Por Willian Tito
28 de junho de 2026 às 14:23 ▪ Atualizado há 1 hora
Chamam de progresso tudo aquilo que nos faz andar mais depressa. Atravessamos cidades em minutos, respondemos mensagens em segundos, compramos sem sair de casa, assistimos ao outro lado do planeta em tempo real. Nunca fomos tão velozes.
Ao mesmo tempo, nunca demoramos tão pouco dentro das coisas. As amizades perderam espessura. As conversas ficaram curtas. Os objetos passaram a nascer com data para morrer. As casas deixaram de ser construídas para os netos. Os trabalhos deixaram de ser para a vida inteira. As cidades desaprenderam a reconhecer seus habitantes. Tudo circula. Pouco permanece.
O Brasil guarda um território que parece ter seguido outra direção. O sertão. Não recusou a modernidade, mas aprendeu cedo demais a lição que o restante do mundo talvez está começando a redescobrir. Há coisas que só existem quando permanecem.
Uma árvore não cria sombra num verão. Amizade não amadurece numa semana. A comunidade não nasce de conexões rápidas. Confiança não aceita entrega expressa. Exige convivência.
O sertão não se organizou pela velocidade. Foi lentamente. Longa duração. A chuva não significa apenas água. Significava futuro. O açude nunca armazenou somente litros. Guardava tranquilidade. O quintal não produzia apenas alimentos. Produzia autonomia. A cerca delimitava propriedades, mas jamais impedia o vizinho de chegar.
Sobreviver nunca foi verbo conjugado no singular. É construção coletiva. Liberdade não é depender cada vez menos dos outros. O sertão descobriu exatamente o contrário. E pode provar.
A verdadeira independência nasce das boas interdependências. Ninguém atravessa uma estiagem sozinho. Alguém consegue erguer uma casa sozinho? Ninguém realiza colheita sozinho e nem inventa cultura sozinho.
Farinhada é mutirão. As rodas de viola. O aboio. A literatura de cordel. As festas de padroeiro. As feiras. Os quintais compartilhados. Todas possuem algo em comum. São tecnologias de produção de pertencimento.
O maior equívoco é imaginar que o sertão vive atrasado. O é outra coisa. Viver cercado de gente e morrer de solidão. Trocar a memória pela atualização constante. Conhecer o mundo inteiro e esquecer o nome do vizinho. Possuir milhares de contatos e não encontrar quem segure nossa mão quando está dodói.
O sertão nunca foi perfeito. Conheceu fome, injustiça, desigualdade e abandono. Mas desenvolveu sabedoria silenciosa. Aprendeu que algumas riquezas não cabem em bancos. Nem em aplicativos. Nem em indicadores econômicos. Cabem apenas no tempo. Existem valores que não crescem na velocidade. Criam raízes. É isso que o mundo está procurando outra vez.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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