Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

Homem de palavra

Aos 95 anos, Carlos Said atravessa a história da comunicação piauiense como quem não apenas contou o tempo, mas ajudou a inventá-lo, criando linguagens e formando gerações.

Por Willian Tito

10 de setembro de 2026 às 19:15 ▪ Atualizado em 10/09 às 19:47


Carlos Said tem 95 anos, mas há qualquer coisa nele que continua chegando antes. Chegou cedo ao jornalismo. Cedo demais, na verdade. Ainda menino. Quando muita gente da mesma idade estava apenas descobrindo o mundo, ele já queria contá-lo. Aos 12 ou 13 anos, as fontes divergem no detalhe, procurou jornal, pediu espaço e começou escrevendo sobre futebol. Não havia propriamente um lugar esperando por ele.

Carlos Said fez o lugar. Conseguiu algumas linhas, depois outras, empurrando delicadamente as paredes da imprensa que ainda tratava esporte como assunto menor. O garoto não sabia, talvez, que ali começava uma longa carreira. Sabia apenas que tinha alguma coisa para dizer. E disse por mais de oito décadas.

Antes do rádio, veio o ouvido. Carlos ainda criança frequentava casas onde havia aparelhos para acompanhar transmissões de fora. O rádio era quase uma janela mágica aberta na Teresina muito menor, mais silenciosa e mais distante do resto do mundo. Ele escutava. É parte do segredo dos grandes comunicadores. Antes de aprender a falar, aprendem a ouvir.

Quando o rádio piauiense começou a ganhar estrutura, Carlos Said estava pronto. Aos 17 anos entrou na Rádio Difusora. Aos 19 ajudaria a realizar algo que hoje parece simples, mas naquele tempo tinha a dimensão de uma pequena aventura tecnológica.

Em 21 de março de 1950, no Lindolfo Monteiro, Piauí e Maranhão jogavam pelo Campeonato Brasileiro de Seleções. Carlos Said e Areolino Costa fizeram a primeira transmissão radiofônica conhecida de uma partida de futebol no Piauí. Não havia cabine sofisticada nem dezenas de câmeras. Não havia replay. Muito menos internet, satélite, fibra óptica ou estatística chegando na tela em tempo real. Havia um microfone. Apenas um.

Os dois dividiram o campo. Cada um narrava uma parte e, nas proximidades do meio, o microfone trocava de mão. Era quase uma corrida de revezamento. Só que o bastão falava. Os fios precisavam vencer postes, árvores, cercas e a precariedade tecnológica de uma cidade que começava a descobrir o poder do rádio.

Funcionou. Carlos Said não apenas contou um jogo. Ajudou a inaugurar uma linguagem. Said nunca foi somente alguém que ocupava um microfone. Ele inventava coisas dentro dele.

Organizou equipes esportivas, ajudou a estruturar departamentos de esporte, criou programas, lançou expressões, bordões, fez humor e transformou a crônica esportiva numa conversa que podia reunir o resultado da partida, uma observação tática, uma ironia, uma palavra improvável e uma pequena aula de cultura geral.

Era capaz de colocar “energúmeno”, “apedeuta” ou “pacóvio” no meio de uma transmissão e fazer parecer que aquelas palavras sempre haviam pertencido às arquibancadas do Lindolfo Monteiro. Só um comunicador muito culto consegue fazer isso. E somente um comunicador ainda melhor consegue ser culto sem parecer pedante.

Carlos Said tinha formação ampla. Direito, Filosofia, História, Geografia. Professor por décadas. Homem de livros. Leitor voraz. Crítico literário. Escritor. Mas a cultura nele nunca funcionou como muro. Era ponte. Falar simples não significa falar pobre. Falar bonito não significa falar complicado. A distinção separa o erudito do exibicionista. Said soube ser erudito e popular. Conseguia ensinar sem avisar que estava ensinando.

Uma defesa mal feita podia terminar em dicionário. Impedimento podia desembocar em história. Um juiz ruim podia enriquecer o vocabulário de uma cidade inteira. E quando a palavra disponível não bastava, Carlos Said inventava outra. “Bilinguinguins do inferno”. A expressão acabou se tornando uma de suas assinaturas. É também o título que Gustavo Said escolheu para a nova edição da biografia do pai. “Nos Bilinguinguins do Inferno — eu, Carlos Said, o Magro de Aço.”

Gustavo conhece bem o personagem. Não apenas porque é filho. Também é jornalista, pesquisador e professor. Carlos Said não deixou apenas programas, livros e gravações. Deixou continuidade. Fernando Said seguiu pelo jornalismo e pela vida pública. Gustavo Said fez do jornalismo e da universidade seu território e, em algum momento, percebeu que o pai já não cabia somente na memória da família. Carlos havia se tornado memória coletiva. O filho virou biógrafo. Uma inversão bonita. Normalmente os pais contam a história dos filhos. Gustavo passou a contar a história do pai.

A primeira biografia, publicada em 2011, já carregava no título o homem e o mito. Agora, revista e ampliada, retorna com novas histórias, fotografias, episódios e uma expressão que imediatamente devolve a voz de Said ao leitor. Hoje, 10 de setembro, o livro ganha novo lançamento no Cine Teatro da Universidade Federal do Piauí.

 Carlos Said, 95 anos. Foto: reprodução. Para todos verem: Um senhor idoso aparece sentado em ambiente externo, em primeiro plano, usando óculos de armação escura e camisa listrada em tons claros de azul, vermelho e branco. Ele apoia um dos braços sobre uma bengala de madeira curva, com expressão serena e contemplativa, olhando para fora do enquadramento. Ao fundo, a vegetação aparece desfocada, destacando o rosto, a postura e a bengala. A imagem transmite sobriedade, longevidade e tranquilidade.Carlos Said, 95 anos. Foto: reprodução. Para todos verem: Um senhor idoso aparece sentado em ambiente externo, em primeiro plano, usando óculos de armação escura e camisa listrada em tons claros de azul, vermelho e branco. Ele apoia um dos braços sobre uma bengala de madeira curva, com expressão serena e contemplativa, olhando para fora do enquadramento. Ao fundo, a vegetação aparece desfocada, destacando o rosto, a postura e a bengala. A imagem transmite sobriedade, longevidade e tranquilidade. 

Teresina reencontra uma de suas vozes. Carlos Said merece o reencontro porque sua vida se confunde com a comunicação piauiense. Quando a Rádio Pioneira nasceu, em 1962, ele estava lá. Foi seu primeiro diretor de jornalismo. Também comandou esporte. E ainda encontrou tempo para criar uma frase que atravessaria décadas. “A emissora que não para”. Chamaríamos isso de conceito de marca, nos dias de hoje. Branding. Posicionamento.

O criativo Carlos Said sempre tinha uma boa ideia. Ainda hoje continua sendo artigo de luxo. Também abriu portas. Dídimo de Castro tinha apenas 17 anos quando o procurou querendo entrar no rádio. Carlos Said poderia ter dado uma desculpa qualquer. Não deu. Acolheu. Nasceria uma parceria que atravessaria décadas.

Não conhecia o futebol apenas da cabine. Foi goleiro. Participou da fundação do clube que se transformaria no River Atlético Clube e esteve em equipes campeãs piauienses. Quando comentava uma falha, conhecia a solidão de quem está debaixo das traves. Quando analisava um jogador, havia experiência misturada à observação.

Transformou memória em livro. Em 1966 publicou “O Piauí no Futebol”, obra pioneira da nossa literatura esportiva. Jogou. Narrou. Comentou. Pesquisou. Escreveu.

Em 1964, Carlos Said sofreu um grave acidente automobilístico. Fraturas. Hospital. Longa recuperação. Sobreviveu. O homem magro passou a ser chamado de Magro de Aço. Anos depois, o homem cuja matéria-prima era a voz, perdeu a própria voz. Em 1983, durante uma transmissão, ela falhou. Tratou-se. Recuperou-se. Voltou.

Sobreviveu ao impacto. Depois sobreviveu ao silêncio. O apelido foi menos invenção do que diagnóstico. Aço. Aos 95 anos, Carlos Said tem um privilégio que poucos recebem. Vive tempo suficiente para assistir à própria história virar memória.

Num tempo de frases rápidas, opiniões instantâneas e vocabulários cada vez mais estreitos, sua trajetória lembra que comunicação também é repertório. Narrar é muito mais do que falar. É conhecer, observar, escolher a palavra e respeitar o ouvido de quem está do outro lado.

Carlos Said fez do rádio espetáculo sem transformar informação em ruído. Fez humor sem embrutecer a linguagem. Foi professor sem transformar o microfone em púlpito. Foi popular sem abrir mão da cultura. Carlos Said não acompanhou simplesmente a história da comunicação no Piauí.

Em muitos momentos, chegou antes dela. Antes da equipe, começou a organizá-la. Antes do marketing, inventou slogans. Antes que alguém falasse em linguagem de marca, ele sabia que uma emissora precisava ter personalidade. Antes de a memória desaparecer, escreveu.

Hoje volta em livro. O menino que pediu algumas linhas num jornal tornou-se personagem de muitas páginas. Justo. Afinal, Carlos Said passou a vida inteira transformando acontecimentos em histórias. Agora é a história que conta Carlos Said. Aos 95 anos, o Magro continua de aço.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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