Lula mudou sua estratégia de campanha, adotando uma abordagem mais ativa e de mobilização nas redes sociais, liderada por André Janones.
  • A campanha de Lula ganhou apoio de artistas, celebridades e fandoms, aumentando sua presença nas redes sociais.
  • Debate sobre a transparência dos candidatos surgiu, com Flávio Bolsonaro sendo pressionado a abrir sigilos bancários e fiscais.
  • O TSE está no centro de debates sobre a liberdade e organização de apoiadores nas redes sociais.
  • Questionamentos surgiram sobre práticas da Meta e possíveis influências nas eleições.
  • Vídeos de campanha foram criticados por encenações, especialmente em relação ao Nordeste.
  • Pesquisas apontam um empate técnico entre os candidatos, com ambos experimentando mudanças nas taxas de rejeição.
  • A campanha é marcada por intensa mobilização e contínua disputa por eleitores até a decisão final.

Uma outra eleição. O segundo turno virou o jogo da comunicação política. Lula recupera protagonismo nas redes e nas ruas, Flávio Bolsonaro enfrenta uma ofensiva de desconstrução e os institutos registram uma disputa cada vez mais apertada. A batalha eleitoral começou outra vez e o tabuleiro da comunicação política foi praticamente virado de cabeça para baixo.

Para Todos Verem: Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente, com expressões sérias. Lula, à esquerda, usa terno escuro e gravata vermelha, diante de uma multidão com bandeiras vermelhas. Flávio, à direita, veste terno escuro e gravata verde e amarela.Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno voto a voto. Foto: Imagem criada com IA

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56.104.503 votos, 47,03% dos válidos. Lula obteve 53.879.538 votos, 45,16%. A diferença de 2.224.965 votos deu ao senador a dianteira e a sensação de que o segundo turno seria apenas a administração da vantagem. Ledo engano. Em política, quem dorme sobre os louros pode acordar debaixo dos espinhos.

A campanha de Lula mudou da água para o vinho. O marketing abandonou a defensiva, ganhou agilidade, humor, contundência e uma impressionante capacidade de pautar o adversário. Uma saraivada de peças de desconstrução passou a circular intensamente. Flávio, que antes atacava e cobrava explicações, começou a gastar parte considerável do seu tempo respondendo a provocações. A campanha petista recuperou uma das posições mais cobiçadas da comunicação política. A de quem escolhe e determina o assunto da conversa.

A transformação tem protagonista. André Janones, deputado federal (REDE/MG) e estrategista digital que parece ter descoberto como transformar um aplicativo de mensagens numa usina de comunicação eleitoral. O canal Exército do Lula, que tinha cerca de 50 a 55 mil seguidores antes do segundo turno, ultrapassou oito milhões nesta quinta-feira, 22 de outubro, avançando rapidamente para a marca dos nove milhões.

Não é pouca coisa. Cada publicação considerada prioritária recebe convocação coletiva para interações. Curtidas, comentários, compartilhamentos, republicações e salvamentos de conteúdos multiplicam o alcance. É uma rede orgânica de distribuição voluntária, com organização e velocidade. Significa que milhões de participantes representem milhões de novos eleitores, mas demonstra a capacidade extraordinária de mobilização. O público deixou de apenas assistir à campanha para participar da sua circulação.

Veio apoio de todos os lados. Artistas brasileiros, celebridades, influenciadores e comunidades de fãs, os chamados fandoms, colocaram sua força de comunicação a serviço da candidatura. Perfis dedicados a estrelas como Taylor Swift, Beyoncé, Lady Gaga, BTS e Anitta entraram na movimentação. Não significa, necessariamente, adesão pessoal dos astros internacionais, mas revela o alcance de seus admiradores brasileiros.

A presença de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan e tantos outros artistas ampliou a dimensão cultural da mobilização. Os atos públicos ganharam corpo. O Fator R, Ruas e Redes, passou a funcionar como expressão da nova campanha. Multidões reunidas em manifestações pela democracia, muitas delas sem a presença dos candidatos, ganharam prolongamento nas telas dos celulares. A rua alimenta a rede. A rede convoca a rua. E ambas disputam a opinião pública.

A grande novidade desta quinta-feira, 22 de outubro, é a entrada direta do próprio Lula na engrenagem. Às 19h, o presidente participou de live com André Janones, pelo YouTube. A transmissão tem um ingrediente adicional. Acontece no mesmo horário da tradicional live semanal de Flávio Bolsonaro. Ultrapassou mais de 1 milhão e 200 mil visualizadores simultãneos.

Duas transmissões, duas estratégias e uma disputa pela atenção do mesmo país. O horário eleitoral ganhou concorrência dentro do próprio relógio. Janones ainda anuncia maratona de 24 horas após o debate da TV Globo, marcado para esta sexta-feira, 23. Na campanha permanente, até o descanso virou artigo de luxo. A internet não fecha para almoço.

O debate da Band, realizado no domingo, 18 de outubro, acrescentou novos ingredientes à disputa. Flávio adotou postura agressiva, insistiu em acusações de corrupção e confrontou o presidente. Lula respondeu com um desafio que se transformou no assunto nacional dos últimos dias. Propôs a abertura dos sigilos bancários, fiscais e telefônicos dos dois candidatos e de seus familiares.

A partir daí, a discussão ganhou vida própria. Flávio apresentou 19 condições para aceitar a proposta. Lula concordou com as exigências. Nesta quinta-feira, 22, representantes das campanhas formalizaram acordo no Tribunal Superior Eleitoral. A divulgação efetiva dos dados ainda depende do cumprimento dos procedimentos estabelecidos.

O episódio produziu fenômeno de comunicação. A acusação destinada a colocar Lula na defensiva transformou-se em cobrança sobre o próprio acusador. A exigência de transparência mudou de endereço, e os eleitores passaram a acompanhar a negociação que, por momentos, parecia mais complicada do que abrir um cofre de banco suíço.

O TSE também foi arrastado ao centro das controvérsias. As sucessivas restrições ao Exército do Lula produzem críticas sobre proporcionalidade e liberdade de organização política. Um relatório técnico do próprio tribunal não encontrou, no material examinado, as afirmações falsas apontadas no processo. O canal acabou reativado, mas continua sob questionamentos. Nesta quinta-feira, a Corte voltou a pedir informações à Meta sobre suas atividades.

A questão ultrapassa a preferência eleitoral. Organização legítima de apoiadores não pode ser confundida automaticamente com manipulação clandestina. Se houver irregularidade, cabe investigação e punição. Se não houver, a Justiça deve garantir o exercício da comunicação política. O árbitro não pode virar protagonista da partida.

A Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, enfrenta questionamentos ainda mais delicados. Mensagens internas divulgadas pela imprensa revelaram restrições que prejudicaram contas de Lula e recomendações algorítmicas de perfis de Flávio, práticas que suscitaram dúvidas sobre o cumprimento das regras eleitorais. A empresa reconheceu problemas técnicos, mas negou qualquer favorecimento deliberado. A campanha de Flávio também apresentou reclamações sobre conteúdos contrários ao candidato.

São denúncias que exigem apuração rigorosa. Afinal, quem fiscaliza o algoritmo? Tema que já abordamos e foi publicada aqui. Quando uma empresa privada administra parte significativa da circulação de informações políticas, a responsabilidade deixa de ser apenas comercial. A soberania de uma eleição não pode depender de uma configuração escondida dentro de um servidor. Será que é por isso que a Meta não entra na China?

Para Todos Verem: Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente, com expressões sérias. Lula, à esquerda, usa terno escuro e gravata vermelha, diante de uma multidão com bandeiras vermelhas. Flávio, à direita, veste terno escuro e gravata verde e amarela.Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno voto a voto. Foto: Imagem criada com IA

No Nordeste, outra controvérsia colocou o marketing político sob os holofotes. O deputado Nikolas Ferreira publicou vídeo crítico aos governos petistas, procurando retratar dificuldades sociais da região. Imagens dos bastidores revelaram direção de cena, equipamentos profissionais e orientações para retirar uma antena parabólica do enquadramento. Surgiram acusações de encenação e uso de atores. O parlamentar nega que os relatos foram roteirizados.

A ironia está no enquadramento para apresentar o Nordeste como retrato do atraso. Foi preciso discutir como retirar um sinal de modernidade da fotografia. A pobreza existe e merece tratamento sério, não maquiagem ideológica. O Nordeste não é cenário disponível para qualquer roteiro eleitoral. É região de gente que trabalha, pensa, produz, cria, questiona e vota. Acho que perderam muitos votos. O famoso feitiço virou contra o feiticeiro.

A campanha também atravessa os templos. Católicos e evangélicos revelam preferências eleitorais distintas, enquanto lideranças religiosas se dividem entre apoios explícitos, reservas e críticas aos candidatos. Os fiéis convivem com pressões políticas que, em determinados ambientes, parecem transformar orientação religiosa em recomendação eleitoral. Fronteira delicada, a fé pode iluminar consciências. Não deve sequestrar a liberdade de escolha.

E os números?

A pesquisa PoderData/Aya divulgada nesta quinta-feira mostra Flávio com 51% dos votos válidos e Lula com 49%, um empate técnico dentro da margem de erro. Na rodada anterior, eram 52% a 48%. A Quaest, divulgada na quarta-feira, registrou 45% para Flávio e 44% para Lula nos votos totais, também em empate técnico. A DataFolha, que acabou de sair, deu 50% para cada um.

O indicador mais expressivo da Quaest talvez seja a rejeição. A de Lula caiu de 53% para 47% em uma semana. A de Flávio passou de 54% para 52%. Ambos reduziram suas rejeições, mas o presidente registrou queda mais acentuada. É dado relevante numa eleição em que conquistar novos eleitores pode ser tão importante quanto deixar de ser rejeitado.

As sondagens indicam aproximação. Não dá para decretar virada de resultado. Muito menos permitem atribuir cada oscilação exclusivamente ao marketing. Mas revelam que a vantagem obtida nas urnas por Flávio não se converteu numa corrida tranquila até o segundo turno.

Também seria ingenuidade imaginar um adversário imóvel. Flávio conserva uma base numerosa, estrutura política e força digital própria. Sua campanha criou a Tropa do Flávio, que reúne cerca de dois milhões de seguidores no WhatsApp. Conta ainda com influenciadores, artistas e lideranças conservadoras. O embate permanece intenso porque os dois campos têm capacidade de mobilização.

Faltam três dias para a decisão de 25 de outubro. Até lá, haverá mais debate, mais vídeos, mais acusações, mais desmentidos, mais estratégias e, certamente, alguma surpresa. O voto de cada brasileiro ainda terá a última palavra.

O que já se pode afirmar é que o segundo turno produziu uma transformação na comunicação das campanhas. Lula recuperou protagonismo digital, trouxe artistas e militantes para o centro da narrativa e conseguiu pressionar o adversário. Flávio continua competitivo, mas passou a enfrentar cenário muito mais complexo do que o desenhado pelo resultado do primeiro turno.

No dia 4 de outubro, Flávio Bolsonaro venceu a primeira etapa. Desde o dia 6, Lula disputa a iniciativa da campanha. Quem vencerá a eleição somente as urnas dirão. Até domingo, pode acontecer de tudo. Inclusive nada.

Uma campanha pode mudar completamente de aparência, trocar os protagonistas da comunicação, alterar a temperatura das ruas e deixar as pesquisas em suspense sem necessariamente modificar o resultado final. Mas o país já assiste a outra eleição. As urnas encerraram o primeiro turno. A comunicação abriu um segundo.

A disputa segue em busca de cada eleitor até o último voto.


*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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