A falta de oposição e a crise de representatividade

O cenário político que gera pobreza do debate político, ausência de credibilidade dos eleitos e enfraquecimento das instituições políticas.

Quando Hanna Pitkin (2006), em artigo “Representação: Palavras, instituições e ideias”, se debruçou sobre o conceito de Representação, ela passeou pelo sentido etimológico da palavra, pelas ideias que ela (a palavra “Representação”) poderia sugerir e, por fim, pela relação com as instituições. 

Para a autora, dado o seu significado ser altamente complexo, conceituar representação é um caso instrutivo e, mais que isso, “representação é, em grande medida, um fenômeno cultural e político, um fenômeno humano”. (PITKIN, 2006, P.16).

Usei a introdução acima para comentar duas matérias veiculadas nas edições desta segunda-feira, 11, dos jornais O Dia e Meio Norte como ilustração do enfraquecimento dos partidos de oposição em Teresina e outros municípios piauienses e como isso empobrece o debate e compromete a credibilidade de instituições políticas, como o Legislativo, junto à opinião pública. 

A pergunta que faço é: Há representação política sem oposição? Certamente, não, pois ela faz parte da Democracia e partido nenhum deveria se esquivar dessa responsabilidade, sendo ela essencial para a representatividade da população no Legislativo.

Para situar o leitor, fiz um recorte do material publicado. No jornal o Dia, a matéria “PSDB e PP declaram oposição “construtiva"”, destaca que para tais partidos o papel da oposição será, nesse primeiro ano, “apontar equívocosdeixando o prefeito à vontade para tomar decisões e implementar seu modelo de gestão”. Carregada de expressões do tipo “priorizar a observação”, “crítica construtiva”, “comportamento respeitoso”, “nada de confronto”, a matéria segue reproduzindo a fala de representantes dos dois partidos, reafirmando o que já havia antecipado na semana passada, o escolhido para ser líder do prefeito na Câmara, o ex-tucano, Renato Berger, agora PSD, quando disse que “nesse momento vemos e entendemos que não há oposição. Todos queremos que tudo ocorra bem”. 

Aqui, outra pergunta: "bem" para quem? Como pode ser bom para o eleitor e a cidade ou o estado uma situação de compadrio entre gestores e vereadores ou deputados, que são eleitos para fiscalizar e cobrar aqueles, e não o fazem com a desculpa de que querem que "fique tudo bem"?

Impressiona que, em nenhum momento, nem oposição, nem situação, usam a expressão “fiscalização dos atos dos governantes”, para dizer o mínimo, como uma das atribuições de quem foi eleito para representar o povo, papel que vai além da sigla e de que lado do governo está.

A matéria do jornal Meio Norte, “Oposição não será problema para alguns prefeitos” toma como referência a cidade de Belém do Piauí, localizada a 383km ao sul de Teresina, cujo prefeito foi reeleito com quase 74% dos votos e como não bastasse, toda a câmara de vereadores é do seu partido, o MDB. Destaca a matéria que o prefeito (que está no seu quarto mandato) terá, portanto, “uma gestão sem turbulência e, possivelmente, de comum acordo na aprovação de projetos”. Sem comentários.

A ausência de credibilidade nos políticos e nas instituições políticas é visível no cenário atual, inclusive, foi argumento usado como discurso de muitos candidatos nas eleições passadas. E se enfrentamos uma crise de representação, ela se estende também à Democracia. A ironia é que as duas palavras, aparentemente complementares, parecem não se entender ou, ao menos, parecem não caminhar juntas quando o assunto é o interesse coletivo. Um paradoxo e um triste sentimento de enfraquecimento do voto como forma de poder. 

Os efeitos colaterais dessa situação já vivenciamos e está, como destaquei acima, na pobreza do debate político, na ausência de credibilidade dos representantes eleitos e no enfraquecimento das instituições políticas e, por extensão, da Democracia brasileira. É ruim para o município, para o estado e para o país.

Por Ana Cristina Guedes

*Ana Cristina Guedes é jornalista, especialista em Comunicação Institucional, Comunicação Política e Mestre em Comunicação

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