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Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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A banca nunca perde

Enquanto as bets acumulam fortunas bilionárias, trabalhadores perdem dinheiro, saúde mental, enfrentam endividamento e sofrimento emocional, deixando a conta para o SUS e para a sociedade.

Por Willian Tito

03 de novembro de 2026 às 13:16 ▪ Atualizado em 03/11 às 13:45

Ver resumo
  • O texto critica a exploração financeira dos pobres no Brasil, especialmente através de apostas.
  • As apostas são vistas como uma forma de "privatizar o lucro e socializar o desespero".
  • Lula proibiu as apostas de quota fixa, gerando reações contrárias de vários setores econômicos.
  • A audiência pública no STF para discutir o tema foi composta majoritariamente por interessados na manutenção das apostas.
  • A sociedade foi excluída do debate, apesar de ser diretamente afetada.
  • Dados mostram apoio popular à proibição das apostas e os altos custos sociais e econômicos associados.
  • Investigações de lavagem de dinheiro nas plataformas de apostas estão em curso.
  • O mercado argumenta que a proibição pode aumentar operações clandestinas e desemprego.
  • Discussões jurídicas devem abordar responsabilidades sobre os danos às pessoas afetadas.
  • O texto questiona quem será responsável por pagar os danos sociais causados pelas apostas.

No Brasil, a desgraça dos pobres é explorada como oportunidade de negócios. E dos mais lucrativos. Primeiro, tira-se o dinheiro de quem já tem pouco. Depois, quando aparecem as dívidas, a depressão, as crises familiares e o adoecimento, entrega-se a conta ao SUS. No capitalismo criativo, privatiza-se o lucro e socializa-se o desespero.

As bets aperfeiçoaram uma velha fórmula. O rico não precisa mais ir atrás do dinheiro do pobre. O pobre, seduzido pela promessa de enriquecer, entrega o último trocado pelo celular. Sem sair de casa, sem fila e, muitas vezes, sem perceber que a banca não foi criada para perder.

Lula resolveu interromper a modalidade de transferência de renda às avessas. Em setembro, proibiu as apostas de quota fixa por medida provisória. A reação foi imediata. Empresas, associações e setores patrocinados correram ao Supremo Tribunal Federal para discutir a constitucionalidade da decisão.

O ministro Luiz Fux convocou audiência pública para a manhã de hoje. Dos 34 expositores previstos, pelo menos 22 já haviam se manifestado contra a proibição. Uma composição curiosa para quem deseja compreender os danos produzidos pelas apostas.

Representantes de clubes de futebol, entidades empresariais e operadores do mercado receberam espaço. Os ministérios da Saúde e da Justiça foram incluídos posteriormente, a pedidos. Mas onde estão as famílias arruinadas, os pacientes em recuperação, os psicólogos e os profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS, que conhecem o outro lado da fortuna? Talvez não tenham bons contratos de patrocínio para apresentar.

A audiência foi transmitida ao vivo pelo YouTube da Justiça, com comentários desativados. Pode ser decisão técnica de moderação, mas a coincidência é ironia pronta. Discute-se um problema que afeta milhões de brasileiros enquanto o público não consegue comentar nem no espaço digital. Ouvir a sociedade, nada. Mas está permitido que ela assista.

Os números indicam a gravidade do assunto e apontam que se a sociedade não for ouvida, ela não vai ficar calada. Pesquisa Datafolha apontou que 78% dos brasileiros apoiam a proibição das bets. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima em R$ 38,8 bilhões anuais os custos sociais e econômicos associados às apostas e aos jogos de azar. Do total, R$ 30,6 bilhões estão ligados aos danos à saúde.

Segundo o Banco Central, em apenas um mês de 2024, aproximadamente cinco milhões de pessoas identificadas em famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões às plataformas por pix. Não significa que toda a dinheirama tenha saído diretamente do benefício social. Mas revela até onde chegou a indústria da esperança vendida em prestações de azar.

Para todos verem: Trabalhador angustiado diante de um aplicativo de apostas, com contas acumuladas e carteira vazia. Ao fundo, o cassino simboliza o lucro de poucos e o sofrimento de muitas famílias.Nas bets, o lucro é de poucos, mas a conta do desespero chega para milhões. Foto: Imagem criada com IA

O trabalhador passa o mês contando moedas para pagar a feira, a energia e a mistura. A plataforma conta bilhões. Quando perde, chamam de responsabilidade individual. Quando a empresa perde o direito de explorar o mercado, chamam de insegurança jurídica. O prejuízo muda de nome conforme o tamanho da conta bancária.

São fortes os indícios de lavagem de dinheiro investigados pela Polícia Federal e pela Receita Federal em operações envolvendo plataformas e estruturas financeiras. Investigações que exigem apuração e responsabilização individual, não autorização para condenações antecipadas. O que torna ainda mais importante conhecer a origem, o caminho e o destino dos recursos movimentados.

O mercado argumenta que a proibição pode favorecer operações clandestinas, comprometer empregos e romper contratos. São questões legítimas para análise. Contratos privados não conseguem fazer desaparecer os custos públicos. A discussão jurídica também precisa responder quem será responsável pela prevenção, tratamento e reparação dos danos comprovados.

No universo digital, há mobilização volumosa que subiu a hashtag #BetsNuncaMais nas principais plataformas, na manhã de hoje. Abaixo-assinados pedem a manutenção da proibição, o fim da publicidade e assistência às pessoas atingidas. A grandeza do engajamento dá sinais que boa parte da sociedade reivindica voz na discussão. Uma pergunta deveria ocupar o centro da audiência.Quem vai pagar pelos danos à saúde mental do trabalhador?

Quem paga o tratamento da pessoa que desenvolveu dependência? Quem recupera os recursos desviados das necessidades domésticas? Quem ampara os filhos, os cônjuges e os idosos atingidos pelo endividamento? Quem recompõe a vida da família que perdeu muito mais que dinheiro? Uma discussão séria sobre responsabilidade exige respostas que não cabem em planilhas de patrocínio.

O Brasil conhece há séculos a arte de extrair riqueza do trabalho de quem tem pouco. A tecnologia apenas dispensou o chicote, modernizou o balcão e acrescentou efeitos sonoros à promessa de prosperidade. No fim, pergunta antigas, embora o aplicativo seja novo.

Quando o pobre perde, quem ganha? Quando o pobre adoece, quem paga?

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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