Por Willian Tito
02 de setembro de 2026 às 12:27 ▪ Atualizado em 02/09 às 12:35
O horário eleitoral gratuito já foi quase uma repartição pública da política. Engessado, solene, previsível e, muitas vezes, improvisado. Candidato diante da câmera, voz de locutor, música marcial, currículo, promessa de transformar dois minutos em meia hora.
No Piauí, mudou muito. A propaganda foi aprendendo televisão. Descobriu edição, roteiro, fotografia, dramaturgia e, em determinado momento, até o humor. Houve campanha em Teresina em que a política resolveu rir de si mesma. Ou, mais precisamente, do adversário.
Uma das lembranças saborosas vem da histórica eleição de 1996 entre o veterano Alberto Silva e o então novato Firmino Filho. Alberto, inventor de vocação e engenheiro de imaginação quase ilimitada, propunha instalar ar-condicionado em paradas de ônibus. A proposta entrou no repertório do deboche eleitoral. Firmino venceu aquela eleição.
Recordo Dirceu Andrade fazendo graça com a ideia. Deitado numa rede dentro de uma parada refrigerada, deixava os ônibus passarem porque estava muito bom aproveitar o friozinho, ridicularizando o adversário. Havia uma sugestão de etarismo. Quando não o preconceito com pessoas neurodivergentes.
A política tem suas ironias. Muitas vezes, nem o melhor redator conseguiria escrever. Anos depois, Firmino Filho, já no quarto mandato, implantou em Teresina um sistema de integração que incluía estações climatizadas. Em 2017, estavam previstas 55 estações nos principais corredores da cidade, todas com ar-condicionado. A piada havia envelhecido. A ideia, não.
Depois, com a derrota do grupo que administrava Teresina, o sistema foi solenemente esquecido em meio a passagem de veículos e pedestres. Foi se deteriorando e parte importante do projeto perdeu funcionalidade. A cidade ficou com uma daquelas lições que a política oferece sem cobrar matrícula. Às vezes, o que parece absurdo hoje apenas chegou cedo demais.
Mas voltemos a 2026. O horário eleitoral começou no Piauí em 28 de agosto e basta assistir a algumas sequências para perceber que a tecnologia avançou muito mais do que a linguagem. Especialmente nas candidaturas proporcionais.
Por menor que seja o tempo, ainda assim pode impulsionar a candidatura. Imagem criada com IA Trocam-se os rostos., os nomes, os números. Algumas vozes parecem timbres extraordinariamente capazes de desafiar qualquer professor de dicção. O programa continua quase o mesmo. É candidato andando, abraçando, apontando, ouvindo alguém com expressão grave, sorrindo para uma criança. Candidato em feira. Candidato dizendo que conhece o Piauí. Se aparecer uma estrada de barro e alguém apertando uma mão, já temos praticamente um gênero cinematográfico.
Há exceções, evidentemente. Algumas boas soluções aparecem. Mas, no conjunto, a propaganda proporcional ainda parece produzida por uma gigantesca fábrica que entrega o mesmo produto e permite apenas mudar fotografia, nome, número e trilha sonora. Uma evidente linha de montagem.
É curioso porque nunca houve tantos recursos técnicos disponíveis para fazer diferente. Hoje se filma bem com equipamentos pequenos. A edição ficou extraordinária. Há animação, efeitos, inteligência artificial, recursos gráficos, bancos de imagem, drones e uma infinidade de possibilidades narrativas. Mas falta, muitas vezes, a coisa mais barata de todas. Uma ideia. Uma boa ideia.
Na disputa ao Senado, a diferença fica ainda mais evidente. Quando há recurso financeiro, estrutura política e compreensão da importância do marketing, aparecem programas tecnicamente excelentes. Fotografia apurada, narrativa, ritmo, texto, música, identidade visual. Não é apenas propaganda política. É produto audiovisual de qualidade indiscutível. No outro extremo, candidaturas com estrutura mínima precisam disputar atenção praticamente no grito.
Então começa o vale-tudo da criatividade. Surge o estranho. O improvável. O exagerado. O involuntariamente engraçado. Em outros tempos, uma propaganda ruim desaparecia depois da exibição. Hoje ela ganha uma segunda vida. Alguém grava a tela, recorta quinze segundos e joga nas redes. Pronto. Nasce um meme.
Talvez o candidato não consiga quinze segundos de atenção falando seriamente sobre educação, saúde ou desenvolvimento econômico. Mas, fazendo alguma extravagância, consegue milhares de visualizações. Atenção, ele conquista. Resta descobrir se atenção vira voto.
Um dos grandes paradigmas da propaganda eleitoral contemporânea. Vamos analisar. O eleitor pode conhecer o candidato sem levá-lo a sério. Pode decorar o número sem cogitar votar nele. Pode compartilhar o vídeo apenas por achar engraçado. Pode transformá-lo no personagem mais conhecido da campanha e, no domingo da eleição, votar tranquilamente em outro. Viralizar não é convencer. Parece óbvio, mas é super importante compreender a diferença.
Outra desigualdade não pode ser ignorada. O próprio tempo de televisão varia brutalmente conforme a força partidária. No Piauí, os maiores grupos chegaram à campanha de 2026 com minutos para construir narrativa.Outros receberam segundos. Para o Senado, os maiores blocos ficaram próximos de três minutos, enquanto das coligações teve apenas treze segundos. Treze segundinhos. Mal dá para respirar politicamente. Mas pode render voto. Lembra do Eneas?
Seria injusto comparar produções como se todos partissem da mesma linha. Quem dispõe de dinheiro, equipe, tempo e estrutura pode construir cinema. Quem dispõe de segundos tenta construir memória. Às vezes constrói um meme. E não é pouca coisa.
O horário eleitoral gratuito mudou extraordinariamente desde os programas engessados de décadas atrás. Ficou mais bonito. Mais rápido. Profissional. Caro. Mais engraçado. E, paradoxalmente, talvez esteja cada vez mais difícil responder à pergunta essencial. Garante voto?
Ainda temos algumas semanas para observar. Vamos lançar o olhar sobre os programas dos candidatos ao Governo do Piauí. Depois, os presidenciais. E finalmente vamos mergulhar nas redes sociais. Aí a conversa muda de tamanho. E o intervalo comercial também.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
De segunda a sexta, um resumo dos fatos que importam, direto no seu e-mail e de forma gratuita.
GRUPO CRIMINOSO
INVESTIGAÇÃO
PERIGOSO
Centro Norte
Bloqueio e multa
Investigação
Nomeada
Capacetes
Multivacinação
Investigação
DINHEIRO EM ESPÉCIE
Coluna Lugar de Fala
OPERAÇÃO DE CRÉDITO
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
CRIMES VIOLENTOS
Os bastidores do poder no Piauí e no Brasil. A notícia sem rodeios. Lupa1 é jornalismo imparcial com conteúdo exclusivo e diário.
Termos de uso Política de Privacidade Princípios Editoriais
© 2026 Portal Lupa1. Todos os direitos reservados.