Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Ecologia do voto

A campanha eleitoral começou, mas os velhos hábitos de imprimir, espalhar e descartar material político já não combinam com um tempo que exige responsabilidade ambiental.

Por Willian Tito

17 de agosto de 2026 às 09:27 ▪ Atualizado há 4 horas


A campanha eleitoral começou e o voto não precisa virar lixo. Foi dado início à temporada brasileira da multiplicação dos rostos sorridentes em papel.

Santinho na mão, adesivo no carro, bandeira na esquina, panfleto na calçada. Em poucas semanas, há candidato que alcança a façanha de estar em tantos lugares ao mesmo tempo que faria inveja à física quântica.

A onipresença termina no chão. Não é metáfora. É lixo mesmo.

Pelas regras das Eleições 2026, materiais gráficos, como os tradicionais santinhos, podem ser distribuídos durante a campanha. Carreatas, caminhadas e passeatas também continuam previstas na propaganda eleitoral. A internet, evidentemente, ocupa espaço cada vez maior na disputa.

Tudo legal. Mas legalidade e sustentabilidade não são exatamente a mesma coisa. Chegou a hora de acrescentar outra pergunta ao planejamento de uma campanha. Quanto lixo a candidatura pretende produzir para pedir que o eleitor confie nela? A questão ganha contornos quase cômicos quando entra em cena o discurso ambiental.

A candidata aparece no santinho abraçada a uma árvore. Em outra fotografia, planta cuidadosamente uma muda. Na promessa impressa, defende rios, florestas, clima e sustentabilidade. O santinho escapa da mão de alguém. Cai na rua. A chuva chega. E lá vai a defesa da natureza navegando heroicamente em direção ao bueiro. Na realidade, o script não consegue alinhar ações ao discurso.

O mesmo vale para certas carreatas. Candidato pode defender redução de emissões, mobilidade sustentável e enfrentamento às mudanças climáticas. Para demonstrar consciência ambiental, basta reunir uma extensa fila de automóveis circulando pela cidade emitindo CO² em enormes quantidades. Só que tem um pequeno problema entre o discurso e a coreografia.

Mesmo que todos os carros fossem elétricos, permaneceria uma pergunta interessante. Precisamos continuar demonstrando força política contando veículos? A própria estética eleitoral está envelhecida.

Durante décadas, campanha forte significou muito papel, muita bandeira, muito adesivo, muito carro, muito barulho e uma quantidade quase industrial de material espalhado pelas ruas. Só que o planeta mudou. Ou melhor, a nossa percepção sobre os limites do planeta mudou.

Há experiências tentando ajustar democracia e sustentabilidade. A Comissão Eleitoral da Índia, por exemplo, passou a orientar partidos e candidaturas a evitar plásticos descartáveis em materiais de campanha. O debate internacional já inclui redução de plástico, utilização de materiais reciclados ou biodegradáveis, metas de diminuição de emissões e critérios ambientais na própria organização das eleições.

Na Austrália, estruturas eleitorais passaram a utilizar papelão sem revestimentos e com desenho mais simples, facilitando reutilização e reciclagem. Nas Filipinas, surgiram iniciativas para transformar antigas lonas eleitorais em bolsas, carteiras e outros objetos. No Sri Lanka, houve experiência de campanha que chegou a contabilizar emissões produzidas por veículos e consumo de eletricidade para tentar compensar parte do impacto ambiental.

Nenhuma das iniciativas é solução milagrosa, mas todas apontam para uma pergunta nova. Por que a sustentabilidade não pode fazer parte do modo de fazer política? Na prática. Não apenas no discurso.

Campanha moderna não precisa ser campanha invisível. Pode ter rua. Pode ter gente, caminhada, conversa, encontro, música, criatividade, corpo a corpo. Precisa apenas ter menos desperdício. Com metas transparentes exibidas ao eleitor de redução de consumo. Mostrando como se faz campanha com mentalidade sustentável. Quem tem o voto percebe a incoerência da fala e da ação. O eleitor não quer falação. Já cansou.

Um bom QR Code pode carregar a plataforma eleitoral inteira onde antes seriam necessárias dezenas de páginas. A equipe de rua pode receber treinamento para recolher o próprio material. Bandeiras podem ser reutilizadas. Impressos podem ser reduzidos drasticamente. Materiais podem ser produzidos com critérios de reciclabilidade. A campanha pode estabelecer pontos de coleta, separar resíduos em seus comitês e calcular previamente quanto pretende consumir e descartar.

E tudo começa antes do primeiro grande discurso sobre Amazônia, Caatinga ou mudanças climáticas. É dentro de casa. No comitê, na cozinha, na forma como se compra e no que se imprime. Até no tipo de copo para beber água que se usa. Sendo a separação do lixo a grande vedete da campanha. A decisão aparentemente pequena de não jogar mais uma coisa no mundo está todo o conceito de sustentabilidade.

A campanha eleitoral deve ser também um grande laboratório de futuro. A vitrine das boas práticas. Onde determinadas ações que deixaram de fazer sentido há muito tempo e ainda não foram proibidas, devem dar lugar às inovações e biotecnologias harmonizadas com a preservação e manejo sustentável de nossos recursos naturais.

Quem pretende administrar cidades, estados ou o país terá de enfrentar enchentes, ondas de calor, resíduos sólidos, mobilidade urbana, crise hídrica e mudanças climáticas. O eleitor espera alguma coerência já na maneira de pedir o voto.

Plantar muda rende uma fotografia bonita. Mas quem elege está de olho se o candidato não vai transformar a cidade numa lixeira eleitoral. O bom exemplo deve ser encorajado. Ao contrário do santinho, não precisa ser recolhido da sarjeta depois da eleição.

Boa sorte a quem inicia a caminhada pelo voto dentro da urna em 4 de outubro. Dia de São Francisco. O Patrono da Ecologia há de abençoar quem não espalha santinho pelo chão e não aumenta emissão de dióxido de carbono em manifestação inútil e patética de circulação de motos e carros pela cidade. Que o santo que mais amou a natureza fortaleça aqueles que estão na mesma vibração de amor pelo planeta Terra.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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