Política

Aliança de Dr. Vinícius com nome do Progressistas testa discurso de Fábio Novo no PT

Presidente do PT já defendeu punições contra filiados que apoiassem adversários da legenda

Por Mikeias di Mattos

08 de julho de 2026 às 12:12 ▪ Atualizado há 1 hora


A aliança anunciada pelo deputado estadual Dr. Vinícius Nascimento, do PT, com o pré-candidato a deputado federal Emanoel Paiva, do Progressistas, pode abrir um novo foco de tensão dentro da base governista no Piauí. O gesto ganhou peso político porque ocorre justamente no momento em que o presidente estadual do PT, deputado Fábio Novo, tem cobrado publicamente que filiados ao partido votem em candidatos da própria legenda ou em nomes da base aliada do governador Rafael Fonteles.

 Vinícius Nascimento (PT), Emanoel Paiva (PP) e Fábio Novo (PT)Vinícius Nascimento (PT), Emanoel Paiva (PP) e Fábio Novo (PT)   

O anúncio foi feito em Teresina e apresentado como uma parceria voltada ao fortalecimento da representatividade da capital e do Piauí nas esferas estadual e federal, mesmo que o pré-candidato Emanoel Paiva sendo vereador da cidade Água Branca. O problema político está no partido escolhido para a dobradinha. Emanoel Paiva é filiado ao Progressistas, legenda que hoje ocupa o posto de principal adversária do PT no estado e tem como maior liderança o senador Ciro Nogueira, nome central da oposição ao Palácio de Karnak.

A movimentação coloca Fábio Novo diante de um teste de coerência interna. O presidente do PT já adotou tom duro em relação a prefeitos, deputados e lideranças petistas que declararam apoio a candidatos do Progressistas, especialmente quando o apoio envolveu Ciro Nogueira. Em mais de uma ocasião, Fábio defendeu que filiados devem seguir as decisões coletivas do partido e chegou a falar na aplicação de medidas disciplinares contra quem descumprisse a orientação partidária.

Em um dos episódios, o dirigente petista reagiu à possibilidade de prefeitos do PT apoiarem Ciro Nogueira e sustentou que, se o partido funciona como um time, todos precisam jogar juntos. A fala foi interpretada como um recado direto a gestores filiados à legenda que vinham se aproximando do senador do Progressistas. Na ocasião, Fábio afirmou que o diálogo seria o primeiro caminho, mas não descartou punições previstas no estatuto do partido, inclusive expulsão em caso de insistência no descumprimento das regras internas.

O discurso voltou a ganhar força quando lideranças do Progressistas passaram a apontar contradições na postura do PT em relação a prefeitos que mantinham relação política ou administrativa com Ciro Nogueira. Fábio Novo foi citado em falas nas quais defendia punição exemplar a filiados que não acompanhassem as deliberações da legenda. A cobrança tinha como pano de fundo a disputa pelo comando político do estado e a tentativa do PT de manter sua base coesa em torno do projeto de reeleição de Rafael Fonteles e das chapas aliadas.

Um dos casos mais concretos envolveu o prefeito de Cajueiro da Praia, Felipe Ribeiro, filiado ao PT. Após declarar apoio a Ciro Nogueira, o gestor virou alvo de reação interna no partido, com suspensão de sua filiação. O episódio teve repercussão política e acabou passando por mediação envolvendo lideranças do Partido dos Trabalhadores e do próprio governador Rafael Fonteles. Ainda assim, o caso ficou marcado como exemplo de que o comando estadual do PT estava disposto a reagir quando filiados se aproximassem do principal adversário da legenda.

Outro episódio recente envolveu a prefeita de Luzilândia, Fernanda Marques, que declarou apoio à reeleição de Ciro Nogueira, e Fábio Novo afirmou que o partido poderia adotar medidas disciplinares. O presidente estadual lembrou que o PT já havia aprovado orientação interna em favor da reeleição de Lula, da reeleição de Rafael Fonteles, das chapas proporcionais da sigla e dos nomes aliados ao Senado. Para ele, não seria razoável que um petista atuasse fora do que foi decidido pelo partido.

É nesse contexto que a parceria de Dr. Vinícius com Emanoel Paiva ganha dimensão maior. Diferentemente de prefeitos do interior ou lideranças municipais, Dr. Vinícius é deputado estadual, filiado ao PT, ocupa a função de líder do Governo na Assembleia Legislativa e atua politicamente em Teresina, principal colégio eleitoral do estado. A aliança com um pré-candidato do Progressistas, portanto, não é um movimento isolado de bastidor municipal, mas uma composição feita por um parlamentar petista com posição estratégica dentro da base.

O caso também reforça uma movimentação que já vinha sendo observada na política piauiense. Outros nomes do PT também apareceram em agendas ou articulações com Emanoel Paiva, indicando que a aproximação de petistas com o Progressistas pode estar avançando na disputa proporcional, e não apenas na disputa majoritária pelo Senado. Isso amplia o desconforto dentro da base e aumenta a pressão sobre o comando estadual do PT.

A pergunta que agora circula nos bastidores é simples: Fábio Novo adotará com Dr. Vinícius a mesma postura que defendeu contra prefeitos e outras lideranças petistas que se aproximaram do Progressistas? A cobrança aos filiados é apenas em relação ao apoio a Ciro Nogueira? O PT vai rechaçar apoios de filiados ao Progressistas? Se mantiver o discurso de fidelidade partidária, o presidente do PT terá que explicar qual medida a sigla pretende adotar diante da dobradinha de um deputado estadual petista com um pré-candidato do principal partido adversário. Se relativizar o caso, abrirá espaço para cobranças de tratamento desigual dentro da própria legenda.

No fim, a questão vai além da aliança entre Dr. Vinícius e Emanoel Paiva. O episódio testa o limite real da disciplina partidária defendida por Fábio Novo. Até aqui, o presidente estadual do PT tem sustentado que filiados precisam respeitar as decisões coletivas da legenda e da base governista. A partir de agora, a força desse discurso passa a ser medida também pela forma como o partido reagirá quando a aproximação com o Progressistas envolver um nome de peso da própria bancada petista.




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