Por Tony Trindade
20 de julho de 2025 às 14:27 ▪ Atualizado há 2 meses
Em tempo de instabilidade recorrente, repetir o óbvio talvez seja um gesto necessário. O Brasil atravessa mais uma de suas fases conturbadas, marcadas pela insatisfação difusa, pela perplexidade coletiva e por um mal-estar que se espalha por todas as idades.
Os jovens, à falta de emprego e de perspectiva, veem o futuro como uma incógnita perversa. Os mais velhos, por sua vez, se apegam às lembranças de épocas em que o País parecia respirar mais sadio, ainda que por brevíssimos intervalos de otimismo.
Excluídos os raros momentos de estabilidade econômica, como o impulso desenvolvimentista dos anos JK, os primeiros anos do Plano Real ou o otimismo tecnológico do _milagre econômico_, a história brasileira recente parece construída sobre alicerces frágeis, em que as reformas profundas sempre ficaram pela metade. Antes de corrigido o erro de ontem, já existe a desculpa pronta para a falha de amanhã… Seria tudo intencional?

Assim, o drama brasileiro é, em grande parte, obra de suas próprias escolhas. Más escolhas, diga-se, diretamente. Nosso atraso é bem menos uma imposição externa e muito mais o resultado de decisões internas mal costuradas ou desconectadas, de estruturas políticas que emperram mais que empurram; e de uma cultura institucional que mais resiste que resolve nossos problemas. Aqui, tudo pode, tudo tem seu preço e custo, mas nem sempre é possível avaliar o real valor das coisas que realmente importam.
O trabalhador brasileiro é, em verdade, produtivo e adaptável, mesmo com as mazelas crônicas de nossa educação, deficiente e medonha. Nossos técnicos, engenheiros e gestores competem no mais alto nível global. Mas, ainda que enfrentemos abismos sociais na saúde, na informação e na escolarização, não são esses os entraves fundamentais ao nosso desenvolvimento. O grande gargalo brasileiro é, forçosamente, de caráter político. E alguns ainda ousam dizer que a falta de caráter de alguns políticos é o último gargalo a ser vencido. Será isto mesmo?
Até o corrupto brasileiro é um improvisador, e consegue a proeza de se livrar do peso e do ônus da culpa, mesmo assim. O regime presidencialista, combinado com o voto proporcional puro, forma um quadro institucional que favorece a fragmentação e a irresponsabilidade coletiva. Ao que parece, tudo é idealizado para dar errado ou soar incerto.
Importamos modelos estrangeiros sem adaptá-los ao nosso contexto: copiou-se o presidencialismo americano sem o voto distrital; adotamos o federalismo europeu sem as raízes federativas genuínas. Como essa miscelânea disforme poderia dar certo?
Logo sugiram os espertalhões, que abocanharam os feudos e ocuparam todos os espaços. Surgiu um grupo político de homens e mulheres, que dominam o sistema e o regime, seja ele qual for. Enquanto o povo passa fome e dificuldades, os líderes são verdadeiros títeres da veleidade nacional, e servem apenas a eles mesmos, chegando a um ponto vil onde o poder está no centro como banquete, e o pudor está ao largo do cotidiano de cada um, como quimera de uma noite sem a mínima expiação.
A crítica ao político não deve ser rasa, ainda que boa parte dos parlamentares atue com o empenho que a sociedade espera e merece. O problema é que a estrutura de governo os obriga a atuar em um sistema que premia o clientelismo, encarece campanhas e dilui responsabilidades, quando não, enfraquece ou esfacela opositores, sem qualquer freio. E o eleitor, diante de uma lista interminável de nomes desconhecidos, raramente tem meios para bem lembrar e avaliar; ou, pior ainda, ter o alcance e acuidade de legitimamente poder cobrar.

Diferente dos países com voto distrital ou sistemas mistos, onde o vínculo entre representante e representado é direto e palpável, aqui se criou um descolamento crônico e inevitável, proposital. Some-se a isso o fisiologismo grosseiro que domina a máquina pública. A eleição se torna uma batalha campal, em que a vitória assegura o controle de uma vasta estrutura de poder e instrumentos de barganha. A administração pública se torna comércio miúdo, de concessões e favores, gerando obscuros conflitos entre Executivo e Legislativo, empurrando o País, uma vez mais, à beira de rupturas inimagináveis. E a tristemente famosa Lei de Gerson foi rebatizada com o pomposo nome de _emenda impositiva_ que a todos seduz e se diz que até a solução, em nosso País, nasce rota como remendo.
Esse cenário não é novo. Séculos atrás, Colbert, o ministro da França absolutista, já lamentava a corrosão provocada por burocratas ineptos e sistemas fiscais incoerentes. A crítica se mantém atual, porque a incompetência administrativa causa mais danos que a corrupção. E entre os vícios apontados pelo pensador francês, o hábito de comprometer receitas futuras com despesas presentes, ou de depender de fontes extraordinárias de receita para o equilíbrio de orçamentos, soa familiar demais ao atento povo brasileiro. Promessas sem premissas válidas confiáveis. Como pode dar certo?
Hoje, o mundo não tolera mais o discurso da pobreza como mero destino. Fora os casos extremos de geografia ou rara densidade populacional, o subdesenvolvimento é reconhecido como grave falha institucional, e não mais como fatalidade. Seria, então, uma cruel finalidade? O Brasil, com seu território vasto e recursos abundantes, tem todas as ferramentas para forjar um destino bem mais inspirador. Falta-lhe, porém, um novo pacto político, que substitua a autocomplacência por responsabilidade, e o improviso por planejamento.
O tempo das desculpas acabou. O futuro depende da coragem de reinventar a estrutura que sabota o País por dentro. Ou apenas vamos ver alguns sorrindo ao sol, e a grande massa que os sustenta vai permanecer sem alento, sem a luz que revela nossas sombras.
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Artigo original de responsabilidade editorial do Grupo Lupa1 de comunicação
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