Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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No tempo dos contatos numerosos e vínculos frágeis, amizade ainda é a escolha de permanecer quando já não há palco, vantagem ou obrigação moral nenhuma de seguir lado a lado.

Por Willian Tito

30 de julho de 2026 às 20:21 ▪ Atualizado há 1 hora


Nem toda amizade nasceu para ser eterna. Mas toda amizade verdadeira deixa alguma forma de permanência. O Dia Internacional da Amizade pode parecer uma dessas datas cercadas de mensagens prontas, fotografias antigas e declarações públicas. E aquela velha pergunta menos confortável continua valendo. De quantas pessoas somos realmente amigos?

Não quantas estão na agenda. Não quantas acompanham as redes. Não quantas respondem com emojis. Amizade não é audiência. Não é curtida, conveniência, proximidade profissional nem cumplicidade de ocasião. O mundo digital aumentou o número de contatos e diminuiu a profundidade do contato. Sabemos para onde as pessoas viajaram, o que comeram, com quem saíram e até o que pensam sobre assuntos que ninguém perguntou. Mesmo assim, podemos passar meses sem saber como elas estão de verdade.

A amizade começa onde termina a exibição. Amigo é quem percebe a pausa diferente na voz. Quem reconhece o silêncio que pede cuidado. Quem sabe ficar sem transformar a dor do outro em curiosidade. É também quem não concorda com tudo, não elogia por obrigação e não alimenta nossos piores erros apenas para conservar a proximidade.

Há quem confunda amizade com aprovação permanente. Mas amigo não é plateia organizada. Às vezes, sua maior demonstração de lealdade é dizer o que ninguém mais teve coragem de dizer. Também existem amizades adoecidas pela cobrança. Pessoas que contabilizam telefonemas, convites, aniversários, favores e ausências mantêm uma espécie de livro-caixa afetivo. Dei tanto, recebi quanto? A amizade não sobrevive bem quando cada gesto vira dívida. Não a verdadeira.

Os adultos sabem que a vida aperta. Há trabalho, filhos, contas, doenças, distâncias, cansaços e batalhas que nem sempre são anunciadas. A amizade madura suporta intervalos. Não exige presença diária para comprovar a existência. Algumas pessoas podem passar meses longe e, quando se reencontram, a conversa continua exatamente do ponto em que a vida a interrompeu.

Distância é diferente de abandono. Falta de tempo é diferente de falta de interesse. Todos sabemos reconhecer, ainda que relutemos em admitir, quando já não ocupamos lugar algum na vida de alguém. Faz parte. Também. Amizades terminam. Às vezes sem briga, sem traição e sem uma cena final. As pessoas apenas deixam de caminhar na mesma direção. O afeto pode continuar, mas a convivência perde o sentido. Saber agradecer pelo que existiu, sem forçar o que já acabou, também é uma forma de respeito.

E os amigos improváveis? Gente de outra geração, outra cidade, outra profissão, outra história. Pessoas que não deveriam se encontrar segundo os algoritmos, mas que se reconhecem por uma afinidade que não cabe em formulário. São amizades que alargam o mundo e impedem que a vida se transforme numa sala cheia de espelhos.

No tempo das relações utilitárias, preservar amizade é quase gesto de resistência. Permanecer quando não há vantagem é celebrar sem inveja. É acolher sem espetáculo, guardar confidências e não usar fragilidades como arma quando surgem as divergências. Amizade é das poucas relações humanas que não depende de sangue, contrato ou obrigação legal. Duas pessoas permanecem próximas porque escolheram permanecer.

Hoje, em vez de publicar uma homenagem genérica para dezenas de pessoas, pode ser melhor procurar uma só. A que apareceu quando o resto desapareceu. Aquela que sabe quem você é quando não está representando papel algum. Mande uma mensagem. Faça uma ligação. Marque um café. Peça desculpas, quando necessário. Agradeça enquanto há tempo.

Amizade não se mede pelo número de pessoas que chegam para a festa. Afere-se por aquelas que ajudam a recolher as cadeiras quando a música termina.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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