Por Willian Tito
27 de outubro de 2026 às 09:32 ▪ Atualizado em 27/10 às 10:58
Quatro vitórias presidenciais, mais de 235 milhões de votos acumulados, recordes de popularidade e reconhecimento mundial fazem da trajetória de Lula um capítulo extraordinário da história brasileira.
Aos 81 anos, Luiz Inácio Lula da Silva acaba de produzir acontecimento inédito. A República brasileira não conhecia até domingo um presidente eleito pela quarta vez. Para não perder o costume de surpreender, voltou a superar o próprio recorde de votos.
Foram exatos 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos válidos. Vantagem de 4.430.191 votos sobre Flávio Bolsonaro.
O detalhe mais saboroso é que o presidente comemora seus 81 anos nesta terça-feira, 27 de outubro, exatamente 24 anos depois de sua primeira vitória presidencial, conquistada no dia de seu aniversário de 57 anos.
Vinte e quatro anos se passaram. O cabelo embranqueceu, a barba também. A voz continua rouca e a política brasileira segue descobrindo que aposentar Lula não é tarefa simples.
Aliás, ele acaba de estabelecer outro recorde. Tornou-se o presidente mais velho eleito pelo voto popular no Brasil e será também o mais idoso a tomar posse, em janeiro de 2027. Para completar, realizou a primeira virada presidencial entre os dois turnos desde a redemocratização, depois de terminar a votação inicial atrás do adversário.
A superstição não é ciência política, mas a eleição produziu coincidências suficientes para despertar a curiosidade dos numerólogos. Lula, candidato pelo número 13, venceu em 13 estados brasileiros e em 13 capitais. No Nordeste, conquistou 24.450.432 votos, com impressionantes 69,37% dos votos válidos. A diferença sobre o adversário foi de 13.653.696 votos. Uma vantagem superior a treze milhões, justamente na região em que nasceu.
Lula é um nome que carrega sinais de predestinação. Foto: Ricardo StuckertO Piauí liderou a votação proporcional do presidente, com 75,88%. A Bahia veio com 71,31%. E Lula terminou à frente nos nove estados nordestinos. No conjunto do Brasil, venceu em 2.875 municípios. São Paulo, Rio de Janeiro (terra natal do adversário) e Porto Alegre também deram maioria a Lula, mesmo pertencendo a estados vencidos pelo adversário.
A eleição deixou uma curiosidade aos colecionadores de coincidências. O 13 ganhou 13 estados, 13 capitais e uma vantagem nordestina de 13,65 milhões de votos. Nem o mais entusiasmado dos numerólogos teria coragem de encomendar tamanho capricho às urnas.
Uma das maiores novidades de 2026 veio de quem viveu muitas eleições. O Brasil chegou ao pleito com aproximadamente 37,5 milhões de eleitores de 60 anos ou mais. Os maiores de 70 anos, para quem o voto é facultativo, protagonizaram uma mobilização extraordinária.
No primeiro turno, 8,77 milhões de pessoas com 70 anos ou mais compareceram às urnas, um crescimento de 43% em relação a 2022. Foram 2,64 milhões de votantes adicionais nessa faixa etária. Pela primeira vez na série acompanhada desde 2014, mais da metade dos eleitores desse grupo participou da votação inicial.
A abstenção caiu de 58,8% para 49,1%. Até os centenários entraram na história. O cadastro eleitoral de 2026 registrava 298.239 pessoas com 100 anos ou mais. Dessas, 2.141 compareceram ao primeiro turno, segundo dados divulgados pela Rádio Senado.
É preciso distinguir participação de preferência eleitoral. O voto é secreto, e não existe contagem oficial dos votos de Lula por idade. Mas as pesquisas já indicavam seu desempenho mais forte entre os idosos. Em setembro, o Datafolha registrou 46% de intenção de voto para Lula entre os maiores de 70 anos, contra 35% para Flávio Bolsonaro. Na pesquisa de 2 de outubro, entre os eleitores de 60 anos ou mais, a vantagem era de 49% a 36%.
O efeito Lula trouxe duas novidades simultâneas. Mais pessoas idosas participaram do processo eleitoral e as pesquisas apontaram maior preferência por Lula no segmento. O etarismo, que costuma tratar a experiência como defeito de fabricação, encontrou uma geração pouco disposta a aceitar a aposentadoria da própria cidadania.
O adversário de Lula ainda ofereceu uma demonstração infeliz de outro preconceito. No debate da TV Globo, Flávio Bolsonaro chamou Lula de “nove dedos”, numa referência depreciativa à amputação sofrida pelo ex-metalúrgico num acidente de trabalho. Pediu desculpas depois, mas a expressão repercutiu como manifestação capacitista.
A ironia é enorme. O homem que perdeu um dedo trabalhando numa fábrica chegou quatro vezes à Presidência. E uma lesão que faz parte de sua história acabou sendo transformada em argumento de debate por quem pretendia derrotá-lo. Uma lição conveniente aos que confundem juventude com superioridade e deficiência física com incapacidade.
A trajetória eleitoral de Lula permite uma conta impressionante. Em 2002, recebeu 52.793.364 votos. Em 2006, foram 58.295.042. Em 2022, outros 60.345.999. Agora, em 2026, chegou aos 64.256.232. Somadas as quatro eleições vitoriosas, são 235.690.637 votos. Não representam pessoas diferentes, naturalmente, mas o volume acumulado de apoio eleitoral ao longo de mais de duas décadas.
Aos 81 anos, Lula demonstra força física e mental para desenvolver seu último mandato com total autonomia. Foto: Ricardo StuckertO homem que perdeu três disputas consecutivas, em 1989, 1994 e 1998, conseguiu eleger-se quatro vezes. Entre a primeira candidatura presidencial e a última vitória, decorreram 37 anos. Sua trajetória atravessou a ditadura, a redemocratização, a consolidação do voto eletrônico, a internet e a revolução das redes sociais. É uma permanência rara mesmo entre personagens históricos da política mundial.
As urnas são apenas parte da coleção. Lula já recebeu 43 títulos de doutor honoris causa, concedidos por instituições brasileiras e estrangeiras. É apontado como o brasileiro que mais recebeu a distinção acadêmica. O mais recente diploma foi entregue pela Universidade Federal de São João del-Rei (MG), em junho de 2026.
Entre as instituições que já o homenagearam estão as universidades de Coimbra, Salamanca, Sciences Po de Paris, Lausanne e a Universidade Pedagógica de Maputo, em Moçambique. Ironia que a vida escreve com especial talento. O menino pobre que não pôde frequentar uma universidade tornou-se objeto de homenagens acadêmicas em diversos países.
A lista de prêmios internacionais atravessa continentes. Em 2003, recebeu o Prêmio Príncipe de Astúrias de Cooperação Internacional, na Espanha. Em 2008, foi distinguido com o Prêmio Félix Houphouët-Boigny pela Busca da Paz, da UNESCO, entregue em 2009. No mesmo ano, recebeu o Prêmio Chatham House, concedido por uma das instituições britânicas mais conhecidas na área de relações internacionais.
Em 2010, foi homenageado pelo Fórum Econômico Mundial com o prêmio de Estadista Global. Em 2011, dividiu com o ex-presidente de Gana John Kufuor o World Food Prize, reconhecimento internacional por iniciativas de combate à fome. Em 2024, a Fundação Gates concedeu-lhe o Global Goalkeeper Award, destacando especialmente sua atuação em políticas contra a pobreza e a desnutrição infantil.
O prestígio internacional produziu momentos que ultrapassaram os protocolos diplomáticos. Em 2009, durante reunião do G20 em Londres, Barack Obama apontou para Lula e declarou que ele era o político mais popular do planeta. E acrescentou, com entusiasmo, que adorava aquele homem.
Em 2010, a revista Time incluiu Lula entre as cem personalidades mais influentes do mundo. Jornais como Le Monde também o destacaram entre as figuras internacionais daquele período. Os reconhecimentos ajudam a explicar a projeção alcançada pelo antigo líder sindical do ABC paulista.
Em seus governos, o Brasil conquistou maior presença diplomática e colocou o enfrentamento da fome entre as prioridades internacionais. O Bolsa Família, a expansão do acesso à educação e outras políticas públicas passaram a integrar debates mundiais sobre desenvolvimento e redução das desigualdades.
O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014 e voltou a alcançar a condição em 2025, após ter retornado à classificação no intervalo entre os dois marcos. A biografia de Lula ultrapassa troféus, títulos e recordes. Quem conheceu a fome, a chegada de comida à mesa tem um significado que nenhuma solenidade consegue reproduzir. Quem nunca imaginou cursar uma universidade, um diploma pode representar a mudança de destino de uma família inteira. Quem passou décadas trabalhando, envelhecer com dignidade significa não perder o direito de escolher os rumos do próprio país.
Lula chega aos 81 anos carregando uma das mais longas trajetórias da política democrática brasileira. Acumulou vitórias, derrotas, crises, reconhecimento, adversários e profundas controvérsias. Sua nova vitória não elimina divergências sobre seus governos, nem encerra os desafios do Brasil. Mas acrescenta fatos incontornáveis à sua biografia. Quatro eleições presidenciais vencidas. O maior número nominal de votos numa disputa pela Presidência. Uma virada inédita no segundo turno. Quarenta e três doutorados honorários recebidos. Prêmios internacionais e reconhecimento de dirigentes mundiais.
Lula celebra a vitória para o quarto mandato com aliados. Foto: Ricardo StuckertO retirante pernambucano, o torneiro mecânico, o sindicalista e o presidente pertencem à mesma história. Aí está a característica mais extraordinária de sua longevidade política. Aos 81 anos, depois de tantas transformações no país e no mundo, Lula continua protagonista do presente.
Os anos passaram. Os recordes aumentaram. A história ganhou novos capítulos. Há quem chegue à velhice contando lembranças. Lula chega aos 81 acrescentando acontecimentos à memória do Brasil e abrindo uma nova página em branco na galeria dos presidentes de uma nação democrática e soberana.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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