Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

A vida secreta dos quintais

Nos fundos da casa, onde o tempo parece correr mais devagar, a natureza, a infância e a memória continuam se encontrando em acontecimentos que quase nunca viram notícia.

Por Willian Tito

23 de agosto de 2026 às 11:17 ▪ Atualizado há 2 horas


Quintal é uma palavra que já vem com sombra. Tem cheiro de terra molhada, folha amassada, roupa secando ao vento e alguma fruta que caiu antes da hora. É um dos poucos lugares da casa onde a natureza ainda consegue entrar sem pedir licença. Isso quando não foi cimentado. Contribuindo para impermeabilização do solo e suas consequências.

Todo quintal tem uma vida que os moradores nem sempre percebem. Enquanto a gente trabalha, responde mensagens, paga contas e discute assuntos importantíssimos, lá atrás a lagartixa atravessa o muro, a formiga transporta uma carga desproporcional ao próprio tamanho e um passarinho decide que aquele galho é território particular. Há uma cidade funcionando dentro do quintal. Com trânsito, disputas, construções, romances e vizinhos inconvenientes.

As plantas também têm suas manias. Umas crescem onde foram cuidadosamente plantadas. Outras ignoram completamente o planejamento humano e aparecem numa rachadura do chão, demonstrando que a vida, quando quer nascer, não consulta arquiteto.

Quintal é também arquivo de família. Foi onde muita gente aprendeu a andar, caiu de bicicleta, tomou banho de mangueira, enterrou cachorro, plantou árvore ou ouviu histórias que nunca chegaram aos livros.

Há árvores que conhecem famílias inteiras. Viram crianças crescerem, adultos envelhecerem, casas mudarem de dono. Continuam no mesmo lugar, guardando silenciosamente aniversários, discussões, reconciliações e tardes absolutamente comuns que, muitos anos depois, se transformariam em saudade. Derrubar uma árvore antiga dói mais do que imaginamos. Não perdemos apenas madeira e folhas.

Os quintais diminuíram. As cidades cresceram, o concreto avançou, os terrenos ficaram menores. Em muitos lugares, o espaço onde havia mangueira, limoeiro, galinheiro e cadeira de balanço virou garagem, corredor ou piso concretado. A cidade precisa caber dentro dela mesma. Perdemos mais do que espaço.

O quintal ensinava coisas sem transformar tudo em aula. Ensinava que manga tem época. Que chuva muda o cheiro da terra. Que passarinho chega sem convite. Que uma planta não cresce mais rápido porque estamos com pressa. E sombra leva anos para ser construída. Coisas importantes precisam de tempo. Árvore não aceita urgência. Jardim também não.

Há domingos que combinam com quintais porque ambos parecem funcionar numa velocidade diferente. A “cadeira de macarrão” debaixo da árvore pode ser um excelente observatório da existência. Não acontece nada extraordinário. E acontece tudo.

Uma folha cai. O vento balaço a folhagem nas árvores e caídas pelo chão. Alguém passa café. Uma voz chama de dentro da casa. O doguinho encontra alguma coisa que considera urgentíssima. A tarde vai acontecendo sem precisar provar que foi produtiva.

Os quintais guardam em segredo a lembrança de que a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos. Ela está viva nos fundos da casa. Entre um vaso torto, uma árvore antiga, a roupa balançando no varal e aquele pedaço de sombra onde alguém colocou uma cadeira. E ficou. Sem fazer absolutamente nada. Fazendo exatamente o que precisava.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




Assine a Newsletter do Portal Lupa1

De segunda a sexta, um resumo dos fatos que importam, direto no seu e-mail e de forma gratuita.