Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

Jovem para sempre

O corpo envelhece, mas a ditadura estética insiste em exigir juventude eterna, como se rugas, cabelos brancos e marcas do tempo fossem defeitos a corrigir e não sinais naturais da vida.

Por Willian Tito

09 de setembro de 2026 às 18:20 ▪ Atualizado em 09/09 às 19:06


Envelhecer virou infração estética. A ruga precisa ser corrigida, o cabelo branco disfarçado, a barriga escondida, a pálpebra levantada, o pescoço esticado, a foto filtrada e a idade, se possível, tratada como informação sigilosa.

A juventude deixou de ser apenas uma fase da vida. Virou obrigação. Não basta estar bem. É preciso parecer mais novo. Não basta envelhecer com saúde. É necessário apresentar provas visuais de que o tempo passou pelos outros, não por nós.

Criamos uma ditadura curiosa. Ninguém decretou, mas quase todo mundo obedece. A publicidade ajuda. As redes sociais ajudam. A indústria da beleza agradece. E o espelho, pobre coitado, passou a ser acusado de crimes que não cometeu.

Cuidar do corpo, da pele, do cabelo ou da aparência não é problema. Vaidade pode ser prazer. A estranheza começa quando o cuidado vira guerra. Quando qualquer sinal do tempo parece fracasso. Quando um rosto de 60 anos precisa pedir desculpas por não aparentar 42. Uma sociedade inteira a desejar longevidade e, simultaneamente, a ter vergonha dos sinais de que conseguiu chegar lá.

Queremos viver muito. Só não queremos parecer que vivemos. A contradição é quase cômica. Celebramos aniversários e escondemos a idade. Desejamos muitos anos de vida e, quando eles chegam, começamos a apagá-los da fotografia.

A ditadura da juventude não atinge apenas o rosto. Ela invade o comportamento. Existe uma pressão para vestir-se jovem, falar jovem, dançar jovem, consumir jovem, frequentar lugares jovens e demonstrar permanentemente disposição para provar que a certidão de nascimento está mentindo.

 Descrição da imagem criada com IA: Uma mulher preta idosa, de cabelos crespos grisalhos presos, está sentada diante de uma penteadeira elegante, apoiando o rosto sobre a mão enquanto observa o espelho. No reflexo, aparece uma versão mais jovem dela mesma, com cabelos escuros e pele mais lisa. As duas vestem preto e usam brincos dourados. Sobre a bancada de mármore há perfumes, cosméticos, pincéis e flores claras. A luz quente do fim da tarde entra pela janela e reforça o contraste entre envelhecimento natural e idealização da juventude.Descrição da imagem criada com IA: Uma mulher preta idosa, de cabelos crespos grisalhos presos, está sentada diante de uma penteadeira elegante, apoiando o rosto sobre a mão enquanto observa o espelho. No reflexo, aparece uma versão mais jovem dela mesma, com cabelos escuros e pele mais lisa. As duas vestem preto e usam brincos dourados. Sobre a bancada de mármore há perfumes, cosméticos, pincéis e flores claras. A luz quente do fim da tarde entra pela janela e reforça o contraste entre envelhecimento natural e idealização da juventude. 

De repente, envelhecer com naturalidade parece falta de esforço. Como se maturidade tivesse se tornado defeito de fabricação. Passou da hora de recuperar uma ideia simples. Cada idade tem sua beleza que não pode ser imitada pela anterior.

A juventude possui frescor, impulso, descoberta. A maturidade traz repertório, discernimento, memória, experiência e uma vantagem extraordinária. Começa-se a perceber que boa parte das urgências não era urgente coisa nenhuma. Isso também rejuvenesce.

Há gente de 25 anos envelhecida pelo medo e gente de 80 ainda curiosa diante do mundo. O envelhecimento mais grave não é o da pele. É o da curiosidade. Quando a pessoa deixa de aprender, de rir de si mesma, de mudar de ideia, de fazer perguntas, de experimentar o novo.

Testa lisa não garante juventude alguma. Assim como uma ruga não condena ninguém à velhice. O corpo muda. Sempre mudou. A questão talvez não está em derrotar o tempo, mas fazer as pazes com ele.

Não há botox para calendário. Ainda bem. O tempo entrega coisas. Afasta certas inseguranças, seleciona amizades, relativiza opiniões alheias, melhora o gosto e ensina a exercer a arte sofisticada de não precisar agradar todo mundo. É um patrimônio.

Com o tempo, parecer jovem deixa de ser tão interessante quanto continuar vivo, interessado, lúcido, desejante, curioso e inteiro. A idade não é apenas o que o rosto denuncia. É o que a vida acumulou.

A sociedade obcecada em apagar as marcas do tempo corre o risco de eliminar o que levou décadas para adquirir. Envelhecer não precisa ser derrota estética. Pode ser uma conquista narrativa. O rosto muda. O corpo muda. A vida muda. Ainda bem.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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