Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

Tradição não é aquecimento de palco

O protagonismo do horário nobre das festas juninas pertence a quem carrega a alma da celebração, não apenas a quem vende mais ingresso e viraliza nas plataformas digitais.

Por Willian Tito

30 de junho de 2026 às 10:56 ▪ Atualizado há 1 hora


Uma perguntinha simples, quase infantil: se 18h é horário bom para o boi, para o reisado, para o teatro de bonecos, para o xaxado e para a banda de pífanos, por que não é horário bom para a grande atração da noite?

Imagine a seguinte cena. Seis da tarde, sol se despedindo, praça esvaziada, meia dúzia de cadeiras esperando coragem, e lá vem o fenômeno nacional, o estouro do momento, o “over the pop sertanejo universitário” abrindo a festa para quase ninguém. Seria considerado absurdo. Desrespeito. Desperdício. Falta de estratégia. Pois é exatamente isso que se faz, ano após ano, com as atrações que dão sentido às festas.

A cultura popular virou abertura protocolar. Entra cedo, canta para o vento, dança para a equipe de som, apresenta-se ao pipoqueiro, para vendedor montando barraca e criança correndo atrás de balão, que reconhecem e aplaudem. Depois, quando a multidão chega, entra a indústria com luz, telão, fumaça, camarim, cachê alto e pose de dona da noite.

Nada contra o artista grande. O problema é quando ele ocupa o palco, o orçamento, o horário nobre, a narrativa e até o significado da festa. Aí o São João deixa de ser celebração de pertencimento e passa a ser apenas uma agenda comercial com chapéu de palha na decoração.

A questão não é proibir ninguém. É organizar melhor o sentido da festa. É entender que programação também é discurso. Horário também é política pública. Escalação também comunica valor. Quando um grupo tradicional é jogado para o começo vazio da noite, a mensagem está dada, mesmo sem microfone afirmam, “vocês são importantes, mas não tanto.”

 O protagonismo é de quem inventou a festa. Imagem criada com IAO protagonismo é de quem inventou a festa. Imagem criada com IA

O boi, o reisado, o xaxado, os bonecos, os pífanos e os grupos tradicionais não podem ser tratados como figurantes de luxo. São o roteiro original. Senha da memória. Aula viva para quem ainda está aprendendo de onde veio. Colocar essas expressões no começo vazio da programação é como servir o prato principal antes dos convidados chegarem e depois oferecer gelo seco como sobremesa.

Uma geração inteira precisa ver isso de perto. Criança não aprende pertencimento por decreto. Adolescente não cria vínculo com a cultura apenas ouvindo palestra. A raiz precisa aparecer viva, bonita, central, iluminada, disputando atenção no melhor sentido da palavra. Se a juventude só encontra a tradição espremida, cansada e escondida no início da noite, vai concluir que tradição é sobra. E tradição não é sobra. É fundação.

A solução não exige revolução. Exige respeito, inteligência e coragem de mexer na ordem do espetáculo. Que as atrações populares sejam colocadas no centro da programação. No recheio da noite. No horário em que há público, atenção, criança acordada, juventude presente e família inteira na praça.

A festa também educa pelo lugar que dá às atrações. Quando o poder público joga a cultura popular ao horário ingrato, ensina que vale menos. Quando a coloca no centro, afirma que é importante, que é nossa e não é enfeite.

Um fenômeno está em ascensão. Muita gente já procura as festas pequenas e médias, nas cidades menos famosas. Nelas, ainda resta cheiro de terreiro, som de zabumba sem maquiagem, sanfona sem blindagem, povo na calçada, comida de verdade e uma sensação de que a festa não foi sequestrada pelo mercado. Não é nostalgia barata. É verdade. É o público dizendo, com os pés, que ainda sabe reconhecer quando uma festa tem alma.

As grandes festas precisam reaprender com as pequenas. Não para diminuir estrutura, mas para recuperar sentido. O palco pode ser grande. A luz pode ser bonita. O som pode ser poderoso. O que não pode é a tradição ficar espremida no rodapé da programação, como se fosse nota de agradecimento antes do espetáculo começar.

Para o próximo ciclo, a proposta é inverter a lógica. Quem tem força de mercado pode abrir a noite sem perder majestade. Quem tem força de raiz precisa estar no centro para não desaparecer. A cultura popular não quer favor. Quer horário, público, dignidade e escuta.

Festa junina sem cultura popular é só evento. Pode lotar, vender e viralizar. Mas fica faltando quem começou dançando no meio da praça sem medo de ser feliz.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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