Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Afeto movimenta 26,4 bilhões de reais

No tempo de relações rápidas e definições provisórias, o amor segue resistindo como uma das mais antigas experiências humanas e faz do 12 de junho um ponto de convergência.

Por Willian Tito

12 de junho de 2026 às 14:33 ▪ Atualizado há 1 hora


A história foi engenhosa quanto ao Dia dos Namorados. Diferentemente do que muitos imaginam, a celebração não nasceu de tradição religiosa secular nem de algum episódio histórico marcante. Vem de uma campanha publicitária criada em 1949 por João Doria, pai do ex-governador paulista, para movimentar o comércio num período de vendas consideradas modestas. O plano deu tão certo que escapou das vitrines e ganhou vida própria.

Começou como estratégia mercadológica e acabou sendo adotado pelo imaginário popular, atravessando gerações até se tornar uma das datas mais queridas do país. Lição interessante que prova que algumas tradições não nascem prontas. São construídas lentamente pelo afeto das pessoas.

A escolha do dia 12 de junho também não aconteceu por acaso. A data antecede a celebração de Santo Antônio, o mais famoso dos santos casamenteiros. Durante décadas, milhares de brasileiros recorreram a simpatias, promessas, fitas, novenas e pequenos rituais em busca de auxílio para os assuntos do coração. Até botar o santo de cabeça para baixo. Algumas com o requinte da crueldade mergulhado num copo d’água. Depende do desespero.

Em tempos de aplicativos de relacionamento, inteligência artificial e algoritmos capazes de sugerir amizades, amores e afinidades, Santo Antônio ganhou concorrentes improváveis. O santo português missionário divide espaço com plataformas digitais que prometem encontrar a combinação perfeita. Não há estatística confiável que determine quem tem apresentado os melhores resultados. O fato é que ambos seguem em atividade.

Enquanto os corações aceleram, a economia também acompanha o ritmo. O Dia dos Namorados deste ano deve movimentar 26,4 bilhões de reais por 100 milhões de consumidores de bens e serviços, segundo levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do Serviço de Proteção ao Crédito.

Restaurantes ampliam reservas, floriculturas estendem horários de funcionamento, hotéis e pousadas registram aumento na procura, perfumarias reforçam estoques e entregadores percorrem quilômetros adicionais transportando flores, chocolates e expectativas. Existe uma engrenagem econômica funcionando por trás da poesia. Poucos sentimentos produzem tanta circulação de riqueza quanto a esperança de agradar alguém especial.

O amor já teve outro ritmo. Nossos avós conheceram um tempo em que os relacionamentos eram construídos com lentidão. Havia cartas escritas à mão, bilhetes dobrados cuidadosamente, serenatas desafinadas, conversas na calçada e longos períodos de espera. A ansiedade viajava na velocidade dos Correios. Hoje uma mensagem cruza continentes em segundos. Uma fotografia chega instantaneamente. Uma chamada de vídeo elimina distâncias que antes pareciam intransponíveis. Nunca foi tão fácil entrar na vida de alguém. Curiosamente, nunca pareceu tão difícil permanecer nela.

Os relacionamentos contemporâneos estão passando por uma profunda transformação. Antigamente, as definições eram relativamente simples. Namoro, noivado, casamento. Hoje existe um vocabulário inteiro para explicar vínculos que ocupam territórios intermediários. Há quem esteja conhecendo alguém, ficando, conversando, construindo algo, fortalecendo a amizade, vendo no que dá ou simplesmente deixando acontecer. As pessoas continuam procurando amor, apenas mudaram a embalagem.

Uma revolução silenciosa acontece longe dos casais. Cada vez mais pessoas descobriram que felicidade não depende necessariamente de relacionamento amoroso. A solitude deixou de ser vista como fracasso ou ausência. Tornou-se uma escolha legítima. Há quem encontre plenitude na própria companhia, viaje sozinho, frequente restaurantes sozinho, construa projetos individuais e desfrute de uma existência plena sem a necessidade de um par romântico. A sociedade ensinava que a felicidade precisava ser compartilhada. Hoje muitas pessoas descobriram que ela também pode ser cultivada internamente.

Eu e minha enamorada já caminhamos para cinco anos juntos. Não é pouco. Já ultrapassamos a fase das apresentações institucionais, aquela etapa em que cada um exibe sua melhor versão e procura esconder cuidadosamente as áreas que considera menos nobres. Conhecemos bem um ao outro. Conhecemos as qualidades, as virtudes, os talentos e as generosidades. Mas conhecemos também os defeitos, as teimosias, os limites e as imperfeições. Como qualquer casal. Como qualquer ser humano.

A maior diferença entre a paixão e o amor maduro. A paixão costuma admirar aquilo que existe de mais bonito. O amor, por sua vez, aprende a conviver também com aquilo que existe de menos admirável. É quando a relação deixa de ser encantamento e passa a ser escolha. Escolha consciente. Diária. Integral. Não apenas das qualidades, mas do conjunto completo da obra. No território da vida real, longe dos filtros e das fotografias cuidadosamente editadas, as pessoas crescem, evoluem, amadurecem e se tornam melhores.

Os tempos mudaram. Assumir namoro hoje se aproxima de uma união estável. Aproxima-se até de um casamento. Existe compromisso, responsabilidade, construção conjunta e projeto de futuro. Ao mesmo tempo, surgiram novas formas de convivência, novos acordos e novas nomenclaturas. As pessoas permanecem mais tempo namorando. Experimentam formatos mais suaves. Menos rígidos. Menos protocolares. Talvez porque tenham compreendido que afeto não se mede apenas pela formalidade dos títulos, mas pela qualidade da presença.

Apesar das mudanças de comportamento, das transformações tecnológicas e das novas maneiras de se relacionar, a necessidade humana permanece intacta em busca de afeto, acolhimento e pertencimento. De alguém que celebre nossas alegrias e suporte conosco os dias difíceis. Ou, para aqueles que escolheram a solitude, a capacidade de encontrar paz e sentido na própria companhia.

A verdadeira razão pela qual o Dia dos Namorados sobrevive há tanto tempo não é por causa das flores nem dos chocolates. Menos ainda dos jantares à luz de velas. A data permanece porque fala de algo profundamente humano, que atravessa gerações, modismos e tecnologias. O mundo já tem conflitos suficientes. “Faça amor, não faça a guerra.”

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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