Por Willian Tito
06 de novembro de 2026 às 19:28 ▪ Atualizado em 06/11 às 19:37
As urnas fecharam com as big techs sob investigação. Entre denúncias, bilhões de dólares e decisões invisíveis, a sociedade exige transparência, segurança, proteção e soberania. A democracia não pode ser uma caixa-preta.
O brasileiro votou, escolheu seu presidente e guardou o título de eleitor. Alguns personagens da eleição devem explicações. Os algoritmos não disputaram votos, não apareceram nos debates, não enfrentaram filas nas seções eleitorais e, mesmo assim, participaram intensamente da vida política nacional. Não possuem título de eleitor, mas conhecem nossas preferências, amizades, hábitos, fraquezas.
A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, está no centro das investigações. Mas não está sozinha. Google, X, TikTok e outras gigantes administram boa parte dos caminhos pelos quais circulam notícias, opiniões, manifestações culturais e, naturalmente, as inevitáveis discussões familiares que começam com política e terminam com alguém abandonando o grupo.
O poder digital atravessa fronteiras. A democracia exige liberdade, proteção e soberania. Foto: Imagem criada com IAA tecnologia revolucionou a comunicação, democratizou oportunidades e colocou ferramentas extraordinárias nas mãos da humanidade. Tamanho poder precisa corresponder a tamanho compromisso público. A sociedade quer avanços. Avançar não é trocar a praça pública por um condomínio digital onde o proprietário decide quem entra, quem fala e quem desaparece da paisagem.
O Tribunal Superior Eleitoral recebeu denúncias sobre possível tratamento desigual entre as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro. Estão em discussão restrições de alcance, publicidade eleitoral, recomendações automáticas, remoções de conteúdos e o comportamento de ferramentas de inteligência artificial.
Em outubro, o TSE exigiu explicações técnicas da Meta e do X, estabelecendo possibilidade de multas diárias de R$ 500 mil por descumprimento de determinações. Também solicitou informações sobre publicações de influenciadores ligados à campanha de Flávio Bolsonaro e examinou questionamentos referentes à mobilização digital de apoiadores de Lula. O alcance das investigações demonstra que fiscalização não deve ter preferência partidária. A Constituição vale para todos, inclusive para quem se considera proprietário de versão exclusiva da verdade.
A Meta reconheceu falhas técnicas que prejudicaram ferramentas publicitárias da campanha de Lula. Negou favorecimento político. O próprio Comitê de Supervisão apontou problemas recorrentes na aplicação das regras eleitorais. É necessário separar as coisas. Denúncia não é condenação, falha técnica não comprova conspiração e diferença de alcance não significa automaticamente interferência deliberada. Também não podemos aceitar que tudo seja resolvido com um singelo aviso de instabilidade.
Imagine um banco impedindo movimentações financeiras durante uma operação decisiva e, depois, anunciando que houve apenas um probleminha no sistema. O cliente certamente pediria mais explicações. Com a democracia, a exigência não deve ser menor.
A Meta informou ao Ministério Público Federal que seus sistemas bloquearam automaticamente 206.910 conteúdos entre 1º e 5 de outubro de 2026. Não significa que os bloqueios fossem indevidos. Impressiona a dimensão das decisões tomadas por mecanismos automatizados em poucos dias.
Pesquisadores do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, identificaram 568 anúncios eleitorais considerados irregulares durante o período analisado do primeiro turno. Outro levantamento encontrou pelo menos 967 anúncios que exploravam programas federais e apresentavam características de fraude. Situação que merece esclarecimentos. Como conteúdos legítimos enfrentaram restrições e publicações problemáticas conseguiram circular.
Estudo do NetLab, em parceria com pesquisadores internacionais, encontrou diferenças estatisticamente significativas de 33% a 43% no custo para alcançar mil pessoas, com valores mais elevados para anúncios da campanha de Lula em três dos quatro modelos analisados. A Meta contestou a interpretação dos resultados e negou favorecer anunciantes por posição política. Os pesquisadores reconheceram que os dados não demonstram intenção deliberada.
O cidadão comum imagina que está vendo o mundo. Na realidade, vê uma seleção do mundo organizada por sistemas que disputam tempo e atenção. O algoritmo não vota. Mas participa da distribuição de informações que chegam aos eleitores. Virou uma das mercadorias mais valiosas do planeta. Já publicamos “Quem fiscaliza o algoritmo?”.
A inteligência artificial já traduz e responde perguntas com segurança que faria inveja aos mais experientes comentaristas de mesa de bar. O Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio, em parceria com o Ministério Público Federal, examinou respostas eleitorais de sete ferramentas de IA, incluindo ChatGPT, Gemini, Meta AI, Grok, DeepSeek, Perplexity e Claude.
O levantamento identificou ranqueamentos ou hierarquizações de candidaturas em 90% das respostas analisadas. Também encontrou informações incorretas ou inventadas em 16%. Não significa que todas as plataformas tenham tentado interferir deliberadamente no voto. Significa que ferramentas capazes de influenciar a compreensão dos cidadãos ainda apresentam comportamentos incompatíveis com algumas exigências eleitorais.
Bilhões de conexões, cinco continentes e um poder digital que desconhece fronteiras. Foto: Infográfico Coluna Lugar de FalaCuriosidade da modernidade. Passamos séculos lutando para que o cidadão pensasse livremente. Agora precisamos garantir que a máquina, ao ajudá-lo a pensar, não apresente suas próprias respostas como verdades incontestáveis. Queremos inteligência artificial cada vez melhor. Não precisamos de oráculos eletrônicos. A tecnologia deve ampliar nossa capacidade de compreender o mundo, não substituir o pensamento crítico por resposta produzida em três segundos.
Em 2016, o escândalo Cambridge Analytica revelou o uso indevido de dados de milhões de usuários do Facebook para construir perfis e desenvolver estratégias de comunicação política nos Estados Unidos. O documentário “Privacidade Hackeada” (The Great Hack) aborda com profundidade o tema e está disponível na Netflix.
Em 2018, a eleição brasileira expôs graves problemas de desinformação e circulação coordenada de mensagens pelo WhatsApp. Na Romênia, a eleição presidencial de 2024 foi anulada em meio a denúncias de interferência estrangeira e operações digitais coordenadas. A Comissão Europeia abriu investigação sobre o TikTok.
As maiores plataformas digitais reúnem bilhões de contas e influenciam a comunicação mundial. Foto: Infográfico Coluna Lugar de FalaSão situações distintas, com responsabilidades e circunstâncias próprias. Todas mostram que o ambiente digital passou a fazer parte da infraestrutura do debate democrático. A União Europeia já respondeu com o Digital Services Act, criando exigências de transparência e responsabilidade para grandes plataformas. Também avançou na regulamentação da publicidade política.
O mundo percebeu que é necessário discutir a direção a tecnologia nos leva. Um carro pode ser super moderno, mas ninguém dispensa freios, sinalização e regras de trânsito. Na internet, as gigantes dirigem e escrevem o Código de Trânsito simultaneamente.
No Congresso Nacional, a deputada federal Erika Hilton (PSOL/SP) articula a criação de Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a atuação das big techs nas eleições de 2026. O painel público informou que o número havia alcançado 95. São necessários 171 apoios. Petição popular digital ultrapassou 300 mil assinaturas. A deputada pretende ampliar o apoio mediante conversas com líderes partidários.
A eventual CPI poderá ouvir executivos, requisitar documentos e examinar responsabilidades. Investigação parlamentar não substitui a Justiça nem significa condenação antecipada das empresas. Mas há perguntas que precisam sair dos escritórios climatizados do Vale do Silício e chegar ao conhecimento público.
Mark Zuckerberg controla a Meta. Elon Musk é a figura central por trás do X. Larry Page e Sergey Brin conservam influência decisiva sobre a Alphabet, controladora do Google e do YouTube. Não estamos falando de pequenos empreendedores tentando sobreviver ao fim do mês. São personagens de um setor que movimenta fortunas, possui influência internacional e mantém estruturas profissionais para acompanhar e influenciar decisões regulatórias.
Por trás das gigantes tecnológicas, empresários e executivos concentram fortunas e influência mundial. Foto: Ilustração Coluna Lugar de FalaÉ legítimo que defendam seus interesses empresariais. Também é legítimo que as sociedades defendam seus direitos. As empresas podem produzir tecnologia, lucro e inovação. O que não podem pretender é que a combinação das três virtudes as dispense de prestar contas. Nenhum patrimônio empresarial concede imunidade democrática.
Outra iniciativa relevante surgiu com a apresentação da PEC da Soberania Digital Nacional, pela deputada federal Sâmia Bomfim, também do PSOL de São Paulo. A proposta pretende estabelecer mecanismos de transparência, auditoria, supervisão humana dos sistemas digitais e participação social na regulação. Segue o rito de tramitação legislativa.
O Brasil precisa proteger seus cidadãos, seus dados, sua economia, suas instituições e sua produção cultural no ambiente digital. Não significa construir muralhas eletrônicas ou transformar o país numa ilha desconectada do mundo. Muito menos entregar a governos o controle sobre o que cada pessoa pode dizer ou pensar.
Soberania digital exige instituições fortes, regras claras, garantias individuais, proteção de dados, segurança da informação e respeito à liberdade de expressão. Queremos usar todas as possibilidades da tecnologia sem entregar nossa autonomia junto com os dados pessoais. Aliás, merecemos compreender melhor o destino desses dados.
Pesquisas realizadas em 2025 indicavam preocupação expressiva dos brasileiros com a atuação das plataformas. Levantamento do Instituto Locomotiva mostrou que 85% dos entrevistados defendiam a regulação das redes sociais. Pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg apontou que 55% consideravam necessária uma lei específica, enquanto 43,9% discordavam. São perguntas e metodologias diferentes, portanto os percentuais não devem ser confundidos. Mas revelam a importância pública do assunto.
O Brasil conectado movimenta milhões de pessoas e amplia a influência das plataformas no cotidiano. Foto: Infográfico Coluna Lugar de FalaPrecisamos abandonar uma falsa escolha. Não somos obrigados a decidir entre telas sem responsabilidades e Estado autorizado a vigiar pensamentos. A sociedade pode exigir liberdade e proteção simultaneamente. Pode defender inovação com segurança, negócios com responsabilidade, avanços tecnológicos com preservação de direitos.
É possível combater desinformação sem censurar opiniões legítimas. Proteger crianças e adolescentes sem transformar todas as pessoas em suspeitas. Combater fraudes sem retirar a privacidade dos cidadãos. Exigir transparência sem destruir os segredos industriais legítimos. Ninguém precisa abrir mão da democracia para usufruir da tecnologia.
Ainda falta é transformar os princípios em mecanismos verificáveis, com participação da sociedade, fiscalização independente e garantias de recurso contra decisões equivocadas. Não precisamos tutores digitais nem salvadores tecnológicos. Queremos ser cidadãos, inclusive quando estamos conectados.
Seria um erro transformar a discussão numa guerra contra as big techs. Elas trouxeram avanços extraordinários à comunicação, ao conhecimento, à ciência, à economia e às relações humanas. Mas não dá para imaginar que tamanha concentração de poder possa funcionar sem controle público e responsabilidade. Tecnologia não é inimiga da democracia, mas não está autorizada a ficar acima dela.
Precisamos avançar na proteção das crianças, dos adolescentes, das pessoas idosas, de todos os usuários. Na defesa da privacidade e da liberdade de expressão. Na prevenção às fraudes, à violência digital e à manipulação de informações. Na soberania sobre dados estratégicos e na criação de condições justas para a inovação brasileira.
Precisamos assegurar transparência nos processos automatizados, responsabilização por práticas ilegais, direito de contestação e critérios de fiscalização que não mudem conforme o humor de quem ocupa o poder. Independentemente de qual partido esteja no governo ou de quem vença a próxima eleição.
A democracia precisa sobreviver às alternâncias políticas. Os direitos não podem depender das preferências de presidentes, empresários ou algoritmos. A discussão não é apenas sobre comportamento das plataformas durante a eleição. É sobre a sociedade que pretendemos construir nas próximas décadas.
Entre mensagens, compartilhamentos e criação de conteúdo, os brasileiros constroem novas formas de participação social. Foto: Infográfico Coluna Lugar de FalaQue a tecnologia sirva à humanidade, e não o contrário. A inteligência artificial pode oferecer respostas extraordinárias. Mas as perguntas fundamentais continuam pertencendo a nós. Quem controla? Quem fiscaliza? Quem protege? Quem responde pelos erros? Quem garante os direitos? Quem defende a soberania?
A democracia não pode aceitar que decisões com consequências coletivas desapareçam atrás de uma tela acompanhadas de uma mensagem automática dizendo que houve um problema inesperado. O futuro digital precisa ser seguro, livre, plural, transparente e humano.
Depois de séculos aperfeiçoando a democracia, seria um constrangimento histórico descobrir que entregamos as chaves em troca de curtidas, figurinhas e vídeos de gatinhos. A sociedade quer ligar o futuro e participar de sua construção. O algoritmo pode continuar invisível. A democracia, jamais.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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