Por Willian Tito
02 de julho de 2026 às 12:19 ▪ Atualizado há 1 hora
A cor também nasce do barro. Poderia ser outro título e você vai entender mais adiante. Artistas pintam quadros, fazem exposições, ocupam paredes, galerias, salões, praças e cartões-postais. E há aqueles que ajudam o povo a se enxergar.
Nonato Oliveira é figura rara. Celebrar seus 60 anos de arte não é apenas aplaudir uma carreira longa. É reconhecer uma obra que atravessou o tempo sem perder o viço, a travessura, a coragem e a fome de invenção. Sessenta anos não são pouca coisa. Em arte é uma grande prova de resistência espiritual.
A moda passa, o gosto muda, o mercado pisca, o aplauso falha, a crítica cochila, o patrocinador some, mas o artista verdadeiro continua lá, no seu ofício de conversar com o invisível usando tinta, linha, madeira, barro, parede, tecido, cor e teimosia.
Nonato Oliveira e o filho, Sérgio Donato. Foto: Willian TitoNonato não é artista de uma porta só. Nunca foi. Ele entrou na arte como quem entra numa feira grande. O cheiro da fruta, o barulho da conversa, o brilho do pano, o ferro batido, a madeira talhada, o aboio distante, a sanfona querendo nascer, o menino correndo, a velha olhando, o cacto resistindo, o boi passando vestido de festa.
Nonato experimentou materiais como quem experimenta caminhos. Pintou, desenhou, esculpiu, fez mural, testou textura, volume, superfície, tapeçaria. Foi ao tecido, à argila, à parede, à matéria, ao gesto. Não ficou preso ao cavalete como quem cumpre expediente. A arte nele sempre teve um certo gosto de liberdade. Que bom.
Artista domesticado vira funcionário da moldura. Nonato é da linhagem dos inquietos. Dos que desconfiam da primeira solução. Dos que sabem que a criação não nasce arrumadinha, de cabelo penteado e sapato engraxado. Ela vem, muitas vezes do caos, desalinhada, com barro no pé, tinta na mão, sol na testa, suor escorrendo pela nuca e uma ideia pulando dentro do peito.
Experimentou tudo o que pôde e compreendeu cedo que cada material fala uma língua. A madeira fala de um jeito. A linha fala de outro. A tapeçaria tem sua paciência. A escultura tem sua presença. O mural tem seu gesto público. O desenho tem sua nudez. A pintura tem seu incêndio. Entre tantas linguagens, foi na pintura que Nonato Oliveira acendeu sua marca maior.
Detalhe das camadas de tintas de obra da década de 70. Foto: Willian TitoA pintura é sua casa principal. É onde sua obra parece respirar mais largo. É onde o artista se torna imediatamente reconhecível. A cor forte, o traço vivo, a composição cheia de movimento, os personagens populares, os signos do sertão, os cajus, os cactos, os bois, os músicos, os brincantes, os ritos, as festas, os bichos, as mulheres, os homens, as memórias. Tudo parece sair da tela com vontade de puxar conversa.
Nonato não pinta o Nordeste como quem pede desculpas por ele existir. Pinta o Piauí como quem abre a janela, olha direito e vê que o sertão não é paisagem pobre. Pobre é o olhar que chega atrasado. O sertão de Nonato tem cor, ritmo, infância, inteligência, ironia, mistério, festa, fé, trabalho, desejo e uma beleza que não pede licença à estética importada. Uma beleza danada que entra pela retina e vai morar na memória.
Sua arte ajuda a corrigir o velho costume de olhar para o Nordeste pelo buraco estreito do clichê. Durante muito tempo quiseram reduzir a terra à seca, à falta, à poeira, ao sofrimento e ao chapéu de couro usado como fantasia por quem nunca entendeu o material. Nonato respondeu com cor, que na obra dele não é enfeite. É argumento, afirmação e manifesto sem palanque.
O vermelho diz. O amarelo fala. O azul comunica. O verde sussurra. Até o silêncio das formas diz. Em Nonato, a cor não fica quieta. Ela dança. Ele entendeu que a identidade de um povo também é visual. A gente não é apenas documentos, fronteiras, estatísticas e discursos oficiais. A gente é feito de imagens. De lembranças. De símbolos. De coisas que reconhecemos antes de saber explicar.
O quadro de onde foi recortado detalhe em imagem acima. Foto: Willian TitoUm boi de festa, uma sanfona, um caju, um mandacaru, uma rua quente, uma banda passando, uma mulher de olhar firme, um menino no meio da brincadeira, um povo que trabalha e ainda encontra tempo para inventar beleza. Nonato deu forma a esse repertório. Fortaleceu nossa identidade porque ajudou a desenhar uma gramática visual do Piauí e do Nordeste. Solar. Popular. Sofisticada sem ser metida. Moderna sem renegar a raiz. Profunda sem fazer cara de enterro.
Isso é importante. Muito importante. O povo que não se vê acaba aceitando o retrato que fazem dele. Nem sempre quem pinta de fora sabe onde mora a alma da casa. Nonato sabe porque sua obra não observa o sertão como turista. É pertencimento. Não trata a cultura popular como cenário. É pensamento. O boi, o reisado, a música, a festa, a paisagem, o rosto, o chão e o sonho não aparecem como ilustração folclórica. É arquétipo de mundo. Inteligência acumulada. Memória em movimento. Arte viva.
E quando se fala em Picasso, é preciso entender o tamanho simbólico da aproximação. O pintor espanhol foi um dos grandes nomes que ensinaram ao século XX que a forma podia ser desmontada, reinventada, desobedecida. Que o artista não precisava pedir autorização à aparência para chegar à verdade. Nonato, discípulo da arte viva, levou a lição ao seu próprio território. Compreendeu que tradição não é gaiola. É asa. Que o popular não é menor. É fonte. E que a raiz não impede o voo. Dá impulso.
A grandeza de Nonato ficou robustecida porque não precisou abandonar seu lugar para ser universal. Ao contrário. Mergulhou no seu lugar até encontrar o mundo.
Prestes a completar 77 anos, Nonato segue pintando todos os dias. Foto: Willian TitoÉ a diferença entre o artista que copia tendência e o que cria linguagem. A tendência envelhece depressa. A linguagem permanece. A tendência precisa de explicação. A linguagem bate no olho. A tendência faz pose. A linguagem cria descendência.
Nonato estabeleceu descendência visual. Seu modo de organizar a cor, de celebrar o povo, de transformar memória em pintura e pintura em pertencimento influenciou o olhar de gerações. Não apenas de artistas. Mas de quem passa diante de uma obra sua e sente, mesmo sem dizer em voz alta, que tem alguma coisa de nós, com a nossa luz, com o nosso chão.
Reconhecer o chão é forma de grandeza. Num tempo em que tanta gente tenta parecer de qualquer lugar para ser aceita em todos, Nonato ensina que ser profundamente de algum lugar, fiel ao seu território, deixa de ser endereço e vira linguagem. O mundo não respeita a cópia. O mundo se curva diante da autenticidade.
A obra de Nonato Oliveira é autêntica porque nasce de uma escuta longa da infância, da cultura popular, da matéria, das cores, das festas, das ruas, dos interiores, da paisagem e do povo.
Reconhecer Nonato é afirmar que a arte piauiense tem tamanho, densidade, presença e que cultura não é acessório de solenidade. É eixo de identidade. Reconhecer que um artista plástico pode fazer pelo imaginário de um povo aquilo que um grande escritor faz pela língua, um grande músico faz pela memória sonora e um grande mestre popular faz pela tradição.
Nonato ajudou o Piauí a ganhar cor diante de si mesmo. Isso vale a autoestima cultural, que não cabe no discurso oficial. Quando o povo se vê com beleza, percebe que sua festa, sua paisagem, sua fala, seu rosto e sua memória não são menores. Tem força que transforma o que muitos chamam de simples em linguagem poderosa.
Nonato pegou o sertão, passou pela invenção, misturou com modernidade, acrescentou afeto, acendeu as cores e devolveu ao Piauí uma imagem mais forte de si mesmo. Depois de 60 anos, sua arte continua nos dizendo que a criação verdadeira não envelhece. Ela muda de luz. Ganha camadas. Fica mais funda. Como árvore antiga, oferece sombra sem perder raiz. Como rio, segue passando, mesmo quando ninguém está olhando. Como festa popular, renasce toda vez que alguém toca o primeiro tambor.
Nonato Oliveira não cabe apenas na biografia. Ele é criador da paisagem afetiva de um povo. Sua pintura permanece porque tem alma. A nossa alma que encontrou cor, vida e permanência.
Celebrar Nonato é festejar a arte que não aceita ficar calada. Que põe o sertão de pé, transforma memória em presença e identidade em festa séria, mas com sorriso, zabumba, passarinhos e caju maduro no meio da conversa.
Nonato parece ter passado 60 anos nos ensinando que a cor também nasce do barro. Quando brota das mãos de um grande artista, nunca mais volta a ser apenas cor. Vira povo.
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Raimundo Nonato de Oliveira nasceu em 11 de dezembro de 1949, em São Miguel do Tapuio, filho de Sabino Policarpo de Oliveira e Emília da Rocha Soares Oliveira. Veio de um chão que não foi apenas endereço de nascimento, mas primeira escola do olhar. No interior piauiense o menino aprendeu a ver os bichos, as aves, as pessoas, os mistérios, as tristezas e as alegrias do sertão antes de conhecer plenamente as cores. Quando faltava tinta, inventava pigmento com urucum, tabatinga, nogueira e casca de angico. Quando faltava ateliê, sobrava mundo.
São Miguel do Tapuio não é rodapé em sua biografia. É raiz. É matriz afetiva. É o lugar onde a memória começou a virar imagem. Ontem, no lançamento à imprensa, família e amigos, revelou-me que seu pai descendia dos tapuios, que habitavam o norte do Piauí.
Em Teresina, ampliou sua paleta, o Brasil reconheceu a força e o mundo encontrou sua pintura. A nascente permaneceu no menino do interior que transformou escassez em invenção.
O colunista em self, registrando presença na abertura da exposição Nonato 60 Anos.Nonato também construiu família com o mesmo ofício que sustentou sua arte. Um de seus painéis em Teresina foi feito em permuta para pagar o estudo dos filhos. Entre eles, Sérgio Donato, jornalista, DJ e presença pública na defesa da obra do pai. Nonato pintou para educar os filhos, mas acabou educando também o olhar de uma cidade inteira. Também ontem, uma das filhas fez um belo discurso reconhecendo publicamente a importância de cada membro na manutenção do artista que já é uma lenda viva.
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A melhor forma de celebrar é prestigiar a exposição “Nonato Oliveira: 60 anos de cores e memórias” aberta ao público no Sesc, Avenida Cajuína, 725, no bairro Noivos, em Teresina. Reúne obras consagradas, trabalhos inéditos e diferentes fases da trajetória de um dos grandes artistas da visualidade piauiense.
A visitação começa oficialmente hoje, 2 de julho, e segue até 20 de agosto, com entrada gratuita. O convite para chegar perto da cor, da memória e da identidade que Nonato ajudou a construir é um reencontro do Piauí com uma de suas imagens mais luminosas. Ontem, ele repetiu pela menos três vezes que eu ouvi. Encerro com quem tem mais Lugar de Fala neste texto. Síntese da tradução analítica do próprio autor: “É uma homenagem ao índio e à beleza do povo piauiense”.
Viva Nonato Oliveira!
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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