Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

O cérebro do futuro e o futuro do cérebro

Entre a possível regressão cognitiva, o envelhecimento e a força da neuroplasticidade, a ciência mostra que o cérebro pode continuar aprendendo a manter-se jovem e funcional.

Por Willian Tito

22 de julho de 2026 às 20:19 ▪ Atualizado há 1 hora


Cérebro também precisa de futuro. No Dia Mundial do Cérebro, a ciência nos lembra que envelhecer não significa necessariamente parar de aprender e que escrever pode ser uma das maneiras mais bonitas de manter o pensamento em movimento.

O cérebro não envelhece apenas quando a memória começa a falhar. Envelhece quando deixamos de aprender. Quando a curiosidade se acomoda e atenção passa a viver aos pedaços. Quando o corpo abandona o movimento, o sono perde qualidade, a convivência diminui e os dias começam a repetir sempre os mesmos caminhos.

É verdade o contrário. O cérebro se renova quando precisa compreender alguma coisa nova. Quando encontra outra pessoa, outra história, outra música, outro percurso. Quando lê, escreve, dança, conversa, calcula, imagina, pergunta, recorda e procura uma palavra que ainda não sabe exatamente onde guardou.

Este ano, 2026, a campanha da Federação Mundial de Neurologia carrega um tema que parece simples, mas contém uma denúncia: “Saúde cerebral: acesso para todos”. A entidade estima que mais de 3,4 bilhões de pessoas vivam com alguma condição neurológica. Ao mesmo tempo em que a ciência avança no conhecimento sobre o cérebro, grande parte da humanidade ainda encontra dificuldades para obter prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação.

A desigualdade e a massa encefálica. Há quem consiga perceber os primeiros sinais de uma doença, realizar exames, consultar especialistas e começar rapidamente um tratamento. Outros precisam conviver durante anos com dores, esquecimentos, crises, alterações motoras, dificuldades de aprendizagem ou mudanças de comportamento sem sequer saber o nome do que enfrentam.

O cérebro é democrático na anatomia. O acesso ao cuidado ainda não. Cuidar dele não pode significar apenas procurar um neurologista quando a doença já chegou. A saúde cerebral começa na gestação, na alimentação da infância, na vacinação, na escola, na leitura, no direito ao descanso, na proteção contra a violência, no ar que se respira, no exercício físico, na convivência e nas oportunidades que uma pessoa recebe para desenvolver suas capacidades.

Uma descoberta recente vem tirando o sossego de muita gente. Durante grande parte do século XX, pesquisadores observaram que as novas gerações alcançavam resultados progressivamente melhores nos testes de inteligência. O fenômeno ficou conhecido como efeito Flynn. A expansão da escolaridade, as melhorias na saúde e na nutrição e a crescente complexidade das atividades cotidianas estão entre as explicações propostas.

A curva parou de crescer e chegou a recuar em algumas populações. Uma importante pesquisa analisou resultados cognitivos de aproximadamente 730 mil homens noruegueses nascidos entre 1962 e 1991. As pontuações aumentaram entre as primeiras gerações estudadas, atingiram um ponto de inflexão entre os nascidos em meados da década de 1970 e, depois, começaram a diminuir.

O elemento mais revelador apareceu na comparação entre irmãos da mesma família. Tanto a subida quanto a posterior queda ocorreram dentro dos próprios núcleos familiares. O que enfraquece a hipótese de mudança genética e aponta para fatores ambientais, sociais, educacionais e culturais. Mas não autoriza ninguém a anunciar que uma geração inteira ficou menos inteligente.

O teste de QI mede determinadas habilidades cognitivas, mas não consegue abarcar toda a inteligência humana. Não mede completamente a criatividade, a sensibilidade, a capacidade artística, a inteligência emocional, a experiência prática, a habilidade de cuidar nem a aptidão para sobreviver em circunstâncias adversas.

O sinal não deve ser desprezado. Ainda não existe base científica para culpar isoladamente os celulares, as redes sociais, os videogames ou a inteligência artificial pela reversão observada em alguns testes. É legítimo investigar o que acontece quando passamos grande parte do dia saltando de estímulo em estímulo, sem tempo para aprofundar, reter, comparar e refletir.

O cérebro precisa de desafio. Mas também precisa de pausa. Precisa de novidade e necessita de permanência. Carece de velocidade em algumas tarefas. Em outras, precisa daquele tempo vagaroso em que uma ideia amadurece sem notificações. A preocupação não termina na juventude. Ela atravessa toda a vida.

A Comissão da revista científica The Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidado da demência estima que cerca de 45% dos casos poderiam ser prevenidos ou adiados mediante o enfrentamento de 14 fatores potencialmente modificáveis. Entre eles estão baixa escolaridade, perda auditiva, perda visual não tratada, hipertensão, colesterol LDL elevado, diabetes, obesidade, sedentarismo, depressão, isolamento social, tabagismo, consumo excessivo de álcool, traumatismos cranianos e poluição do ar.

Não significa que toda demência possa ser evitada. Também não significa que uma pessoa seja culpada por adoecer. Podemos entender que existe espaço para prevenção e que boa parte da prevenção depende não apenas de decisões individuais, mas de políticas públicas.

É difícil recomendar atividade física a quem não possui espaço seguro para caminhar. É cômodo aconselhar boa alimentação a quem precisa escolher o que consegue comprar. É insuficiente recomendar convivência a uma pessoa idosa que foi abandonada. É cruel falar em acompanhamento precoce quando uma consulta especializada está muito distante. A saúde cerebral também é resultado das condições em que se vive.

A neuroplasticidade vem devolvendo esperança a muita gente. Já imaginou-se que o cérebro chegava à vida adulta praticamente concluído. Hoje sabemos que ele conserva, ao longo da existência, a capacidade de alterar conexões, reorganizar redes e adaptar funções em resposta às experiências, aos aprendizados e até às lesões. A plasticidade é mais intensa em determinadas fases, mas não desaparece na velhice. O cérebro adulto e o cérebro idoso continuam capazes de mudanças estruturais e funcionais.

O cérebro não é uma casa terminada. É uma construção permanente. Fecha algumas passagens, reforça outras, abre atalhos, muda os móveis de lugar e procura novas saídas quando uma porta deixa de funcionar.

Podemos, então, rejuvenescer o cérebro? Não no sentido de apagar sua idade biológica ou transformá-lo novamente no cérebro da juventude. O tempo deixa marcas e seria desonesto prometer o contrário. Mas é possível preservar vitalidade, fortalecer reserva cognitiva e oferecer condições para que continue aprendendo, compensando perdas e criando novas possibilidades.

Mover o corpo ajuda. Dormir bem ajuda. Prevenir e tratar a hipertensão, o diabetes, a depressão, as perdas auditivas e visuais ajuda. Manter vínculos, cultivar interesses, aprender uma língua, tocar um instrumento, ouvir música, ler e enfrentar tarefas que exijam atenção também ajudam.

Escrever ajuda de uma maneira muito especial. Quando alguém escreve, não coloca apenas palavras sobre o papel. Aciona várias regiões do cérebro para conversar. A memória busca acontecimentos. A linguagem procura nomes. A imaginação oferece imagens. A atenção organiza a sequência. O planejamento sustenta o caminho. O senso crítico elimina excessos. A emoção dá temperatura. A coordenação motora transforma o pensamento, matéria invisível, em alguma coisa que pode ser vista.

Escrever é organizar o tumulto sem necessariamente acabar com ele. O escritor não registra simplesmente uma ideia que já possuía. Às vezes descobre a ideia durante a escrita. Começa com uma impressão, atravessa a dúvida, encontra uma palavra, muda a frase e, quando chega ao fim, compreende algo que ainda não sabia que pensava.

Uma pesquisa de neuroimagem identificou diferenças nos padrões de ativação cerebral de pessoas com treinamento profissional em escrita criativa, especialmente em redes pré-frontais ligadas ao planejamento e ao controle cognitivo, além de estruturas relacionadas à seleção e à automatização de processos. O estudo mostra uma associação entre experiência literária e funcionamento cerebral, embora não permita afirmar que escrever, sozinho, tenha causado todas as diferenças.

A prática persistente importa. O escritor exercita a memória de trabalho ao sustentar uma ideia enquanto constrói a frase seguinte. Move a flexibilidade ao substituir uma palavra. Gera o planejamento ao organizar o texto. Promove empatia quando tenta olhar pelos olhos de outra personagem ou imaginar como o leitor receberá o que foi escrito.

Revisar é um dos exercícios mais sofisticados. O/A revisor/a precisa afastar-se do que acabou de produzir, enxergar a própria criação como se fosse de outra pessoa, reconhecer falhas, abandonar afetos e reconstruir caminhos. É uma forma de metacognição. O pensamento observando o próprio pensamento.

A escrita à mão acrescenta ainda outra dimensão. Num pequeno estudo realizado com 36 universitários, o registro por eletroencefalografia encontrou padrões de conectividade cerebral mais amplos durante a escrita manual do que durante a digitação.

Os autores relacionam a diferença à combinação entre movimento fino, percepção visual e informação sensorial envolvida na formação de cada letra. Por ser pesquisa pequena e realizada em condições específicas, ela não transforma a caneta em remédio nem teclado em inimigo. Sugere que escrever à mão oferece ao cérebro experiência diferente e rica.

A caneta não acompanha completamente a velocidade do pensamento. E não é ruim. Pode ser uma de suas virtudes. Enquanto a mão desenha letras, o pensamento é obrigado a esperar um pouco. No intervalo quase imperceptível, escolhe, elimina, ordena e amadurece.

O teclado permite correr. A caneta ensina a caminhar. Um não precisa eliminar o outro. O cérebro se beneficia justamente da variedade. Escrever à mão, digitar, ler em voz alta, corrigir, reescrever, conversar sobre o texto e encontrar novas formas de dizer aquilo que parecia definitivamente dito é a composição do ciclo completo.

Escrever não imuniza ninguém contra o envelhecimento ou contra as doenças neurológicas. Grandes escritores também esquecem. Poetas também adoecem. Nenhuma página concede invulnerabilidade. A escrita pode integrar uma vida intelectualmente ativa. Pode fortalecer repertórios, conservar habilidades, organizar emoções, registrar memórias e ampliar a chamada reserva cognitiva. Os recursos ajudam o cérebro a enfrentar melhor as transformações provocadas pelo tempo. Também nos oferece algo que os exames não medem.

Ao escrever, deixamos parte da memória fora do corpo. Guardamos nomes, rostos, vozes, acontecimentos, afetos e versões de nós mesmos que talvez o cérebro, sozinho, não conseguisse conservar para sempre. O bloco de notas se torna uma memória auxiliar. O livro atravessa a fragilidade de quem o escreveu. A palavra permanece quando o autor já não consegue se lembrar da tarde exata em que a encontrou.

A discussão sobre saúde cerebral não deve ficar confinada em hospitais, centro de pesquisa e de ensino. Ela tem que chegar às escolas, bibliotecas, praças, centros culturais, grupos de convivência, famílias e políticas de inclusão.

Cuidar do cérebro é oferecer neurologistas, medicamentos, exames e reabilitação. Também é oferecer educação capaz de ensinar a pensar. Livros capazes de alargar o mundo. Arte capaz de produzir espanto. Espaços onde as pessoas possam se encontrar. Tempo para que crianças brinquem. Condições para que adultos descansem. Respeito para que idosos continuem aprendendo.

A possível regressão observada em alguns testes cognitivos não precisa ser tratada como uma condenação geracional. Pode ser compreendida como advertência. Talvez não estejamos diante de cérebros inferiores? Talvez estejamos diante de uma sociedade que fragmentou a atenção, empobreceu algumas experiências e passou a exigir respostas rápidas para perguntas que somente o tempo consegue responder?

A neuroplasticidade lembra que a história não está encerrada. O cérebro muda com o que repetimos. Os caminhos mais percorridos se fortalecem. Os abandonados podem enfraquecer. E novas trilhas ainda podem ser abertas. Cada livro lido é uma trilha. Uma conversa verdadeira também é uma trilha. A música aprendida, cada caminhada, cada descoberta, cada lembrança compartilhada e cada frase cuidadosamente reescrita podem ajudar o cérebro a não desistir de capacidade de transformação.

Pode ser que o verdadeiro rejuvenescimento não seja voltar a possuir o cérebro de ontem. Talvez seja impedir que o cérebro de hoje perca o desejo de construir o de amanhã. Escrever é uma das formas de realizar a construção. Palavra por palavra, o escritor atravessa a própria massa encefálica, ilumina regiões esquecidas, aproxima lembranças distantes e encontra ligações onde antes parecia existir apenas silêncio.

Toda vez que uma palavra encontra outra e produz um pensamento que ainda não existia, alguma coisa dentro de nós recomeça. O cérebro não derrota o tempo. Mas pode aprender a atravessá-lo por uma janela aberta onde o futuro ainda pode entrar.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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