Por Willian Tito
12 de outubro de 2026 às 12:55 ▪ Atualizado em 12/10 às 13:44
Mãe não tem partido no país das grandes romarias e das manifestações de fé. A disputa política alcança os altares e ameaça uma riqueza construída por séculos de diversidade. No Dia da Padroeira e das Crianças, o Brasil precisa lembrar que o futuro exige proteção, respeito e liberdade para todos.
Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi encontrada nas águas, não nas urnas. Não pediu votos, não escolheu partido nem autorizou ninguém a falar em seu nome. Ainda assim, 309 anos depois de surgir nas redes de três pescadores, a pequena imagem de barro foi arrastada para o turbulento cenário eleitoral brasileiro. A Mãe de Jesus foi levada à disputa. E, pelo andar da procissão, há quem esteja mais interessado nos votos dos devotos do que nas virtudes da devoção.
A história começa em 1717, Rio Paraíba do Sul. Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso encontraram a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Primeiro, o corpo. Depois, a cabeça. Segundo a tradição, a pesca, até então infrutífera, tornou-se abundante. A notícia correu, a devoção cresceu e a imagem pequena, escurecida pelo tempo e pelas condições a que esteve exposta, tornou-se um dos maiores símbolos da religiosidade brasileira.
O reconhecimento oficial veio em 1930, quando o papa Pio XI proclamou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil. No ano seguinte, uma multidão acompanhou a celebração solene no Rio de Janeiro, então capital federal. Em 1980, a Lei nº 6.802 instituiu o feriado nacional de 12 de outubro. A história da pequena imagem passou a ocupar lugar ainda mais expressivo na memória coletiva. É uma trajetória construída pelo povo. Muito antes de ser reconhecida pelas autoridades. A fé chegou primeiro. A oficialização veio bem depois.
Agora, em plena campanha presidencial de 2026, a Padroeira voltou ao centro da polêmica. Circulou a informação de que o candidato Flávio Bolsonaro pretendia retirar dela o título de padroeira nacional. A alegação não corresponde aos fatos. A controvérsia recuperou um projeto apresentado em 2007 pelo então deputado Victório Galli, arquivado no ano seguinte. O candidato negou a intenção, e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil também precisou manifestar-se contra a desinformação.
A existência da mentira não elimina um problema verdadeiro. A religião vem sendo incorporada às estratégias eleitorais com tamanha intensidade que, em determinados ambientes, o nome de um candidato parece disputar espaço com o próprio Evangelho. Algumas denominações falam mais o nome do candidato do que de Jesus. Há púlpitos nos quais a política partidária ocupa tanto tempo que o Sermão da Montanha corre o risco de virar nota de rodapé.
A fé, que deveria aproximar, acaba utilizada para separar. O adversário político transforma-se em inimigo espiritual. O voto passa a ser apresentado como prova de fidelidade religiosa. Quem pensa diferente corre o risco de ser tratado como alguém que pensa contra Deus.
O Brasil é um Estado laico. Ainda. Isso não significa um país sem Deus, contrário à religião ou inimigo das tradições. Significa que nenhuma confissão religiosa pode transformar suas doutrinas em obrigação para toda a sociedade. O Estado deve proteger o direito de acreditar, de não acreditar, de mudar de crença e de manifestar a própria espiritualidade. A Constituição assegura essa liberdade. É ela que impede a transformação da democracia numa teocracia, sistema em que o poder político se subordina à autoridade religiosa ou se apresenta como expressão de uma vontade divina.
Um governante pode ter fé. Pode rezar, agradecer, frequentar templos e expressar publicamente suas convicções. O que não pode é governar como se a sua religião fosse a única legítima e todos os cidadãos tivessem a obrigação de compartilhá-la. O Estado laico não diminui a fé de ninguém. Ele impede que a fé de alguém seja utilizada para diminuir os direitos dos outros. A garantia protege católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, praticantes das religiões de matriz africana, seguidores das espiritualidades indígenas e cidadãos sem religião. A pluralidade brasileira não é um defeito a ser corrigido. É uma riqueza a ser preservada.
Para Todos Verem: Imagem horizontal apresenta Nossa Senhora Aparecida, representada como uma mulher negra de pele retinta, envolta em um manto azul com bordados dourados, acolhendo cinco crianças de diferentes origens e etnias. Ao fundo, uma multidão de fiéis segue em romaria até uma basílica iluminada pelo pôr do sol. À direita, o Congresso Nacional, um palanque político e uma urna eleitoral simbolizam a relação entre religião e poder. A composição destaca a maternidade, a diversidade, a proteção à infância e a liberdade religiosa, em contraste com as disputas políticas. Observe o tamanho de nossas manifestações religiosas. Em Belém, o Círio de Nazaré, realizado ontem, reúne cerca de dois milhões de pessoas e integra o Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade reconhecido pela Unesco. Em Aparecida, milhões de peregrinos visitam anualmente o Santuário Nacional, enquanto multidões caminham quilômetros para celebrar a Padroeira. Na Bahia, a Festa do Bonfim aproxima tradições católicas e afro-brasileiras. Em Goiás, Trindade recebe romeiros do Divino Pai Eterno. As Marchas para Jesus também demonstram a força da expressão pública da fé evangélica.
O Piauí tem sua própria geografia da devoção. Hoje, Teresina celebra a 20ª Festa da Mãe de Deus, patrimônio cultural imaterial da capital desde 2019. A procissão percorre o Centro, da Igreja de São Benedito à Catedral Nossa Senhora das Dores, mantendo uma tradição que une comunidades, famílias e gerações. Santa Cruz dos Milagres recebe romeiros que atravessam grandes distâncias movidos pela fé e pela gratidão. Em Oeiras, as procissões do Bom Jesus dos Passos preservam uma das mais expressivas tradições religiosas piauienses.
Nossa espiritualidade não se resume aos campanários. Ela pulsa nos cultos evangélicos, nas casas espíritas, nos terreiros de Umbanda e Candomblé e nas manifestações de ancestralidade. Em Pedro II, a instalação de monumento dedicado a Iemanjá, em 2025, representou reconhecimento público das tradições afro-brasileiras. Cada uma dessas expressões conta uma parte da nossa história. Nenhuma precisa desaparecer para que outra continue existindo.
Religiosidade não deveria ser campeonato de verdades absolutas. Cada tradição possui sua compreensão do sagrado, suas liturgias e seus princípios. A espiritualidade, quando orientada pelo respeito, permite reconhecer a sinceridade da fé alheia sem exigir que todos compartilhem as mesmas crenças. É possível preservar a própria tradição sem perseguir a tradição do vizinho.
O 12 de outubro também é das Crianças que precisam de saúde, educação, alimentação, proteção, oportunidades e liberdade para crescer. Precisam aprender que o colega de outra religião não é ameaça. Que uma criança de terreiro merece tanto respeito quanto a que frequenta a igreja. Que nenhuma infância pode ser constrangida pela fé da família, pela ausência dela ou pelas convicções religiosas dos outros. O país que pretendemos entregar às próximas gerações não pode ser construído com intolerância, medo e divisões permanentes.
Maria representa a dimensão mais acolhedora da maternidade para milhões de brasileiros. A mãe que ampara, que protege, que recebe, que escuta. Sua imagem evoca a generosidade de quem não pergunta primeiro pela origem, pela condição social ou pela preferência política do filho.
É uma boa oportunidade de refletir sobre o significado da gratidão. Agradecer pela vida, pelas tradições recebidas, pelos ensinamentos dos antepassados e pela possibilidade de transmitir às crianças um mundo menos hostil.
A fé verdadeira pode florescer em diferentes caminhos para os cristãos, afinal, Deus é amor. Maria é mãe. E o amor, para merecer esse nome, não pode ser reduzido a fronteira partidária.
Neste 12 de outubro, vale celebrar a Padroeira sem esquecer as crianças. Honrar as tradições sem desprezar a diversidade. Defender a liberdade religiosa sem permitir que ela seja convertida em instrumento de dominação.
Que a imagem de Aparecida continue inspirando os que nela encontram consolo. Que outros brasileiros possam encontrar a mesma paz em suas próprias manifestações de espiritualidade. E que a democracia seja forte o suficiente para garantir a todos o direito de viver suas crenças em liberdade.
O melhor presente às crianças do Brasil é um futuro no qual a diversidade não provoque medo, a política não se aproprie de Deus e o amor seja maior do que qualquer diferença. A mãe continua sem partido e o futuro precisa ser de todos.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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