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Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Presidente por meia hora

Depois de perder a eleição, Flávio foge do país, ressuscita o Brazil com Z e reescreve o resultado das urnas por conta própria, numa aventura internacional entre aeroportos, cartas e uma Presidência imaginária.

Por Willian Tito

29 de outubro de 2026 às 18:22 ▪ Atualizado em 29/10 às 18:22

Ver resumo
  • A derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições foi um ponto de aprendizado irônico, caracterizado por sua fuga e autoproclamação em Miami.
  • Após ser derrotado por Lula, Flávio tentou se declarar presidente do Brasil através de uma carta publicada nos EUA.
  • Ignorou o resultado oficial, proclamando-se vencedor de maneira fictícia, sem reconhecimento da Justiça Eleitoral.
  • A carta apresentava um brasão com a antiga grafia "Brazil", algo mais humorístico do que sério.
  • Sua iniciativa foi recebida com descrença, destacando a aptidão dos brasileiros para transformar crises políticas em comédia.
  • O episódio é um exemplo do extremismo e da distorção da realidade pós-eleitoral, com implicações sérias apesar do tom cômico.

O grande bônus das derrotas é a oportunidade de aprender sobre humildade. Outras ensinam geografia. A de Flávio Bolsonaro virou um curso intensivo de relações internacionais, aviação executiva, fuga cinematográfica e edição de documentos históricos.

O Brasil ainda comemorava o resultado das eleições quando o candidato derrotado resolveu inovar. Enquanto Lula recebia a confirmação de mais de 64 milhões de votos, Flávio descobria a modalidade inédita de democracia de almanaque e eleição por correspondência. É simples. Basta o sujeito perder nas urnas, escrever uma carta e se declara vencedor. Não precisa de urnas nem mesários. O problema é que a Justiça Eleitoral ainda não reconhece a modalidade. Uma verdadeira intolerância burocrática.

No domingo, 25, Lula venceu por uma diferença superior a 4,4 milhões de votos. Na terça-feira, 27, Flávio já exercitava uma habilidade que não constava em suas propostas de campanha. Travessia furtiva de fronteiras. Passou pela Argentina, fez conexão no Equador e desembarcou em Miami na tarde de ontem, quarta-feira, 28, acompanhado da família. Uma verdadeira excursão pela América Latina com destino ao sonho americano.

Convém registrar que havia ordem judicial para entrega de seus passaportes. O senador interpretou a determinação como incentivo para utilizá-los enquanto ainda estavam à mão.

Em terras americanas, aconteceu o milagre eleitoral. Flávio publicou uma carta apresentando-se como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. Não precisou de urna, diploma, solenidade ou faixa presidencial. Bastaram um computador, uma conexão com a internet e uma autoestima que desafia as leis da física. Assim nascia o primeiro presidente brasileiro eleito pelo editor de texto.

A cereja do bolo estava no brasão. O documento trazia a inscrição Estados Unidos do Brazil, com Z, ressuscitando denominação histórica aposentada havia décadas.

Para Todos Verem: Primeiro brasão da República brasileira, de 1889, sobre fundo branco. Uma estrela colorida envolve um círculo azul com estrelas brancas. Ramos de café e fumo ornamentam as laterais. Na base, a inscrição “Estados Unidos do Brazil."Logo apresentada como brasão nacional na carta de Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução

O candidato não conseguiu mudar o resultado da eleição, mas conseguiu mudar a grafia do país. Foi uma reforma ortográfica de emergência. Se o Brasil com S não o elegeu, talvez o Brazil com Z reconhecesse seus talentos. Uma solução que nem a Academia Brasileira de Letras imaginaria.

O Z, aliás, é bastante apropriado. Z de zanga, zigue-zague, zombaria e zero votos adicionais. E, principalmente, Z de zarpou. No Brasil com S, Lula ganhou a eleição. No Brazil com Z, Flávio ganhou uma carta. Cada um comemora o que consegue.

O novo mandatário teve um governo curtíssimo. Cerca de meia hora depois, a carta foi alterada. O presidente eleito por autoproclamação virou simplesmente "líder do Brasil". É a transição de governo mais rápida da história política. Não deu tempo de montar ministério, distribuir cargos, escolher o chefe da Casa Civil ou encomendar a fotografia oficial. Mal havia assumido a Presidência imaginária e já estava deixando o cargo de fantasia. Tudo sem intervenção militar. Bastou um revisor de texto e a pressão do Tio Sam.

O espetáculo merece aplausos da dramaturgia nacional. Flávio alegou fraude eleitoral. Não apresentou nenhuma prova. Apontou como suspeita a prorrogação da votação até as 19 horas, decisão que, curiosamente, atendeu a pedidos das duas campanhas. Apenas 34 mil votos foram computados durante o horário adicional. Com uma derrota superior a 4 milhões de votos, seria necessário convocar a matemática para uma sessão extraordinária de espiritismo. Pitágoras pediu licença. A calculadora apresentou atestado médico.

Para Todos Verem: Imagem satírica e realista de Flávio Bolsonaro colocando em si mesmo a faixa presidencial brasileira. Vestindo terno escuro, ele ajusta a faixa verde e amarela com expressão de autoconfiança. Ao fundo, a bandeira dos EUA e o capitólio.A imagem satiriza a autoproclamação de Flávio Bolsonaro como presidente do Brasil. Foto: Imagem criada com IA

Na carta, Flávio agradeceu a Javier Milei e Donald Trump pelo apoio recebido em sua saída do país. Trump, questionado sobre a autoproclamação, respondeu que não pretendia se envolver. Situação delicada. O anfitrião oferece a entrada no país, mas não entrega a chave do Palácio do Planalto. Uma coisa é conceder visto. Outra é reconhecer um presidente que chegou sem votos suficientes na bagagem.

Até Valdemar Costa Neto, presidente do PL, declarou que não gostou da carta. Se o partido recebe a novidade com cara de quem encontrou a conta do restaurante depois da sobremesa, é sinal de que alguma coisa saiu do cardápio.

Enquanto diplomatas analisam as consequências políticas, juristas examinam a gravidade das declarações e a imprensa internacional tenta compreender a novidade, o brasileiro faz o que sabe fazer com extraordinária competência. Transforma a tragédia política em comédia nacional.

Faz parte de nossa tecnologia de sobrevivência como povo. Há países que respondem às crises com pronunciamentos solenes. Nós respondemos com memes, apelidos, marchinhas e uma criatividade que deveria ser reconhecida como patrimônio imaterial da humanidade.

Faço uma leitura engraçada, mas o problema é sério. Desconhecer o resultado das urnas e proclamar uma vitória inexistente não é brincadeira institucional. O ridículo da situação é tão monumental que a própria realidade parece ter contratado um roteirista de humor. Não é piada pronta. É um show de humor de script impecável.

Enquanto Lula se prepara para exercer o quarto mandato, cercado pelo reconhecimento eleitoral e por sua projeção internacional, o adversário pretende liderar a oposição brasileira a partir dos Estados Unidos. É o trabalho remoto levado às últimas consequências. O gabinete fica no exterior, a oposição no Brasil e a Presidência na imaginação.

No fim, a história apresenta duas versões do mesmo país. O Brasil com S, onde milhões de cidadãos votaram, as urnas foram apuradas e o vencedor foi proclamado. E o Brazil com Z, onde um candidato pode se eleger sozinho, governar durante meia hora e encerrar o mandato com um simples comando de edição. Existe um pequeno problema na república alternativa. É possível trocar o S pelo Z, mudar de país, mudar de carta e até mudar de título, mas não se muda o resultado das urnas com passagem aérea.

No Brasil, presidente se elege com votos. No Brazil, basta pontos de milhagem.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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