Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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"Quintura, mésti!"

Termômetro sobe, umidade despenca e o risco de fogo cresce, enquanto o Dia do(a) Biólogo(a) ganha sentido urgente diante dos claros sinais extremos das mudanças climáticas.

Por Willian Tito

03 de setembro de 2026 às 19:30 ▪ Atualizado em 03/09 às 20:04


Setembro mal abriu a porta e o Piauí já entrou fervendo. Ontem, quarta-feira, 2, Oeiras chegou a 41,3°C, maior temperatura registrada no Brasil no levantamento das estações do Inmet. São João do Piauí marcou 41°C, Picos 40,1°C e Castelo do Piauí 39,6°C. Quatro cidades piauienses estavam entre as sete mais quentes do país. Em Oeiras, havia ainda um detalhe capaz de fazer o termômetro parecer apenas metade da notícia. A umidade caiu a 14%. Como diz o piauiense: "Quintura muita, mésti!"

O famoso B-R-O-Bró nem precisou aquecer. É nesse cenário que chega 3 de setembro, Dia do(a) Biólogo(a). A profissão foi regulamentada no Brasil pela Lei nº 6.684, de 3 de setembro de 1979. A data acabaria reconhecida oficialmente pelo Conselho Federal de Biologia como Dia do(a) Biólogo(a). São profissionais que trabalham justamente onde hoje estão algumas das grandes inquietações humanas. Biodiversidade, meio ambiente, saúde, biotecnologia, ecossistemas e sustentabilidade estão na berlinda e na pauta do dia a dia. Em outras palavras, estudam a vida. É mais que necessário estudar a vida para descobrir como continuar vivendo bem.

O problema dos 41 graus não está apenas nos 41 graus. O Piauí sempre conheceu calor. Temos até intimidade linguística com ele. Transformamos quatro meses do calendário em uma palavra própria e aprendemos desde cedo que setembro não costuma oferecer sombra gratuitamente.

Existe diferença entre reconhecer as características climáticas de uma região e naturalizar qualquer temperatura simplesmente porque “aqui sempre foi quente”. Argumento, aliás, que envelheceu mais rapidamente do que muita gente percebeu.

O que importa observar são a frequência, a intensidade, a duração e a combinação dos fenômenos. Calor elevado encontra baixa umidade. Baixa umidade encontra vegetação ressecada. Vegetação seca encontra fogo. E o fogo não consulta a memória afetiva sobre como eram os setembros de antigamente.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais já havia registrado neste ano um sinal que interessa diretamente ao Piauí. Ao comparar junho de 2026 com a climatologia de 2001 a 2025, o INPE encontrou aumento do risco meteorológico de fogo principalmente no MATOPIBA, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, associado à redução das chuvas. No mesmo levantamento, o Cerrado concentrou 57,8% dos focos detectados no país. A Caatinga foi o único bioma com condição moderadamente acima da média histórica de focos para junho.

Nós estamos no encontro. O Piauí possui Cerrado, Caatinga e áreas de transição de enorme riqueza. Tem espécies adaptadas durante milhares de anos às condições do território. Tem rios, matas, chapadas, serras, nascentes e uma biodiversidade que quase nunca recebe a mesma publicidade das temperaturas.

O biólogo é muito mais que a imagem caricata do sujeito simpático da fotografia com uma muda de planta na mão. Ele e ela estão no laboratório, no campo, no licenciamento, na pesquisa, na universidade, na escola, na conservação, na análise da água, no acompanhamento de espécies, na recuperação de áreas degradadas, no estudo dos efeitos da intervenção humana e na produção de conhecimento que permite ao poder público tomar decisões menos intuitivas e mais inteligentes. Ou deveria permitir.

 CapaDois urubus se abrigam do sol sob um banco branco de concreto, em uma praça de piso de pedras claras. A luz é intensa, com sombras bem marcadas, e a cena transmite a sensação de calor forte. Ao fundo aparecem parte da rua, calçada e pequenos trechos de vegetação. 

A ciência possui uma pequena inconveniência. Costuma medir o que gostaríamos de resolver apenas com opinião. O termômetro não participa de grupo de zap. O satélite não tem candidato. A estação meteorológica desconhece ideologia. Mede. Depois somos nós que decidimos o que fazer com a medição.

O Dia do(a) Biólogo(a) pode ser uma bela oportunidade para abandonar durante algumas horas o ambientalismo decorativo que cabe maravilhosamente em discursos, campanhas publicitárias e fotografias de autoridades plantando mudas. Preservar é muito menos fotogênico.

Preservar é consequência de planejamento urbano, arborização, proteção de nascentes, fiscalização, saneamento, prevenção de queimadas, recuperação de áreas, pesquisa, educação ambiental e capacidade de pensar uma cidade para temperaturas que talvez não sejam exatamente aquelas para as quais ela foi construída.

Preservar é discutir sombra. Uma árvore adulta não é apenas paisagem bonita. É microclima, abrigo, retenção de água, biodiversidade, captura de carbono e temperatura mais suportável ao redor. Derrubá-la leva minutos. Substituí-la biologicamente pode levar décadas.

A natureza tem seu próprio relógio. A floresta não nasce por decreto. O rio não se recupera por postagem. Uma espécie extinta não atende pedido de reconsideração. E nenhuma tecnologia, por extraordinária que seja, nos concedeu até hoje licença para viver sem água, ar, solo e equilíbrio ambiental.

No 3 de setembro deste ano, o Piauí, na véspera do Dia do(a) Biólogo(a), quatro cidades piauienses aparecem entre as sete temperaturas mais altas do levantamento nacional. Não precisa de metáfora. O termômetro já escreveu a homenagem. Celebrar os biólogos é agradecer. Mas é sobretudo ouvi-los.

Num mundo cada vez mais preocupado em descobrir vida em outros planetas, a tarefa mais urgente continua sendo simples. Cuidar da vida que já encontramos aqui.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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