Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

O poeta escreveu a cidade

Aos 70 anos, Paulo Machado revela que a memória de Teresina sobrevive nas casas perdidas, nos rios, nas ruas, nos versos e numa obra inteira dedicada a impedir o desaparecimento da cidade.

Por Willian Tito

23 de julho de 2026 às 21:11 ▪ Atualizado há 48 segundos


O poeta é guardião da cidade. Theresina está bem guardada em suas linhas. Neste 23 de julho, Paulo Machado completa 70 anos. A data celebra a longevidade de um poeta e uma obra que transformou a capital piauiense em personagem, documento, inquietação e matéria viva da literatura.

Paulo é poeta, contista, cronista, pesquisador e historiador. Sua trajetória está ligada aos movimentos culturais que sacudiram a cidade a partir da década de 1970, quando escrever, editar e fazer circular ideias exigia disposição, imaginação e alguma coragem.

A homenagem recebida no Salão do Livro do Piauí de 2026 confirmou o que os leitores de sua geração já conheciam. Paulo Machado é um dos grandes guardadores da memória cultural teresinense. Guardar, no seu caso, não significa empilhar lembranças num depósito sentimental. É procurar o que foi retirado da fotografia, apagado do relato oficial, demolido pela especulação imobiliária ou condenado ao desaparecimento pela indiferença pública.

O lugar de onde a poesia começa tem endereço. Rua Senador Teodoro Pacheco, número 1193. A antiga Rua Bela, no Centro de Teresina, a menos de cem metros da Praça Pedro II. Numa casa de estilo espanhol pertencente aos avós maternos, Paulo Machado nasceu, cresceu e acumulou as primeiras imagens que mais tarde atravessariam seus poemas. A casa seria demolida. No lugar onde existiram quartos, conversas, corredores, cheiros, medos, parentes e infâncias, funciona hoje um estacionamento.

Exemplo típico da relação de Teresina com o próprio passado. Derruba-se uma casa cheia de histórias para abrir espaço aos automóveis. O imóvel desaparece, o terreno passa a obedecer outra lógica e, pouco a pouco, os que chegaram depois já não sabem que ali morou uma família, uma arquitetura, uma forma de vizinhança e uma criança aprendendo a observar o mundo.

Paulo sabia que a casa seria entregue e provavelmente demolida. Antes de partir, retirou da sala de jantar um lustre. Precisava levar consigo alguma coisa material, um objeto capaz de testemunhar que aquela vida existira. Décadas depois, o lustre reapareceria numa criação visual como um ponto luminoso. A casa sumiu, mas uma pequena luz atravessou o tempo.

Da experiência nasceu “Herança”, poema escrito ainda na juventude. O título parece anunciar bens, propriedades ou valores transmitidos por uma geração a outra. No entanto, a herança recebida pelo poeta é feita de presenças e ausências. São os primos ao redor da mesa, o avô recordando acontecimentos antigos, a tosse de um tio atravessando a noite, as lagartixas expostas ao sol, a erva-cidreira brotando entre as rachaduras das lajes.

Dentro daquela casa, a história do mundo também chegava. O avô falava da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola. O quintal guardava seus rumores. A sala de jantar carregava tradições antigas e o risco permanente do naufrágio. O espaço doméstico não era uma ilha separada da história. A história entrava pela conversa dos mais velhos, pelas doenças, pelas transformações políticas e pela lenta decomposição das estruturas familiares.

Em “Herança”, Paulo não descreve simplesmente a residência. Ele reconstrói uma organização afetiva da cidade. Havia uma Teresina em que as pessoas reconheciam os vizinhos, acompanhavam o crescimento das crianças, conheciam as famílias e ocupavam o centro não apenas como consumidores ou trabalhadores, mas como moradores. As ruas eram uma extensão das casas, e as casas ajudavam a formar o caráter das ruas.

A modernização urbana modificou a convivência. O centro foi perdendo moradores e ganhando estabelecimentos comerciais, estacionamentos, portas fechadas depois do expediente e imóveis mutilados. A cidade cresceu, mas começou a perder parte dos sinais que permitiam compreender de onde vinha. Paulo presenciou a mudança arquitetônica e comportamental. Em vez de aceitar a frase segundo a qual Teresina seria uma cidade sem memória, decidiu confrontá-la. Para ele, não existe cidade sem memória. Existe memória ocultada.

Dizer que uma cidade não possui memória é atribuir o vazio a uma espécie de fatalidade. A memória simplesmente não estaria lá. Falar em ocultamento é outra coisa. Pressupõe escolhas, interesses e disputas. Alguém decidiu o que merecia ser registrado. Alguém selecionou os personagens que entrariam nos livros, as famílias que dariam nome às ruas, as revoltas que seriam reduzidas a notas de rodapé e os conflitos que deveriam desaparecer. A poesia de Paulo Machado entra exatamente nesse espaço. Ela procura o que foi deixado de fora.

Em “Post Card”, o poeta realiza um passeio temporal por Teresina. A expressão inglesa do título remete ao cartão-postal, imagem geralmente limpa, bonita e organizada que as cidades oferecem aos visitantes. Paulo desmonta o cartão. No lugar da paisagem imóvel, apresenta a cidade atravessada por tensões, personagens populares, bares, praças, desejos, pobreza, discussões políticas e mudanças sociais.

O poema contrapõe dois momentos, 1957 e 1977. Em um deles, aparecem a Praça Marechal Deodoro, a Praça Pedro II, o Clube dos Diários, a Avenida Frei Serafim, o Bar Carnaúba, a Rua Paissandu, o Mercado Central e o cais do Parnaíba. Duas décadas depois, Paulo retorna aos mesmos lugares e registra o que permaneceu, o que se transformou e o que desapareceu.

Não se trata de cultivar uma nostalgia ingênua. O passado não surge como paraíso perdido. Também havia desigualdade, controle social, fome, silêncio e autoritarismo. O que interessa é perceber como o tempo modifica os espaços e como cada modificação revela alguma coisa sobre a sociedade.

As tertúlias desaparecem. O antigo bar já não existe. A Paissandu agoniza. Personagens que davam rosto às ruas morrem sem deixar placas. O Mercado Central continua marcado pela desigualdade. Os homens que fazem planos permanecem, mesmo quando o cenário ao redor muda. O rio, indiferente às administrações e aos discursos, segue roendo o cais.

Paulo compreendeu cedo que as ruas ensinam. Para receber as lições, porém, é necessário caminhar devagar, observar, perguntar e desconfiar da versão oficial. Por isso, “Post Card” não é apenas um poema sobre lugares. É aula de leitura urbana. O poeta transforma a cidade num texto e convida o leitor a decifrá-lo.

A Rua Grande, a Rua da Estrela, a Rua da Glória, a Rua Bela, a Rua dos Negros e a Paissandu deixam de ser simples indicações geográficas. Cada nome abre uma passagem. Por trás das fachadas, aparecem trabalhadores, coronéis, mulheres, amantes, prostitutas, rebeldes, bêbados, crianças e personagens que raramente recebem estátuas. A grande história costuma preferir governadores, intendentes e proprietários. Paulo escuta os passos de quem atravessou a cidade sem receber monumento.

“Aprender as lições que há nas ruas” torna-se uma proposta estética e política. A perspectiva alcança a forma mais ambiciosa em “A Paz do Pântano”. Para escrever o poema, Paulo investigou o quadrilátero original do planejamento urbano de Teresina, atribuído a João Isidoro da Silva França. Foi ao Arquivo Público, ouviu moradores, confrontou informações e buscou episódios excluídos pela historiografia. O poema recebeu o primeiro lugar num concurso da Academia Piauiense de Letras. Apesar da premiação prever publicação, a edição institucional não aconteceu. O próprio autor terminaria lançando a obra em 1982, com uma tiragem de quinhentos exemplares.

Há uma ironia quase perfeita no episódio. Um livro dedicado a recuperar acontecimentos ocultados quase foi, ele próprio, empurrado para o ocultamento. Premiado, mas não publicado pela instituição responsável pelo concurso. Reconhecido, mas deixado por décadas fora de circulação. A história do livro repete, em menor escala, o problema investigado por ele.

“A Paz do Pântano” ajuda a compreender que a literatura de Paulo Machado não utiliza a história apenas como cenário. A pesquisa histórica faz parte da própria construção poética. Documento e imaginação caminham juntos. O poeta não reproduz friamente o arquivo. Ele devolve movimento, contradição, cheiro, voz e humanidade ao documento que, muitas vezes, registra linguagem burocrática.

É também o que acontece em “O Rio”. No poema, Paulo reconhece a dificuldade de transformar o rio de sua cidade em literatura. Como aprisionar num conjunto de versos algo que se move, migra, transborda, corrói e escapa? Como escrever sobre o Parnaíba sem cair nos adjetivos previsíveis, nas declarações ornamentais ou no regionalismo decorativo?

O poeta recusa o rio abstrato. Seu rio possui carne, peso, pedras e memória. É um rio torto, como uma cicatriz. Não existe para enfeitar a paisagem. Ele confronta a cidade, alimenta lembranças e carrega as marcas de tudo o que aconteceu em suas margens. É, nas palavras do poema, “água pesada na memória”.

O Parnaíba de Paulo Machado não é o rio imóvel dos cartões turísticos. É um organismo. O rio observa gerações, transporta ausências, acompanha meninos, trabalhadores, pescadores, comerciantes e fugitivos. A cidade pode tentar virar as costas para ele, ocupar desordenadamente suas margens ou reduzi-lo a um elemento paisagístico. Ainda assim, ele permanece como origem e testemunha.

A relação entre rio, rua e memória forma uma espécie de cartografia poética de Teresina. O centro da cartografia não está nos edifícios administrativos. Está no que as pessoas viveram. Uma cidade não é somente o traçado das avenidas, a quantidade de habitantes, os viadutos inaugurados ou as obras anunciadas. A cidade é também a tosse de um tio no fim do corredor. É o gosto da pastilha de hortelã sobre a mesa. É o bolero ouvido numa rua noturna. É a banca do mercado. É o louco conhecido pelo nome. É o bar onde alguém discutia política. É o cais onde os meninos viam os peixes saltarem.

Quando os elementos desaparecem, a poesia pode assumir a função de testemunha. Foi o que Paulo Machado fez ao longo de sua trajetória. Escreveu para evitar que a demolição material se transformasse também em demolição completa da lembrança. Recolheu imagens que pareciam pequenas demais para os historiadores tradicionais, mas eram grandes o suficiente para formar a identidade de uma cidade.

Sua geração também precisou inventar maneiras de existir culturalmente. Na década de 1970, Paulo participou da criação do Clube Estudantil de Leitura e do jornal mimeografado “Zero”. Mais tarde, envolveu-se com a coletânea “Ciranda” e com o jornal alternativo “Chapada do Corisco”, publicado entre 1976 e 1977. Sem grande estrutura financeira, o grupo produzia, imprimia, vendia e fazia os exemplares circularem diretamente.

Não era apenas uma geração literária. Era uma geração cultural, como o próprio Paulo a define. Reunia poetas, jornalistas, músicos, dramaturgos, fotógrafos, ilustradores e artistas gráficos. A precariedade não impedia a experimentação. Pelo contrário. Obrigava a encontrar novas soluções. O mimeógrafo, a monotipia, o desenho, a fotografia, a venda de mão em mão e a colaboração entre diferentes linguagens construíram um circuito independente numa Teresina ainda marcada pelas limitações da ditadura.

A poesia não estava separada da vida pública. Editar um jornal alternativo era abrir uma fresta. Reunir estudantes em torno da leitura era criar lugar de liberdade. Produzir livros fora das grandes estruturas era contestar o silêncio e a dependência. Paulo Machado aprendeu que escrever não bastava. Era necessário criar os meios para que a escrita encontrasse leitores.

Aos 70 anos, sua obra retorna ao centro das atenções num momento em que Teresina continua enfrentando conflitos semelhantes. Casas antigas desaparecem. Prédios perdem características originais. Espaços de convivência são substituídos. Rios e praças ficam distantes da vida cotidiana. Personagens populares morrem sem registro. A cidade avança sem perguntar o que está deixando para trás.

Ler Paulo Machado não é realizar uma visita cerimoniosa ao passado. É olhar para a Teresina de agora. Que casas estão sendo demolidas neste momento? Que histórias desaparecerão com seus últimos moradores? Quais tradições sobrevivem somente na lembrança dos mais velhos? Que ruas estão perdendo seus nomes afetivos? Que personagens conhecidos de bairros, mercados, bares, praças e calçadas partirão sem que alguém lhes dedique uma linha?

A poesia de Paulo nos ensina que a cidade não pode depender apenas dos arquivos oficiais. Há experiências que só sobrevivem porque alguém decidiu contá-las. Há pessoas que só permanecem porque foram transformadas em palavra. Há lugares que continuam existindo mesmo depois da demolição porque um poema conservou sua luz acesa.

A antiga casa da Rua Senador Teodoro Pacheco, 1193, virou estacionamento. Mas não desapareceu completamente. Ainda há primos em volta da mesa. Ainda há um avô falando de guerras e epidemias. Ainda há quintal atravessado pelo verão. Ainda há erva-cidreira rompendo as rachaduras. Ainda há lustre aceso sobre a sala de jantar. Tudo permanece porque Paulo Machado escreveu.

Aos 70 anos, o poeta não é apenas um homem que conhece a memória de Teresina. Ele próprio já faz parte dela. Sua obra demonstra que a cidade só desaparece inteiramente quando perde também as palavras capazes de recordá-la. Teresina teve casas demolidas, personagens apagados, documentos esquecidos e rios empurrados para longe do olhar. Mas teve também um poeta atento, caminhando por suas ruas, recolhendo sinais, escutando silêncios e aprendendo as lições escondidas em cada esquina.

Paulo Machado passou a vida escrevendo a cidade. Enquanto seus poemas forem lidos, Teresina continuará se lembrando de si mesma. Missão cumprida. Parabéns, poeta!

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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