09 de março de 2026 às 21:25 ▪ Atualizado há 3 meses
No Piauí, a política criou uma palavra que, com o tempo, virou uma estratégia, um método de governo: quase.
Porto de Luís Correia - Foto: ASCOM Quase tivemos Guaribas como cidade modelo do Fome Zero.
Quase tivemos o hidrogênio verde transformando o litoral em um polo energético.
Quase vimos o Porto de Luís Correia se tornar a grande porta de escoamento da economia piauiense para o mundo.
Quase universalizamos as escolas de tempo integral.
No discurso oficial, tudo parece sempre a um passo de acontecer, mas na vida real da população, aos olhos do povo, esse passo raramente é dado.
O estado convive há décadas com a síndrome do projeto anunciado. A ideia nasce em solenidades, com o palácio sempre lotado, ganha manchetes, apresentações em PowerPoint e promessas de transformação histórica.
Depois entra em uma zona nebulosa onde tudo permanece “em negociação”, “em fase final”, esperando o termo de fomento ou “em estruturação”.
Essa lógica não começou agora. Ela atravessou governos e gerações políticas.
Durante os mandatos de Wellington Dias surgiram grandes expectativas com projetos como refinaria, ferrovia e polos industriais. Muitos ficaram pelo caminho ou avançaram menos do que se prometia.
Sob o governo de Rafael Fonteles, o discurso ganhou uma estética moderna: economia digital, inteligência artificial na educação, hidrogênio verde e integração logística internacional.
Grandes projetos surgem da ambição dos gestores em fazer história — e a ambição é legítima. O problema surge quando ela se transforma em retórica reiterada.
O Porto de Luís Correia é o exemplo clássico. Há décadas ele aparece como divisor de águas da economia piauiense. Já teve anúncios de conclusão, ampliação e retomada, mas continua sendo mais promessa de futuro do que realidade do presente.
No litoral, o hidrogênio verde começa a seguir trilha semelhante. Memorandos e cartas de intenção alimentam a narrativa de protagonismo energético, mas a produção concreta ainda é incipiente.
Agora, indiscutivelmente, o turismo é o retrato mais claro do Piauí do “quase”.
O estado abriga um patrimônio arqueológico extraordinário: o Parque Nacional da Serra da Capivara, um tesouro capaz de atrair visitantes do mundo inteiro. Mesmo assim, os voos para a região vivem um ciclo instável: hora existem, hora desaparecem.
O mesmo acontece com os planos de consolidar voos para o litoral, em Luís Correia.
O resultado é um paradoxo evidente: o Piauí possui riquezas naturais e culturais únicas, mas ainda enfrenta dificuldades básicas de conectividade aérea para recebê-las.
Na educação, a expansão das escolas de tempo integral é um avanço importante, mas apresentá-la como universalizada quando ainda há desigualdades no interior revela como, muitas vezes, o marketing político corre mais rápido que a realidade.
O problema do Piauí nunca foi sonhar grande.
O problema é transformar cada promessa em um anúncio histórico antes que ela vire realidade.
Assim, o estado parece viver permanentemente à beira de uma decolagem que nunca se completa.
E o povo piauiense já demonstra sinais claros de cansaço.
Quer porto funcionando, não maquete.
Quer indústria operando, não protocolo de intenções.
Quer avião pousando regularmente na Serra da Capivara e no litoral.
Porque o “quase” pode até render bons discursos, porém não constrói desenvolvimento — e muito menos coloca o gestor, positivamente, nos livros de história.
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