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Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Protejam nossos povos indígenas

A derrota nas urnas reacende o ódio contra os primeiros habitantes do país que lhes deve respeito, justiça e proteção, enquanto novas ameaças renovam a luta com mais de cinco séculos de resistência.

Por Willian Tito

30 de outubro de 2026 às 19:54 ▪ Atualizado em 30/10 às 20:07

Ver resumo
  • Os povos indígenas habitavam o Brasil muito antes da chegada dos europeus, com uma população estimada entre dois e quatro milhões em 1500.
  • A colonização trouxe violência, escravização e massacres, levando à extinção de muitos povos e à perseguição de sobreviventes.
  • No Piauí, a ocupação colonial foi marcada por guerras e expulsões. Estudos identificaram até 158 grupos indígenas na região.
  • Apesar dos registros oficiais negarem, comunidades indígenas resistiram e hoje soma-se 7.202 indígenas no Piauí, sem terras demarcadas.
  • Após a eleição de 2026, houve aumento de violência e intolerância contra comunidades indígenas, especialmente em Mato Grosso do Sul.
  • O governo federal relatou 45 casos de violência política, incluindo mortes de indígenas, destacando a necessidade de ação firme das autoridades.
  • O Brasil de 2022 reúne 1,7 milhão de indígenas de 391 etnias, preservando suas culturas, línguas e conhecimentos.
  • Proteger os povos indígenas é crucial para a biodiversidade e a identidade cultural do país, assegurando seus direitos territoriais e autonomia.
  • A Constituição reconhece os direitos originários dos indígenas, e garantir esses direitos é uma responsabilidade histórica e humanitária.
  • O texto destaca a necessidade de investigação e punição de crimes contra indígenas, propondo a proteção como um dever nacional, não partidário.

Donos originários desta terra, os povos indígenas enfrentam há mais de cinco séculos a violência, o extermínio e a negação de seus direitos. Depois da eleição, novas ameaças mostram que a história ainda não terminou

O Brasil nem existia, mas já existiam brasileiros. Não tinham esse nome, não conheciam a língua portuguesa e tampouco precisavam de certidão de propriedade para saber a quem pertenciam os rios, as florestas e montanhas. Eram os povos originários, habitantes de uma terra que os europeus não descobriram. Encontraram ocupada. E invadiram.

Estima-se que, em 1500, entre dois e quatro milhões de indígenas habitassem o território brasileiro, distribuídos em mais de mil povos. Alguns estudos apresentam estimativas populacionais ainda maiores. Eram sociedades com línguas, conhecimentos, tradições, espiritualidades e formas próprias de organização.

A colonização trouxe guerras, escravização, epidemias, expulsões e massacres. Ao longo de cinco séculos, centenas de povos desapareceram. Outros sobreviveram escondendo suas identidades para escapar da perseguição. Não existe uma contagem exata de quantos seres humanos e quantas etnias foram exterminados. O que sabemos é suficiente para compreender a dimensão da tragédia.

No Piauí, a história foi particularmente cruel. Pesquisas históricas identificam dezenas de grupos indígenas que habitavam nosso território. O padre Miguel de Carvalho registrou 27 em 1697. Estudos posteriores identificaram números maiores. Uma reconstituição do historiador João Gabriel Baptista chegou a 158 agrupamentos indígenas e estimou em aproximadamente 316 mil a população originária piauiense. São estimativas históricas, sujeitas a divergências, mas que desmontam a fantasia de um território desabitado.

Entre os povos que marcaram nossa formação estão os Tremembé, Tabajara, Acroá, Gueguê, Jaicó, Timbira e Pimenteira.

A expansão das fazendas de gado foi acompanhada por guerras de extermínio, expulsões e escravização. A ocupação do território piauiense não aconteceu apenas com vaqueiros abrindo caminhos. Também aconteceu sobre aldeias destruídas, famílias separadas e vidas eliminadas.

Durante muito tempo, a versão oficial foi ainda mais perversa. Dizia-se que não existiam mais indígenas no Piauí. Como se um povo pudesse desaparecer simplesmente porque alguém resolveu apagá-lo dos registros. Mas eles resistiram.

O Censo de 2022 identificou 7.202 indígenas no Piauí. Segundo informações divulgadas pelo Ministério Público Federal em setembro de 2026, são mais de 1.600 famílias, pertencentes a sete povos, distribuídas por aproximadamente 39 comunidades. E o estado continuava sem nenhuma terra indígena demarcada pela União. Ironia histórica que desafia qualquer explicação razoável. Os primeiros habitantes ainda precisam recorrer à Justiça para garantir o direito de permanecer na terra que seus ancestrais ocupavam antes de existir qualquer governo brasileiro.

covardia depois das urnas

A derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial de 25 de outubro de 2026 trouxe à superfície manifestações especialmente graves de intolerância política. Entre as vítimas de ameaças e agressões denunciadas estão integrantes de comunidades indígenas que escolheram votar em Luiz Inácio Lula da Silva.

Para Todos Verem: Homem idoso, mulher e criança indígenas aparecem em primeiro plano, com expressões de resistência e determinação. Ao fundo, um rio atravessa a paisagem, enquanto fumaça e queimadas ameaçam a natureza.A imagem simboliza a luta dos povos originários pela vida, pela terra e pela preservação de suas raízes. Foto: Imagem criada com IA

Em Mato Grosso do Sul, território de intensa presença Guarani Kaiowá, surgiram denúncias de atropelamentos, agressões, intimidações e assassinatos. O Conselho Indigenista Missionário relatou casos de violência investigados pelas autoridades. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil acionou órgãos federais para exigir proteção.

Em Tacuru, o absurdo alcançou uma dimensão assustadora. Um servidor municipal foi afastado após a divulgação de áudios com ameaças de colocar veneno na água consumida pelos indígenas, em represália ao resultado eleitoral. Não há confirmação de que a água tenha sido efetivamente envenenada. Mas a ameaça, por si só, representa uma violência intolerável. Ainda mais contra comunidades que enfrentam dificuldades históricas de abastecimento. A água, fonte da vida, transformada em instrumento de ameaça.

Em 28 de outubro, o governo federal apresentou um levantamento preliminar de 45 ocorrências de violência política relacionadas ao processo eleitoral, envolvendo 47 vítimas. Entre dez mortes registradas nesse levantamento, três vítimas foram identificadas como indígenas. As circunstâncias, responsabilidades e motivações dos episódios seguem em investigação.

Não se pode atribuir automaticamente os crimes a uma organização coordenada, nem confundir denúncias com conclusões judiciais. Mas os fatos documentados e as ameaças registradas já exigem uma resposta firme das instituições.

A democracia não permite que o direito ao voto seja acompanhado de sentença de morte.

Há perversidade ainda maior na história. Há séculos lutam para sobreviver à violência colonial que agora precisam se defender de novas manifestações de intolerância. Mudam os séculos, as armas e os discursos. O desprezo pela vida indígena, infelizmente, ainda encontra quem o reproduza.

raízes do futuro

O Brasil do Censo de 2022 reúne aproximadamente 1,7 milhão de indígenas, pertencentes a 391 etnias, povos ou grupos identificados, com 295 línguas indígenas registradas. Não são sobreviventes de uma civilização desaparecida. São integrantes de sociedades vivas, contemporâneas, produtoras de conhecimentos e protagonistas de suas próprias histórias.

O DNA original do Brasil vem da ancestralidade, memória e formação cultural. Não de pureza genética. A identidade brasileira nasceu de encontros e conflitos entre povos indígenas, africanos, europeus e tantos outros. Mas nenhuma das contribuições apaga o fato histórico de que os povos originários estavam aqui primeiro.

Somos o que começou com eles. Na alimentação, na medicina tradicional, nos nomes das cidades e dos rios, nas palavras que pronunciamos, nas técnicas agrícolas, nas manifestações artísticas e na relação com a natureza.

Proteger os povos indígenas é defender a vida, a biodiversidade, os recursos hídricos, as florestas e os conhecimentos acumulados por milhares de anos. Significa reconhecer suas formas próprias de organização e garantir que possam decidir seus destinos.

O artigo 231 da Constituição reconhece seus direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas. Direitos originários não são presentes do Estado. São direitos anteriores à própria organização do Estado brasileiro. É preciso assegurar demarcação territorial, saúde, educação, abastecimento de água, segurança, respeito às línguas e tradições e participação efetiva dos próprios indígenas nas decisões que afetam suas comunidades.

Investigar e punir os responsáveis por crimes e ameaças, independentemente de partido, ideologia ou posição social é obrigação do Estado. Proteger os povos originários não deveria ser bandeira partidária. E sim compromisso com a humanidade e com a própria história do país. São mais de quinhentos anos de resistência. Cinco séculos enfrentando invasões, epidemias, massacres, escravização, preconceito e tentativas de apagamento.

Talvez tenha chegado o momento de inverter a velha lógica. Em vez de exigir que os povos indígenas justifiquem sua existência, que o Brasil finalmente justifique por que não conseguiu garantir plenamente seus direitos e sua autonomia. Não precisam de nossa piedade. Precisam de respeito, justiça, proteção e solidariedade.

Quando protegemos os povos originários, guardamos mais que nossa história. Preservamos as raízes que sustentam o Brasil.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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