AO VIVO
A Rádio Lupa 1 toca onde você estiver.

Conversando Direito

Ivilla Araújo é advogada especialista em Direito Eleitoral e Direito Público e mestranda em Direito Eleitoral e Político. É membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), vice-presidente da Comissão de Compliance Eleitoral e Partidário do Conselho Federal da OAB e secretária-geral adjunta do Observatório Nacional das Eleições 2026 do Conselho Federal da OAB. É comentarista do programa Boa Tarde Boa Tarde, da TV Lupa 01.
Conversando Direito

O processo judicial que fortaleceu o “Exército do Lula”

A eleição presidencial de 2026 inaugurou um novo palanque: a força da resistência digital.

30 de outubro de 2026 às 14:19 ▪ Atualizado em 30/10 às 14:37

Ver resumo
  • André Janones criou o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, atraindo milhões de seguidores rapidamente.
  • O canal influenciou significativamente as eleições, superando a audiência de aplicativos populares como a Netflix.
  • A tentativa da campanha de Flávio Bolsonaro de suspender o canal no TSE aumentou sua visibilidade, mas não impediu seu crescimento.
  • O TSE improvisou regras para lidar com o novo fenômeno das campanhas digitais via WhatsApp durante as eleições.
  • A ação judicial contra Janones, Lula e Alckmin não parou o canal e ainda contribuiu para a narrativa de perseguição política.
  • O caso exemplifica como ações judiciais podem influenciar campanhas eleitorais e a percepção pública.
  • O controle dos canais digitais nas campanhas eleitorais futuras precisará de regulamentações mais eficazes e claras.

Oct 27, 2026 · @Ivilla Araújo

Em três semanas, um deputado federal juntou num canal de WhatsApp mais gente do que a Netflix reúne no mesmo aplicativo. A campanha adversária foi ao tribunal para calá-lo e, sem querer, ajudou a divulgá-lo.

WhatsApp-Image-2026-10-30-at-14.07.30-%282%29.jpg

Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno, 5 de outubro, o canal "Exército do Lula" tinha uns 60 mil inscritos. Quem o comandava era André Janones (Rede-MG), deputado conhecido pelo estilo combativo nas redes. Vinte dias depois, quando os brasileiros voltaram às urnas, o canal se aproximava de 11 milhões de pessoas. Lula virou a eleição e, no discurso da vitória, chamou Janones de "nosso general".

WhatsApp-Image-2026-10-30-at-14.07.30-%281%29.jpg

Entre uma data e outra, a campanha de Flávio Bolsonaro pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que tirasse o canal do ar. Conseguiu, por algumas horas. Este texto conta essa disputa e o que ela revela sobre as próximas eleições: as campanhas mudaram de lugar, e um processo aberto no calor da disputa também fala com o eleitor, às vezes contra quem o propôs.

A campanha que cabe no celular

Por muito tempo, quem quisesse falar com o país inteiro dependia do horário eleitoral na TV, repartido por lei entre os partidos. Janones fez outra aposta. Usou uma ferramenta gratuita, sem limite de público, instalada no celular de quase todo brasileiro.

A escolha do formato fez diferença. Num grupo de WhatsApp todo mundo conversa, mas o espaço acaba em cerca de mil pessoas. O canal funciona de outro jeito: só o administrador escreve, o público pode crescer sem teto e um seguidor nunca vê o número do outro. Funciona mais como uma rádio do que como uma conversa. Quem ouve repassa a mensagem para os grupos da família, do trabalho e da igreja, e ali ela chega com a cara de quem enviou, não de quem escreveu.

O resto foi linguagem. Janones chamava os seguidores de "soldados", tratava cada etapa como "missão" e anunciava metas em voz alta: 6, 7, 8, 10 milhões. Num desses momentos, parou de postar até o canal bater o número seguinte, e bastaram algumas horas. O canal existia desde 14 de abril, quase esquecido. Ganhou mais de 900 mil pessoas em 24 horas no dia 6 de outubro e passou de 2 milhões no dia 7, depois que o próprio Lula gravou um vídeo convidando os eleitores a entrar.

1793380151608.pngPoder360, Metrópoles, CartaCapital, Brasil 247, Amado Mundo, O Tempo, Al Jazeera · 5 a 25 de outubro de 2026

Em 23 de outubro, com 10 milhões de inscritos, o Exército do Lula já era o segundo maior canal de WhatsApp do Brasil. Ficava atrás só de um canal de figurinhas e à frente da Netflix. O Instagram de Janones foi junto: tinha 2,8 milhões de seguidores depois do primeiro turno e chegou a 6,9 milhões.

Primeiro, a cópia

O lado de Flávio Bolsonaro tentou responder na mesma moeda. Em 8 de outubro, numa live, Flávio apresentou a "Tropa do Flávio", canal que o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) passou a divulgar. Naquela noite já eram uns 330 mil seguidores, um começo respeitável.

Só que o outro lado corria mais. No dia 11, a Tropa tinha 1,3 milhão e o Exército, 3,4 milhões. No dia 19, a Tropa comemorou 2 milhões; o rival já passava de 5. A distância nunca caiu muito abaixo de três para um.

Foi nesse cenário, dois dias depois do lançamento da Tropa, que a campanha levou o assunto ao tribunal. As datas, sozinhas, não revelam a intenção de ninguém, e a ação falava formalmente em abuso e em notícias falsas. Ainda assim, é difícil ignorar que a briga judicial começou quando a briga por audiência já ia mal.

Depois, o tribunal

Entre 9 e 10 de outubro, a campanha de Flávio protocolou no TSE uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral, a AIJE, contra Janones, Lula e o vice Geraldo Alckmin. É o instrumento que a lei oferece para apurar abusos capazes de desequilibrar uma eleição, e não é pouca coisa: se a acusação for aceita no fim, o eleito pode perder o registro ou o diploma e ficar inelegível por oito anos. Os autores falavam em abuso de poder, uso indevido dos meios de comunicação e notícias falsas.

O pedido mais imediato, porém, era outro. A campanha queria o canal fora do ar já, antes de qualquer julgamento. O que veio depois envolve três expressões do vocabulário dos tribunais. Uma decisão monocrática é a de um ministro sozinho. Uma liminar é provisória e urgente, vale até a decisão final. E o Plenário é o conjunto dos sete ministros do TSE, que dá a palavra definitiva da Corte.

1793380346061.pngSomando tudo, o canal saiu do ar duas vezes, nas duas por ordem de um único ministro, e nas duas por pouco tempo. O Plenário jamais decidiu contra ele.

Um pedido grande demais para a prova que tinha

Ir à Justiça era um direito da campanha de Flávio. O problema estava no tamanho do pedido. Tirar do ar um canal com milhões de pessoas, em plena eleição, significa silenciar um meio de comunicação antes de saber se ele fez algo errado. O direito brasileiro aceita isso em casos extremos, desde que haja prova robusta, clara e individualizada, e desde que nada mais brando resolva.

O próprio andamento do caso mostra que essa prova não estava lá. O relator, Cueva, achou que havia o bastante para investigar, mas não para suspender, porque ninguém apontava quais mensagens, exatamente, seriam ilícitas. A suspensão que a campanha conseguiu veio por outro caminho, sem as provas da ação principal, e caiu no mesmo dia. Doze dias depois, o ministro Floriano diria que decisões desse tipo carregavam um "grave e incontornável vício de competência". Em português corrente: foram tomadas por quem não podia tomá-las.

O golpe mais duro veio da área técnica do próprio TSE. Os técnicos examinaram as postagens de 2 a 11 de outubro e não encontraram nenhuma notícia falsa específica. Encontraram, isso sim, mobilização coordenada, como pedidos para curtir, compartilhar e subir hashtags. É militância organizada, coisa que toda campanha faz.

Seria injusto dizer que a ação não deu em nada. A investigação continua aberta, o canal ficou proibido de repetir mensagens já consideradas falsas e precisou ser registrado como ferramenta ligada à campanha de Lula. O erro foi de dose e de hora. A campanha pediu o máximo, com pouca prova, no momento em que o país inteiro estava olhando.

As regras mudaram com o jogo em andamento

O TSE não tinha regra pronta para um canal gigante, criado por um aliado e sem laço formal com a campanha. Teve de improvisar, e fez isso por dois caminhos.

O primeiro deu certo. Em 16 de outubro, três dias depois de exigir o registro do canal, o Plenário aprovou por unanimidade uma mudança na Resolução TSE nº 23.610/2019, que regula a propaganda eleitoral. O relator foi o ministro André Mendonça. A partir dali, um canal passa a contar como parte da campanha quando ela o financia, cede gente ou estrutura, dá suporte técnico, divulga o link em perfis oficiais, direciona seguidores de forma sistemática ou orienta conteúdo e metas. Um só desses sinais basta (art. 33-E). O apoiador que cria um canal por conta própria, a menção solta do candidato numa entrevista ou uma participação eventual a convite não bastam. O canal vinculado precisa ser registrado (art. 28), o vínculo tem de ser provado com algo concreto (art. 33-F) e quem insiste em espalhar conteúdo fabricado ou manipulado pode ver o canal derrubado (art. 33-G). No mesmo dia, a coligação de Lula usou a regra nova para pedir que o canal deixasse de ser tratado como da campanha, alegando que era iniciativa pessoal de Janones.

O segundo caminho não andou. Na semana seguinte, veio a público uma minuta de resolução escrita por Mendonça e discutida com a Presidência do TSE. A ideia era silenciar todos os canais políticos com mais de 200 mil seguidores, das 48 horas antes da votação até 24 horas depois. Por ser uma regra geral, e não uma decisão num processo, ela atingiria também a Tropa do Flávio e precisaria do voto do Plenário. O texto vazou em 21 de outubro e rachou o tribunal. Havia acordo para frear canais novos perto da eleição, mas não para calar os que já existiam. Nunes Marques deu a conversa por encerrada, e a proposta morreu sem ser votada.

O tiro que voltou

Quem acompanha a internet conhece o padrão: tentar esconder algo costuma chamar atenção para ele. O nome técnico é "efeito Streisand", e o caso cabe nele. Com a briga no TSE, o canal virou assunto nacional. Lula criticou Nunes Marques em público. Em 12 de outubro, o Metrópoles noticiava que o canal "supera 4 milhões de seguidores após embate no TSE". Janones vestiu o papel de perseguido, que costuma inflamar a base e despertar a curiosidade de quem passava ao largo.

Os números, porém, pedem calma. O canal cresceu mais depressa antes do processo do que depois dele:

1793380419053.png

E o salto mais impressionante da reta final, de 5 para 10 milhões entre 20 e 23 de outubro, acompanhou as metas de Janones, o debate da Globo e a live com Lula, não algum passo do processo. Sem falar que, nos dias de suspensão, ninguém conseguia entrar no canal.

O mais justo, então, é dizer que o processo não criou o fenômeno. Também não conseguiu detê-lo. E, ao levá-lo para as manchetes e entregar a ele o papel de resistência, muito provavelmente ajudou a manter o fôlego.

O que fica para as próximas campanhas

É tentador tratar o Exército do Lula como um fenômeno passageiro. Parece mais prudente vê-lo como um primeiro rascunho do que virá nas eleições majoritárias, aquelas para presidente, governador, senador e prefeito.

A primeira mudança é de onde vem a audiência. O tempo de TV continua sendo dividido pelo tamanho das bancadas, mas um canal de 10 milhões foi erguido em três semanas, quase sem custo, por quem soube mobilizar. A segunda é quem fala. A voz que mais rendeu votos não foi a do candidato nem a do comitê, e sim a de um aliado sem cargo na campanha. Isso traz agilidade e também uma zona cinzenta: não por acaso, a própria coligação de Lula pediu para desvincular o canal.

Há ainda o papel do seguidor, que deixou de ser plateia. Cada um dos 10 milhões funcionava como um repetidor, levando a mensagem para grupos privados onde nenhuma fiscalização chega. E há o jurídico, que entrou de vez na sala de comunicação. Uma petição é lida pelo eleitor, vira manchete e é explorada pelo adversário. Mal calibrada, pode render mais ao alvo do que ao autor.

Por fim, a regulação ficou para trás e sabe disso. O TSE mudou regras no meio da disputa e chegou a cogitar o silêncio dos canais na véspera da votação. É razoável esperar que a próxima eleição comece com normas mais duras para canais e influenciadores.

Convém não exagerar. Especialistas ouvidos pela imprensa lembram que mobilização de urgência dificilmente sobrevive à reta final. O desafio é manter as pessoas engajadas entre uma eleição e outra, algo que a direita brasileira faz há anos com sua "campanha permanente".

Conclusão

A campanha de Flávio Bolsonaro tinha o direito de ir à Justiça. Errou ao pedir de saída a medida mais dura que existe, tirar o canal do ar, sem a prova clara e individualizada que se exige para calar alguém no meio de uma eleição. Ganhou umas horas no processo e perdeu a disputa da narrativa até o dia da votação.

Resta provado, com este caso, que uma ação judicial durante a campanha vai muito além da discussão de direito e de matéria eleitoral. Ela também é um gesto político, que comunica alguma coisa ao eleitor e escapa ao controle de qualquer juiz. O processo não inventou o Exército do Lula. Deu a ele, porém, aquilo que nenhum disparo em massa compra: o papel de vítima, espaço no noticiário nacional e um adversário contra quem se unir. Quem cuidar da estratégia jurídica das próximas campanhas vai precisar fazer duas contas, a da chance de vencer nos autos e a do preço de entrar neles.

A história, de todo modo, não acabou com a contagem dos votos. A AIJE contra Janones, Lula e Alckmin segue em andamento, e o Plenário do TSE ainda pode julgar o mérito, inclusive o alcance das novas regras sobre canais. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

Sobre a autora

Ivilla Araújo é advogada especialista em Direito Eleitoral e Direito Público e mestranda em Direito Eleitoral e Político. É membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), vice-presidente da Comissão de Compliance Eleitoral e Partidário do Conselho Federal da OAB e secretária-geral adjunta do Observatório Nacional das Eleições 2026 do Conselho Federal da OAB. É comentarista do programa Boa Tarde Boa Tarde, da TV Lupa 01.

Fontes

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




Assine a Newsletter do Portal Lupa1

De segunda a sexta, um resumo dos fatos que importam, direto no seu e-mail e de forma gratuita.

Siga no WhatsApp Canal LUPA 1 | Portal e TV