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Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Cultura fora da bolha

Artistas pedem renovação no MinC e abrem o debate sobre uma política cultural mais democrática, descentralizada e preparada para o futuro, com a Cultura brasileira maior que qualquer definição.

Por Willian Tito

05 de novembro de 2026 às 20:10 ▪ Atualizado em 05/11 às 20:37

Ver resumo
  • No Dia Nacional da Cultura, artistas pedem mudanças no Ministério da Cultura (MinC) do governo de Lula 4, discutindo os desafios da indústria cultural no Brasil.
  • A ministra Margareth Menezes é uma figura central neste debate, com um histórico de reconstrução do MinC.
  • O governo que começará em 2027 terá a chance de reavaliar as políticas culturais, buscando entender o que funcionou, o que precisa mudar e qual deverá ser o futuro da Cultura no Brasil.
  • Artistas destacam problemas como a dependência de editais, a concentração de recursos no Sudeste e a falta de regulamentação das plataformas digitais.
  • A economia criativa é significativa, representando 3,59% do PIB brasileiro e gerando milhões de empregos.
  • Muitos profissionais da cultura enfrentam informalidade, apesar de sua contribuição econômica significativa.
  • Estratégias sugeridas incluem democratizar o financiamento, investir na continuidade de projetos culturais e preparar o Brasil para a economia criativa digital.
  • Cultura deve ser integrada a outras áreas como Educação e Tecnologia, e valorizada como parte essencial do desenvolvimento nacional.
  • A necessidade de mudanças vai além de substituir nomes; trata-se de abrir oportunidades para todos os brasileiros contribuírem e se reconhecerem na cultura nacional.

A Cultura do futuro está na pauta do governo Lula 4. Mas, no Dia Nacional da Cultura, artistas pedem mudanças no MinC e abrem uma discussão necessária sobre os desafios da indústria que movimenta bilhões, produz identidade e ajuda a equilibrar a sociedade brasileira

Se Rui Barbosa pudesse participar das comemorações de seu aniversário, neste 5 de novembro, provavelmente interromperia a solenidade para fazer algumas perguntas. Afinal, o baiano nascido em 1849, cuja inteligência atravessou gerações, dificilmente ficaria satisfeito apenas com discursos e homenagens. Querer saber para onde caminha a Cultura brasileira seria um bom começo.

E encontraria uma conterrânea no centro da conversa. A ministra Margareth Menezes, cantora de trajetória respeitável e protagonista da reconstrução do Ministério da Cultura, tornou-se personagem de um debate que precisa ser compreendido sem transformar a divergência em desmerecimento.

É salutar mudar. Renovar ideias, gestores e métodos não significa negar o trabalho realizado. Margareth representou a Cultura brasileira com dignidade, defendeu sua diversidade e ajudou a recuperar estrutura ministerial que havia sido extinta. Reconhecimento, entretanto, não deve significar continuidade obrigatória.

O governo Lula que começará em janeiro de 2027 terá a oportunidade de avaliar profundamente mais de duas décadas de políticas culturais. O que funcionou? O que envelheceu? O que precisa ser preservado? E, principalmente, qual será a Cultura do futuro?

O dinheiro cresceu. E as oportunidades?

A discussão ganhou força com manifestos encaminhados a Lula. O mais recente, divulgado em 3 de novembro, reúne mais de 200 artistas e profissionais, entre eles Ruth Rocha, Fernando Morais, Bruno Gagliasso, Anna Muylaert, Laís Bodanzky e Marcélia Cartaxo.

A cobrança por renovação na condução do MinC traz signatários questionando dependência de editais, concentração de recursos, ausência de estratégia mais abrangente de desenvolvimento cultural e atraso na regulamentação das plataformas digitais.

A insatisfação não representa unanimidade entre os artistas, tampouco comprova favorecimento político na distribuição de dinheiro público. Mas revela inquietação legítima. Ter mais recursos disponíveis não significa, necessariamente, democratizar o acesso a eles.

Margareth já havia respondido a críticas anteriores. Reconheceu a necessidade de metas públicas, defendeu a reconstrução institucional e afirmou que financiamento cultural não exige fidelidade política. São posições importantes. Até agora, porém, não há confirmação pública de que Lula tenha decidido substituí-la.

Para Todos Verem: Quadro jornalístico com artista pintando e gráficos que comparam a indústria criativa com outros setores, destacando sua participação no PIB e 5,9 milhões de trabalhadores culturais.A indústria criativa movimenta R$ 393,3 bilhões e já representa 3,59% do PIB brasileiro. Foto: Infográfico Coluna Lugar de Fala

O governo apresenta números expressivos. A captação pela Lei Rouanet alcançou R$ 3,41 bilhões em 2025, crescimento de 45,1% em relação a 2023. Todas as regiões avançaram. Entretanto, aproximadamente 72% dos recursos captados permaneceram no Sudeste. E bateu recorde novamente. Anunciado, hoje, o crescimento de propostas submetidas à Lei Rouanet até o último dia 31 de outubro chegaram a 26.650 proposições. Crescimento de 11,6% em relação a 2025.

É necessário rever investimento onde a produção cultural é forte. Também criar condições para que a força floresça onde historicamente faltaram oportunidades. O artista de uma pequena cidade do Piauí não pode precisar mudar para São Paulo para conseguir demonstrar seu talento.

de Gil ao Brasil digital

A história ajuda a entender a dimensão da transformação. Em 2002, último ano de Fernando Henrique Cardoso, a execução orçamentária do MinC foi de R$ 380 milhões, em valores corrigidos para dezembro de 2007. No primeiro ano de Lula, em 2003, ficou em R$ 350,5 milhões. O crescimento não foi imediato. Mas, sob Gilberto Gil, ganhou intensidade. Em 2006, a execução chegou a R$ 713,4 milhões e, em 2007, a R$ 824 milhões. Mais que dobrava, em termos reais, o patamar encontrado em 2002.

A expansão financeira acompanhou transformação conceitual. A Cultura deixou de ser pensada exclusivamente como espetáculo ou patrimônio monumental. Passou a incorporar manifestações populares, comunidades, identidades e a cidadania cultural. Vieram Pontos de Cultura, movimentos de participação social e uma concepção mais ampla do papel do Estado.

O tempo avançou. O Brasil de 2003 não conhecia o poder atual das plataformas digitais, a economia dos influenciadores, a inteligência artificial generativa ou a capacidade de algoritmos determinarem o que milhões de pessoas vão assistir, ouvir e consumir. O desafio contemporâneo não é apenas financiar produção. É garantir circulação, preservar a diversidade e assegurar remuneração justa a quem cria.

indústria e identidade

Os números da economia criativa merecem lugar de destaque em qualquer discussão sobre desenvolvimento nacional. Segundo a Firjan, a indústria criativa movimentou R$ 393,3 bilhões em 2023, correspondentes a 3,59% do PIB brasileiro. A participação econômica do segmento era de 2,09% em 2004.

Para dimensionar melhor o resultado, a construção civil representou aproximadamente 3,5% do PIB em 2023. A agropecuária, considerada isoladamente, respondeu por cerca de 6%. Toda a indústria brasileira, incluindo transformação, extração, construção e serviços industriais, gerou aproximadamente R$ 2,4 trilhões naquele ano.

Para Todos Verem: Quadro jornalístico compara os investimentos federais em Cultura nos governos FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro, com valores corrigidos pela inflação para 2025.De FHC a Lula 3, o orçamento federal da Cultura passou por expansão, cortes e recuperação. Os números revelam diferentes prioridades ao longo dos governos. Foto: Infográfico Coluna Lugar de Fala

São recortes econômicos distintos, alguns sobrepostos, que não devem ser somados. Mas deixam evidente que criatividade é assunto de indústria, emprego, tecnologia e desenvolvimento.

O levantamento da Firjan registra aproximadamente 1,26 milhão de profissionais criativos com emprego formal em 2023. Já o IBGE identificou 5,9 milhões de pessoas ocupadas nas atividades culturais em 2024, numa definição mais abrangente. Apesar de apresentarem escolaridade superior à média nacional, 44,6% dos trabalhadores culturais estavam na informalidade. Indústria que gera riqueza não pode conviver tranquilamente com a precariedade de quem a sustenta.

A população também demonstra o que espera da área. Pesquisa da Fundação Itaú e Datafolha, realizada em julho de 2026, identificou que 42% dos entrevistados priorizavam ampliar atividades culturais gratuitas e 32% defendiam criar equipamentos públicos de cultura. Não é pesquisa de aprovação da ministra. Mas é igualmente importante. A indicação de que os brasileiros querem participar da vida cultural, não apenas assistir à distribuição de recursos entre produtores.

3 caminhos

A renovação pode começar com três iniciativas objetivas, simples e executáveis A primeira é democratizar o financiamento. Criar metas regionais verificáveis, abrir oportunidades para novos proponentes e disponibilizar informações claras sobre beneficiários, valores e resultados. Quem recebe dinheiro público precisa prestar contas à sociedade e quem nunca recebeu precisa encontrar portas abertas.

A segunda é investir na permanência. Teatro, dança, música, literatura, bibliotecas, museus, cinema, cultura popular e formação artística necessitam de continuidade. Não se constrói uma companhia teatral sólida com edital ocasional e três anos de espera pelo próximo. É preciso financiar criação, formação, circulação e manutenção dos grupos. Ou eles vão enfraquecer e não vou escrever o que pode acontecer depois.

A terceira é preparar o Brasil à economia criativa digital. Regulamentar o streaming, proteger direitos autorais, discutir o uso de obras pela inteligência artificial, estimular jogos digitais, animação e audiovisual independente, além de criar oportunidades de exportação da produção brasileira. Atualização para estar em dia com os novos tempos e as tecnologias que brotam das telas todos os dias.

A estratégia exige articulação com Educação, Ciência e Tecnologia, Indústria, Comunicações e Relações Exteriores. Cultura não pode continuar sendo tratada como sobremesa do desenvolvimento. Ela participa da elaboração do cardápio inteiro.

fiel da balança

A mudança de governo oferece oportunidade para avaliação, não para revanchismo. Não precisamos do Ministério da Cultura administrado pela lógica das disputas entre grupos, mas da instituição capaz de reconhecer o valor da experiência e, simultaneamente, abrir espaço para novas gerações.

Também precisamos olhar a quem quase nunca aparece nas fotografias oficiais. Técnicos, iluminadores, cenógrafos, figurinistas, produtores, mestres populares, artesãos, músicos, bailarinos e tantos profissionais que fazem a arte acontecer antes da abertura das cortinas. Sem eles, não há indústria criativa. Há apenas boas intenções esperando pelo espetáculo.

Para Todos Verem Imagem colorida reúne artistas de diferentes origens, com música, dança, cinema, literatura e artes visuais. Uma grande bolha transparente se rompe, simbolizando a liberdade e a diversidade cultural brasileira.A Cultura brasileira rompe bolhas, atravessa fronteiras e revela a diversidade de um país que precisa democratizar oportunidades e valorizar seus artistas. Foto: Imagem criada com IA

A Cultura tem ainda a responsabilidade que nenhuma estatística consegue medir integralmente. Provoca perguntas, revela injustiças, preserva memórias, celebra diferenças e transforma sentimentos individuais em consciência coletiva. Sempre será o fiel da balança da sociedade. Não deve pertencer a determinado governo ou pensamento. Precisa conservar a liberdade de questionar todos eles.

No aniversário de Rui Barbosa, cabe imaginar o velho baiano observando a Esplanada dos Ministérios e lembrando aos seus ocupantes que inteligência não se demonstra apenas acumulando conhecimentos. Mas sabendo utilizá-los em benefício da coletividade.

Lula tem diante de si a oportunidade de transformar a reconstrução necessária em novo ciclo de desenvolvimento cultural. Margareth tem contribuição que merece respeito. Os artistas, inclusive aqueles que discordam do governo, têm o direito de participar da construção.

Que o próximo capítulo não seja a simples troca de nomes na porta do gabinete. Que seja mudança de horizonte. A Cultura do futuro não será a que conseguir mais recursos para os de sempre. Será aquela capaz de fazer com que mais brasileiros possam criar, produzir, trabalhar, viver de sua arte e reconhecer-se nela. Quando isso acontecer, não será apenas a Cultura que terá avançado. Será o próprio Brasil.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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