Por Willian Tito
26 de agosto de 2026 às 11:48 ▪ Atualizado há 27 minutos
Em 26 de agosto de 1789, a França colocou no papel uma das frases mais ambiciosas da história. “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”. Bonito. Só faltou combinar com todo mundo.
A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão ajudou a reinventar a política moderna. Liberdade, igualdade, opinião, lei, cidadania. Palavras enormes. Tão enormes que algumas pessoas acabaram ficando escondidas atrás delas. Entre elas, metade da humanidade.
As mulheres podiam ser iguais no substantivo coletivo. Na vida prática, nem tanto. Olympe de Gouges percebeu a pegadinha. Em 1791, publicou a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Fez uma pergunta que atravessaria séculos. “Se a mulher pode subir ao cadafalso, por que não pode subir à tribuna?”. Ironia com endereço certo.
A Revolução Francesa derrubava privilégios, mas conservava alguns com admirável eficiência. Mudava-se o mundo, desde que determinadas cadeiras continuassem ocupadas pelos mesmos. A história tem dessas coisas. Proclama princípios universais e depois passa décadas, às vezes séculos, corrigindo a lista de convidados.
Em outro 26 de agosto, o de 1920, os Estados Unidos certificaram a 19ª Emenda, marco decisivo do voto feminino. Também não resolveu tudo. Mulheres negras, indígenas e outras minorias continuaram enfrentando barreiras concretas para exercer o que a lei dizia reconhecer.
Igualdade costuma chegar primeiro ao papel. Depois pega uma estrada muito mais longa até a vida. O próprio calendário mostra que os direitos não nascem prontos. São construídos, disputados, ampliados.
No Piauí, 26 de agosto também guarda uma grande marca. Em 1994, Fides Angélica tomou posse na Academia Piauiense de Letras. Mais tarde, seria a primeira mulher a presidir a instituição. Parece apenas uma informação biográfica. Mas não é. Instituições também têm portas simbólicas. Algumas parecem abertas, mas passam décadas deixando entrar praticamente o mesmo perfil de gente.
Quando uma mulher atravessa uma dessas portas, não leva somente a própria cadeira. Alarga a entrada. Todos avançamos. Mulheres votam, governam, escrevem, julgam, ensinam, pesquisam, comandam empresas, universidades, hospitais, redações e famílias inteiras. Aliás, comandam há muito mais tempo sem esperar publicação no Diário Oficial.
Democracia não se mede apenas pela beleza do texto constitucional. Mede-se por quem consegue chegar à escola, quem recebe o mesmo salário, quem pode ocupar a tribuna, quem é ouvido quando fala. Por quem consegue existir sem pedir licença.
A grande revolução não está em escrever palavras novas. Mas fazer valer as antigas. Fraternidade. Liberdade. Igualdade. Direitos. Todos. Principalmente a última.
A humanidade levou séculos para descobrir que “todos” é uma palavra muito pequena para tanta gente e grande demais para aceitar exceções.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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