Lugar de Fala

Roda de Conversa: Douglas Machado entrevista Lari Salles e Bid Lima

Sobre o nervosismo de cada estreia, tremedeira, insegurança, 5 minutos depois, tudo passa.

17 de maio de 2024 às 17:25
15 min de leitura

Quarta-feira, 15 de maio, 19h, e uma plateia seletiva, com os olhos brilhando, conversando sobre teatro dentro de um grande shopping. A cena faz parte da exposição que celebra o Theatro 4 de Setembro, que completa 130 anos. A história é viva e pode ser contada por quem a constrói. O Roda de Conversa traz mais uma noite de conteúdo de grande expressividade, reunindo as representantes de duas gerações de atrizes que dignificam o palco da grande casa de espetáculos do Piauí.

Douglas Machado e Lari Salles - Foto: Willian Tito

Aberta no último dia 5 de maio, a exposição faz homenagem ao Theatro e ao teatro. Algumas casas seculares de apresentações artísticas são tombadas pelo patrimônio público brasileiro. O nosso é um deles. Na cultura da preservação histórica e arquitetônica, até o nome manteve o “h” depois do “t” de teatro, em sua caligrafia. A memória do que foi e é produzido, de alguma forma, também ganha a oportunidade de registros, que podem servir de subsídios a gerações vindouras interessadas em investigar o passado.

O Roda de Conversa é a abertura de um ciclo. Uma profunda imersão nos sinais do nosso tempo. A contemporaneidade é radiografada numa construção da crônica de um período significativo do pensamento, da produção de obras, de artistas de um grande número de linguagens, representando um retrato de sua época.

Roda de conversa - Foto: Reprodução

A circulação de bens culturais independentes é desafio à resistência de quem produz e de quem cria, que pode ser os dois num só. Mais desafiador ainda é ver circular o artista e seu pensamento. O compartilhamento de seus processos criativos, os temas que movimentam o cenário e atrai a atenção dos talentosos é uma oportunidade incomum. Compreender o olhar e a visão de quem cria belas obras e propõe suas leituras autênticas, é uma experiência enriquecedora.

A Luz e o Corpo Encenado
Era a temática da noite de mergulho no mar da encenação com o ponto de observação 100% feminino. Lari Salles e Bid Lima representam muito bem como figuras icônicas, cada uma de sua geração, a arte teatral em sua melhor performance. E ambas em atividade. Até porque artista só se aposenta se quiser. Lari está fazendo 45 anos de cena. Bid está perto de completar os primeiros 30.

Bid ainda estava a caminho. Era 19h16 quando Douglas Machado, o mestre-de-cerimônias, chegou servindo uma pergunta curiosa para Lari: “Você já viu fantasmas no Theatro?”. Depois das muitas risadas de todos, Salles respondeu que “O Theatro tem uma atmosfera esquisita”.

Embora não tenha visto, citou em tom de brincadeira o diretor José da Providência (em memória), que em certo momento chegou a morar no prédio. DM complementou citando grandes atrizes que revelaram ter visto seres “de outro mundo” no lugar de cena, como Laura Cardoso e Fernanda Montenegro.

Lari lembrou da infância na localidade no interior de Buriti dos Lopes, Coroa de São Remígio. Lembrou que morou dentro de uma lancha por três meses por causa de uma grande enchente, quando tinha cinco anos. Afirmou que sempre foi muito levada, que pulava de cima da Ponte João Luís Ferreira, a Ponte Metálica, uma das ligações entre Teresina e Timon (MA). Até que aos 15 anos, foi flagrada pela mãe e deixou as proezas. A artista recordou que atravessou o Rio Parnaíba a nado várias vezes.

Roda de conversa - Foto: Reprodução

Seu primeiro contato com o teatro teve um ar de chamado. Segundo relatou, “a porta do Theatro (4 de Setembro) estava aberta e eu entrei. Deu um frio na barriga”. Estava em cena o Grupo de Teatro Pesquisa - Grutepe. A jovem ficou encantada com o universo em sua frente. O impacto a fez decidir em entrar naquele mundo fascinante que se abria.

Era 1979. Maria do Rosário deu lugar a Lari, que tratou de se inscrever num curso de teatro e logo estava estreando com Paulo Libório, que era o grande ator do momento. O autor, diretor e ator, José Afonso de Araújo Lima, estava na plateia. Logo a convidou a estrear um dos seus sucessos, “A Guerra dos Cupins”. Parceria que deu certo e dura a vida toda.

A atriz, que também preside o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão - SATED-PI, puxou pela memória e entregou lembranças valiosas. O Grupo Candeia, do consagrado “Suíte de Terreiro”, teve a artista como primeira cantora, a convite de Aurélio Melo. Pena que não chegou a gravar. Foi numa dessas que se encontrou com Wanderléa no auge, cantando o jingle da TV Clube, no palco sagrado do 4 de Setembro. Era 19h34 quando Bid chegou. Lari seguia no solo.

Só chega na hora certa

Depois de contar alguns episódios de atrasos. Inclusive de perder voo, conversando, Bid lembrou que seu primeiro contato com o teatro foi na igreja, de forma amadora. Sua origem religiosa foi a oportunidade para acessar outros deuses. Em 1996, numa oficina de mergulho de férias, Marlenildes trouxe Bid definitivamente à cena. O mestre do curso era Arimatan Martins. O talento da garota, que eu conheci em seus primeiros passos, era impressionante. Foi um grande encontro. A pessoa é para o que nasce (doc homônimo produzido por Gilberto Gil - é massa) vale para a atriz. Sorte de quem encontra cedo o caminho.

Ao assistir a peça “O Auto do Lampião no Além”, a antológica montagem do grupo Harém, Bid relatou que ficou encantada e teve a certeza que era aquilo que queria. Inclusive trabalhar no grupo e na montagem. “Eu vou participar desse grupo”, desejou com tanta força que aconteceu.

Bid Lima, atriz e figurinista - Foto: Willian Tito



Numa apresentação em Campo Maior, a artista substituiu Maria Bonita. A única personagem feminina do texto. Ascendeu rapidamente e foi acolhida não só pelo grupo, mas pela classe. De xodó a presidente da Fundação Cultural (entidade anterior à Secult) foi um ato. O próximo é a representatividade de sua categoria no campo político. A Câmara Municipal de Teresina é o foco da atriz.

Além do palco, Bid atua como figurinista. Desenha e executa seus próprios figurinos e desenvolve para muitos grupos. Formada em Artes Visuais pela UFPI, a artista fundamentou o talento no conhecimento catedrático, fortalecendo seu desempenho com embasamento também teórico. Entretanto, ela revelou que sempre foi tomada por um olhar observador intuitivo. Testava o timing das falas e as variações de resultados refletindo na plateia. Principalmente o da comédia, que ela domina.

Saindo de sua zona de conforto, experimentou todas as variantes para descobrir a sutileza da interpretação no drama e na tragédia. Bid chegou a fazer até cinco peças simultaneamente. Com histórias mirabolantes para dar conta de textos, personagens e apresentações de montagens diferentes praticamente nos mesmos horários. A dedicação acabou acendendo a luz vermelha para a mãe da atriz, que resolveu afastá-la da ribalta.

O hiperfoco típico das pessoas com TDAH - Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, uniu-se ao amor pela encenação e fez a atriz não pensar em outra coisa e nem querer fazer nada além disso. Foi a vez dos amigos do teatro se aproximarem da família e gerar a segurança necessária. No espetáculo “O Princês do Piauí”, Harém - 1999, de Benjamim Santos, atravessou o Atlântico a primeira vez e foi interpretar em palcos lisboetas. Para isso, quase a terceira guerra mundial para a mãe liberar a viagem. Inclusive recomendações explícitas do mingau antes de dormir. Mingau? Quem ia fazer? Cenas da vida real.

Personas e personagens

As atrizes tocaram a bola e abordaram muitos momentos importantes de suas carreiras. Entre fatos marcantes, a necessidade do fazer teatral, de estar em cena, Lari lembrou que todas as vezes que se afastou, sentiu tanta falta que logo retornou. A atriz confessou que “preciso da segurança do teatro”.

Sobre o nervosismo de cada estreia, tremedeira, insegurança, 5 minutos depois, tudo passa. Com 10 minutos já está improvisando, colocando cacos nas falas (incluindo trechos que não estavam previstos). Ao compor personagem, a artista disse que precisa compreender bem o texto. Quando vai à cena, não pode ter nenhuma dúvida.

Lari colocou que já teve situações de grande insegurança, que desejou que acontecesse algo que pudesse impedir a apresentação. “Bem que podia cair uma chuva grande”, pediu certa vez. Bid afirmou que já pensou em simular um desmaio para não entrar em cena, devido ao alto estado de tensão e medo.

Lari Salles, 45 anos de teatro - Foto: Willian Tito



Bid comentou que percebe mudança no tempo da comédia desde os anos 2000. O tempo que desperta o gatilho da risada, a pausa exata, a inflexão, a entonação, são elementos que vão se alterando. A plateia dita a transformação e “o ator tem que estar o tempo todo atualizado”. Lari citou a metamorfose social que engessa os humoristas, restringindo os temas. O politicamente correto foi mencionado como o grande vilão do humor. “Tá muito complicado fazer comédia”, concluiu Lari.

Sobre o assunto, Douglas afirmou que as pessoas vivem em bloco. “O que pode ser bem recebido por um e não tão bem por outro”, explicou. O apresentador descreveu como um terreno arenoso. Encerrou dizendo que “O terreno que deve ser trabalhado é o alicerce do respeito.”

Lari recordou quando bateu boca com uma pessoa da plateia. Acostumada a querer “contracenar” com quem estivesse em cena, a atriz contou que certa vez, já preparada, deu uma resposta daquelas que deixa o interlocutor desenxabido. Foi o suficiente para o ator de plateia aposentar-se.

Bid trouxe episódio em que foi insultada por um bêbado. No espaço jornalista Osório Júnior, no Club dos Diários, em cena aberta, “ganhou” um parceiro inusitado. Segundo lembrou, começou aos poucos, com o etilado fazendo contraponto. Mas o caldo engrossou, perdeu a graça e o cara passou a ofender a atriz. Terminou com ela chamando os seguranças, dizendo que o rapaz precisava de ajuda, pois estava procurando a mãe.

Missão teatro

O fazer teatral, geralmente, é uma luta que testa o quanto o/a aspirante a ator/atriz é capaz de suportar no começo da carreira. Vale para as duas. Bid e Lari foram desafiadas pelo destino no princípio de suas entregas. Ambas resistiram e hoje colhem os dividendos de uma vida investindo sua mais-valia e lucrando em reconhecimento público e de seus pares.

Entretanto, nem tudo são rosas. Muitos espinhos deixaram suas marcas pela estrada. Para Lari, “A vida de um artista é de uma insegurança total. Instável, mas muito deliciosa”. Citou aforismo atribuído à atriz Denise Fraga: “Um dia dormindo em hotel 5 estrelas e outro mijando na lata”, sobre os altos e baixos da profissão. Ainda assim, nenhuma das duas demonstra arrependimento por suas escolhas.

No comecinho, o quanto era difícil economizar os centavos e garantir o dinheiro do vale, da passagem de ônibus para ensaiar. Das exigências da mãe que estabelecia horários e condições para seguir com o teatro. Das memórias de Bid Lima, enriquecidas pelas dificuldades, todas as conquistas ganham mais sabor. É a mesma conclusão para as duas. Apesar de todo revés, o paladar aponta para uma sensação doce.

“Gratidão é consciência moral”, fraseou Bid. Embora tenha vivido momentos de fragilidade, de insegurança, de pensar em desistir, seguiu e segue em frente motivada pela plateia, que sempre a emociona. O feedback ao encontrar as pessoas, ser parada na rua para receber o cumprimento carinhoso de algum fã, o aplauso, dentro e fora do palco, desmancha qualquer nuvem de incerteza.

Roda de Conversa - Foto: Divulgação



Machado convidou para a próxima quarta-feira, 22, para o Roda de Conversa com João Vasconcelos e Maneco Nascimento, às 19h, no Espaço Cultural do Teresina Shopping, que fica exatamente em frente a agência do Banco do Brasil. Era 20h56 quando foi encerrado a tempo de Lari mandar a assertiva: “A alma da cidade é o Theatro 4 de Setembro.”

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