Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

O futuro é de quem sabe aprender

No Dia Mundial das Habilidades dos Jovens, uma bom momento para reflexão sobre o que realmente precisamos ensinar para um futuro cada vez mais imprevisível.

Por Willian Tito

15 de julho de 2026 às 19:26 ▪ Atualizado há 2 horas


O que uma criança precisa aprender para trabalhar num mundo que ainda não existe? Educar uma criança para o futuro já foi uma tarefa relativamente simples. Bastava estudar. Aprender uma profissão. Conseguir um emprego. Trabalhar. Aposentar-se. O roteiro nunca foi tão perfeito quanto parecia, claro. Mas havia pelo menos a sensação de que o mundo funcionava sobre trilhos mais ou menos conhecidos. Hoje, os trilhos estão mudando enquanto o trem passa.

Neste 15 de julho, Dia Mundial das Habilidades dos Jovens, refaço a pergunta. O que uma criança precisa aprender hoje para trabalhar num mundo que ainda não existe? A resposta mais honesta ninguém sabe completamente.

Durante décadas, a escola foi organizada em torno da ideia de transmitir respostas. O professor sabia. O aluno aprendia. A prova verificava. Agora apareceu uma máquina capaz de responder em segundos perguntas que antes exigiam horas de pesquisa. A inteligência artificial escreve. Resume. Traduz. Programa. Organiza dados. Cria imagens. Sugere caminhos.

Melhora numa velocidade que deixa qualquer previsão com prazo de validade curto. Mas isso não muda nenhuma realidade apertando botão. Quanto mais informação existe, mais importante é saber distinguir conhecimento de ruído. Quanto mais a máquina executa, mais o ser humano precisa aprender a escolher.

Pensamento crítico. Criatividade. Comunicação. Curiosidade. Capacidade de aprender. Discernimento. Colaboração. Estas palavras parecem abstratas diante de uma sala de aula com quadro, caderno, prova e chamada. Mas podem ser as ferramentas mais concretas para o futuro.

A juventude que está hoje na escola provavelmente mudará de atividade várias vezes ao longo da vida. Aprenderá tecnologias que ainda não foram inventadas. Vai trabalhar em funções que talvez ainda não tenham nome. Vai resolver problemas que nem sequer conseguimos formular. Isso muda o sentido da educação.

Ensinar não pode ser apenas preparar alguém para repetir o que já sabemos. Precisa preparar a enfrentar o que ainda não sabemos. Com tanta tecnologia disponível, agora é que precisamos de mais habilidades profundamente humanas.

Uma máquina pode gerar cem ideias. Mas alguém precisa decidir qual delas faz sentido. Pode produzir um texto. Mas alguém precisa perceber quando o texto está errado. Um dos grandes desafios do nosso tempo é não transformar facilidade em preguiça intelectual. A inteligência artificial pode ser uma ferramenta extraordinária. Mas nenhuma ferramenta substitui completamente quem sabe por que está usando.

A calculadora não acabou com a matemática. A internet não acabou com o conhecimento. A inteligência artificial provavelmente também não acabará com a inteligência humana. Mas poderá expor, de forma bastante cruel, a diferença entre quem apenas repete e quem realmente pensa.

Preparar os jovens para o futuro não significa simplesmente colocar um computador na sala de aula. Tecnologia sem propósito é apenas equipamento caro. Também não significa abandonar o conhecimento básico. Ao contrário. Para questionar uma resposta, é preciso saber alguma coisa. Para reconhecer um erro, é preciso ter referência. Para usar uma ferramenta com inteligência, é preciso não depender completamente dela.

O desafio da educação ficou mais complexo. Precisamos ensinar o jovem a usar a tecnologia e também a não ser usado por ela. Tem que aproveitar a velocidade e preservar a reflexão. Acessar informação e construir conhecimento. Dialogar com máquinas sem perder a capacidade de conversar com pessoas.

O mercado de trabalho do futuro certamente vai exigir novas competências. Mas a vida exige algumas coisas bem antigas. Responsabilidade. Ética. Coragem. Empatia. Capacidade de conviver. Nenhum aplicativo resolve sozinho uma sociedade incapaz de escutar. Ainda não criaram o algoritmo que corrige automaticamente a falta de caráter. Nenhuma inteligência artificial substitui o julgamento humano quando a decisão envolve consequências humanas.

O futuro não pertence necessariamente a quem souber mais respostas. Talvez pertença a quem souber aprender mais rápido e a desaprender quando necessário. A quem conseguir mudar sem perder o essencial. A quem souber usar a tecnologia sem entregar a ela o próprio pensamento.

No Dia Mundial das Habilidades dos Jovens, a reflexão mais urgente é se estamos preparando nossas crianças para fazer provas ou para fazer escolhas? Repetir respostas ou formular perguntas? Disputar com as máquinas ou fazer o que nenhuma máquina consegue fazer exatamente como nós?

O mundo da próxima geração ainda não está pronto. Talvez nunca esteja. A habilidade mais importante do futuro é uma das mais antigas da humanidade. Aprender. Aprender de novo e continuar aprendendo. Quando as máquinas parecem ter resposta para quase tudo, o futuro ainda depende de seres humanos capazes de fazer as perguntas certas.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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