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Expocorrente: Um Extrato a parte do Piauí. Um espelho dourado em que o povo não se vê nele

Trata-se de um evento que não representa o agro popular, tampouco o trabalhador rural típico do Piauí, que sobrevive à base de programas sociais.

Por Tony Trindade

18 de julho de 2025 às 20:07 ▪ Atualizado há 2 meses


Uma opinião LUPA1


No extremo sul do Piauí, distante física, social e simbolicamente de mais de 90% da população do estado, realiza-se a Expocorrente, um evento vistoso, robusto, bem estruturado e, não raro, celebrado como vitrine do “agro que dá certo”.

Mas é preciso perguntar: dá certo para quem?

É inegável que a feira exibe uma potência econômica real. Grandes maquinários, cifras milionárias, leilões, genética bovina refinada, negociações de alto nível. Um extrato de riqueza legítima, mas que se estrutura à parte do Piauí real, que continua majoritariamente pobre, informal, sub-remunerado e apartado das promessas do agronegócio.

 

Expocorrente 2025, no sul do Piauí


A Expocorrente e similares não dialogam com o pequeno produtor da caatinga, com o vaqueiro do Médio Parnaíba, com o sertanejo de Pio IX, com o pescador de Luzilândia ou com o lavrador de Valença. Tampouco com a juventude desempregada de Teresina ou com os professores municipais que lutam por salários dignos. Ela é um enclave. Uma bolha de capital privado no deserto do subdesenvolvimento regional.

 

Bovinos expostos na Expocorrente 2025


Trata-se de um evento que não representa o agro popular, tampouco o trabalhador rural típico do Piauí, que sobrevive à base de programas de fomento ou verbas sociais de governos; ou se exaure em lavouras precárias, muitas vezes sem assistência técnica, sem crédito agrícola e à margem da tecnologia.

Ao contrário, a EXPOCORRENTE revela um segmento blindado, quase aristocrático, que produz, negocia e lucra com a terra, mas pouco ou nada devolve à terra em termos de retorno social.

O evento, por si, não é o problema. Muito ao contrário, chama a atenção por todos os números e valores. O que inquieta é o descompasso entre o que se celebra ali e o que vive o restante do estado, fora da festa e da pompa. O Piauí, como símbolo de um povo, como território de uma gente do bem, não está na EXPOCORRENTE. Está nas filas do SUS, nas escolas sem professores e ar-condicionado, nas cidades sem esgoto, nos trabalhadores que carregam o peso da terra sem jamais colherem os frutos do progresso que a tantos outros servem.

Mais grave ainda é que o discurso do “agro que sustenta o Brasil” tem servido para naturalizar a desigualdade, como se o sucesso de poucos bastasse como justificativa para o abandono de muitos. Por isto, não basta aplaudir a produtividade de um setor se ela não se transforma em vida digna para a maioria. É preciso avançar, sempre, e cada vez mais, em busca da erradicação da miséria no Piauí.
É hora de encarar essa realidade sem disfarces: a EXPOCORRENTE é o retrato de um Piauí que dá certo só para alguns — e que pode estar, na verdade, descolando-se ainda mais do restante do estado.
O futuro do Piauí não pode ser escrito apenas por quem arremata bois de elite em leilões milionários. Ele precisa incluir quem planta feijão em terra seca e sonha com uma cisterna. Caso contrário, a EXPOCORRENTE seguirá sendo o que tem sido: um espelho dourado em que o povo não se vê nele.




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