Por Willian Tito
06 de setembro de 2026 às 13:21 ▪ Atualizado em 06/09 às 13:43
Ponha os olhos em Esperança. A jovem negra escravizada fez do papel instrumento de defesa. O Piauí já reconheceu sua grandeza. Agora precisa transformar 6 de setembro em celebração à altura de Esperança Garcia.
Em determinada manhã de 1770, talvez sem imaginar a extensão do próprio gesto, uma jovem negra escravizada escreveu uma das páginas mais extraordinárias de nossa história. Ninguém sabe como era seu rosto. Jamais saberemos como era o som de sua voz. Sabemos algo mais raro. Conhecemos suas palavras.
Esperança Garcia escreveu em 6 de setembro de 1770 ao governador da Capitania de São José do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, que assumira o governo em 3 de agosto de 1769. Identificou-se, contou que o capitão Antônio Vieira do Couto a retirara da Fazenda Algodões, onde vivia com o marido, para fazê-la cozinheira em sua casa, denunciou espancamentos contra ela e um filho, falou das outras mulheres submetidas àquela administração e reclamou que crianças continuavam sem batismo. No meio da narrativa, deixou uma definição aterradora de sua condição. Era um “colchão de pancadas”. No fim, pediu que a autoridade a visse, “ponha os olhos em mim”.
Ela deveria ter cerca de 19 anos. Não existe registro de nascimento que permita cravar a idade, mas a relação dos escravizados da Fazenda Algodões, datada de 8 de setembro de 1778, registra “Esperança crioula”, com 27 anos, casada com Ignácio Angola, de 57. Se for a mesma Esperança, e as evidências tornam a hipótese historicamente mais aceita, nasceu por volta de 1751. O documento é ainda mais comovente porque sugere que, oito anos depois da carta, ela estava novamente em Algodões, junto do marido. A petição talvez tenha produzido resultado. A história, sempre prudente, não nos permite afirmar quanto.
Antes disso, ocorreu mudança brutal na vida daquelas fazendas, que pertenceram à Companhia de Jesus, integrando o patrimônio pecuário legado aos jesuítas por Domingos Afonso Mafrense. Em 3 de setembro de 1759, D. José I determinou a expulsão da Companhia de Jesus dos domínios portugueses.
No Piauí, em 10 de março de 1760, o governador João Pereira Caldas cumpriu as ordens da Coroa. Confiscou bens, prendeu religiosos e os enviou à Bahia. Esperança teria então cerca de nove anos. As antigas propriedades jesuíticas passaram ao Fisco Real e novos administradores assumiram o controle.
Uma das perguntas mais fascinantes da biografia é “quem ensinou Esperança a escrever?” A hipótese consagrada por parte importante da pesquisa é de que tenha aprendido com os padres jesuítas ou com pessoas ligadas à estrutura religiosa das fazendas. Possibilidade fortíssima, sobretudo porque a escrita era privilégio extraordinário no Brasil do século XVIII. Mas não convém transformar hipótese em certidão.
A professora Maria Sueli Rodrigues de Sousa, que estudou profundamente Esperança, ponderava que ela poderia ter aprendido por outros meios. Saber exatamente com quem permanece mistério. Saber que aprendeu é um acontecimento.
Os jesuítas, evidentemente, não podem ser convertidos em abolicionistas retrospectivos. As fazendas que administravam também utilizavam trabalho escravizado. A expulsão destruiu relações anteriores de convivência, catequese, organização religiosa e proteção de certos costumes. No lugar dos religiosos entrou administração diretamente subordinada à Coroa e comandada por homens cujas práticas aparecem repetidamente nos documentos como fonte de conflitos.
Poucos anos depois, Esperança estava afastada do marido, submetida a Antônio Vieira do Couto e escrevendo para não ser esmagada em silêncio. Esperança não escreveu apenas uma carta comovente. Ela peticionou. Sabia a quem dirigir o pedido. Relatou os fatos. Indicou o responsável. Expôs violações. Invocou valores reconhecidos pela própria ordem colonial, inclusive o casamento, a confissão e o batismo. Pediu uma providência concreta. Não reivindicava o que o século XVIII jamais lhe concederia. Usou as brechas do próprio sistema para enfrentar o abuso.
A percepção foi decisiva no trabalho da professora, advogada e pesquisadora piauiense Maria Sueli Rodrigues de Sousa, nascida em 15 de junho de 1964, na comunidade Saco da Ema, em Francinópolis. Mulher negra, filha do sertão, começou a trabalhar ainda criança, tornou-se professora, cientista social, advogada, doutora em Direito pela Universidade de Brasília e docente da Universidade Federal do Piauí. Presidindo a Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB-PI, entre 2016 e 2018, conduziu, ao lado do historiador Mairton Celestino da Silva e de outros pesquisadores, o trabalho que resultou no “Dossiê Esperança Garcia: símbolo de resistência na luta pelo direito.” Foi ciência, pesquisa histórica e interpretação jurídica. Não uma homenagem feita por entusiasmo.
Na noite de 5 de setembro de 2017, a OAB do Piauí concedeu a Esperança o título simbólico de primeira advogada piauiense. Cinco anos depois, em 25 de novembro de 2022, o Conselho Pleno da OAB Nacional foi além e a reconheceu como primeira advogada brasileira. Maria Sueli não viu a última vitória. Morreu em 26 de julho de 2022, aos 58 anos, quatro meses antes da decisão nacional. É justo ilustrar seu nome. Maria Sueli ajudou a devolver Esperança ao Brasil.
Antes dela, alguém retirou aquela voz de dentro do arquivo. O historiador e antropólogo Luiz Mott encontrou a carta em 1979, no Arquivo Público do Piauí. Mott completou 80 anos em 6 de maio deste 2026. Professor titular aposentado da Universidade Federal da Bahia, estudioso da escravidão, da Inquisição, das relações raciais e dos direitos humanos, teve diante dos olhos uma folha que passara mais de dois séculos esperando para ser novamente lida. Teve também a inteligência iluminada para perceber o que havia encontrado. Assim como fez com muitos outras pessoas que encontrou pesquisando incansavelmente em arquivos.
Esperança escreveu. Luiz Mott encontrou. Maria Sueli, Mairton Celestino e outros pesquisadores aprofundaram. O movimento negro piauiense pressionou. A OAB reconheceu.
Descrição da imagem criada com IA: representação artística de Esperança Garcia, jovem mulher negra, em primeiro plano e ao centro, usando turbante e vestes de época. Ela segura junto ao peito uma folha de papel envelhecida e olha para o horizonte com expressão firme. Ao fundo, sob a luz dourada do entardecer, aparecem construções coloniais, uma igreja de duas torres, palmeiras e relevo rochoso, compondo uma paisagem histórica inspirada no Piauí do período colonial. A arte começou a lhe devolver um corpo imaginado. O escultor piauiense Braga Tepi criou os bustos de Esperança instalados na OAB-PI, em 7 de março de 2023, e no Conselho Federal da OAB, em Brasília, em 22 de maio daquele ano. Em 23 de janeiro de 2024, Oeiras ganhou a primeira estátua dedicada a ela no país: 1,60 metro, 28 quilos, inox 304, obra de Braga com pesquisa de fisionomia apoiada pelo artista Olavo Brás. Como não há qualquer retrato conhecido de Esperança, o artista precisou criar um rosto possível. São traços de uma mulher negra piauiense para representar aquela que a documentação colonial não se preocupou em retratar.
O cinema também foi buscá-la. Douglas Machado dirigiu o documentário A Carta de Esperança Garcia, com a presença monumental de Zezé Motta, fazendo a história de uma mulher do século XVIII conversar com mulheres negras do presente. Nos quadrinhos, João P. Luiz, no roteiro, e Bernardo Aurélio, na arte e edição, criaram A Voz de Esperança Garcia. Em 2023, o Salão do Livro do Piauí colocou Esperança no centro de sua programação. Ela saiu, enfim, do documento para o cinema, a escultura, a literatura, a escola e o imaginário.
O calendário começou a corrigir a história. A Lei estadual nº 5.046, de 7 de janeiro de 1999, instituiu o 6 de setembro como Dia Estadual da Consciência Negra no Piauí, resultado de uma longa reivindicação do movimento negro. Desde a Lei nº 7.789, de 10 de maio de 2022, a mesma data é também o Dia Estadual da Mulher Advogada. Poucos estados brasileiros têm efeméride com tamanho conteúdo histórico e simbólico.
É hora de dizer que 6 de setembro ainda é pequeno demais para Esperança Garcia. A data merece entrar definitivamente na vida do Piauí. Não apenas com sessão solene, discurso oficial e postagem protocolar que desaparece no dia seguinte.
Poderia ter anualmente o Prêmio Esperança Garcia, entregue todo 6 de setembro, reconhecendo trabalhos em direitos humanos, igualdade racial, pesquisa, jornalismo, literatura e educação. Escolas poderiam produzir cartas contemporâneas inspiradas na primeira petição. Poderia haver concurso de redação, mostra de cinema, teatro, música, artes visuais, feira de livros, visitas aos lugares ligados à sua história, cortejo em Oeiras e Nazaré do Piauí, celebrações em Teresina.
Festa também é memória. E memória que não ganha rua corre sempre o risco de voltar ao arquivo. Esperança não precisa de cerimônia triste. Sua história atravessou violência demais para que sua homenagem seja apenas luto. Cabe música, livro, palco, cinema, universidade, criança escrevendo, gente na praça. Cabe o Piauí reconhecendo em praça pública que uma das personagens mais impressionantes da história brasileira nasceu e escreveu daqui.
A grandeza de Esperança não está em termos decidido, 256 anos depois, que ela era heroína. Está no fato de que ela sabia que era gente quando o mundo ao redor insistia em tratá-la como coisa. A escravidão tentou transformá-la em patrimônio. Ela respondeu com autoria. Separou sua família, ela respondeu com argumento poderoso dos brancos. Tentou fazer de seu corpo um “colchão de pancadas”, ela escreveu.
Era apenas uma folha endereçada ao governador Gonçalo Lourenço Botelho de Castro. Mas conseguiu chegar muito mais longe do que qualquer autoridade daquele tempo poderia imaginar. Chegou a nós.
Neste domingo, 6 de setembro, o pedido feito em 1770 continua perfeitamente compreensível. Ponha os olhos em mim. O Piauí já começou a olhar. Agora é hora de fazer da data uma de suas grandes celebrações, ilustrando a importância de uma jovem com papel e caneta na mão para não apenas defender a sua vida. Esperança eternizou um ato de coragem na história.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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