Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

A mão que sustenta o país

Quem coloca comida na mesa do país não pode continuar dependendo apenas da chuva, da sorte e da própria resistência para produzir com segurança, tecnologia, apoio e preço justo.

Por Willian Tito

28 de julho de 2026 às 20:15 ▪ Atualizado há 1 hora


Quem planta não pode colher abandono. O Brasil tem a habilidade curiosa de homenagear profissões no calendário e esquecê-las durante o restante do ano. Neste 28 de julho, Dia do(a) Agricultor(a), vê-se muitas mensagens, fotografias de mãos segurando a terra, chapéus de palha, plantações verdes e frases agradecendo a quem coloca comida na mesa. Tudo muito bonito. O problema começa quando a homenagem termina.

Atrás da imagem romântica do homem ou da mulher olhando a lavoura ao nascer do sol, existe a rotina marcada por incertezas que nenhuma fotografia consegue mostrar. O agricultor não controla a chuva, o preço dos insumos, a condição da estrada, a chegada da assistência técnica, a liberação do crédito nem o valor pelo qual conseguirá vender sua produção.

O(a) campesino(a) planta cercado(a) de perguntas. Vai chover no tempo certo? A água será suficiente? A produção encontrará comprador? O preço cobrirá os custos? O financiamento chegará antes do plantio ou depois da necessidade? No campo, a esperança precisa acordar cedo. Só que esperança, sozinha, não irriga plantação, não recupera estrada, não compra sementes nem garante preço justo.

O Brasil possui uma agricultura moderna, produtiva e tecnologicamente avançada. Deve ser reconhecido. Mas existe outro Brasil rural que não aparece nas grandes propagandas de safras recordes. É o Brasil das pequenas propriedades, das comunidades tradicionais, dos assentamentos, das famílias que produzem feijão, mandioca, milho, hortaliças, frutas, leite, ovos, mel e tantos alimentos presentes na vida cotidiana.

O Censo Agropecuário de 2017 mostrou que a agricultura familiar correspondia a 77% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros e concentrava cerca de 10,1 milhões de trabalhadores ou 67% de toda a mão de obra ocupada no campo. Apesar disso, ocupava apenas 23% da área total dos estabelecimentos. É muita gente trabalhando em pouca terra.

Gente que produz, movimenta pequenas cidades, abastece feiras, preserva conhecimentos transmitidos entre gerações e mantém famílias inteiras em seus territórios. Quando a agricultura enfraquece, não desaparece apenas a atividade econômica. Desaparecem modos de vida, receitas, sementes, palavras, costumes e memórias.

No Piauí, a realidade ganha contornos ainda mais profundos. Em grande parte do estado, produzir significa aprender a conviver com o calor intenso, a irregularidade das chuvas e os períodos prolongados de estiagem. O(a) agricultor(a) piauiense não precisa de discursos ensinando-o a ser resistente. Resistência é justamente o que nunca lhe faltou. O que falta, muitas vezes, é estrutura.

Água não pode continuar sendo tratada como favor. Cisterna, poço, barragem subterrânea, irrigação eficiente, recuperação de nascentes e armazenamento de água não são presentes concedidos por alguma autoridade generosa. São instrumentos de produção, segurança alimentar e permanência das famílias no campo.

A própria pesquisa agropecuária demonstra que tecnologias de convivência com o Semiárido podem conservar a umidade do solo, ampliar a capacidade produtiva e reduzir a vulnerabilidade diante das secas. O(a) agricultor(a) não quer desafiar a natureza. Quer condições para trabalhar com ela.

Não basta anunciar crédito quando o dinheiro permanece distante de quem mais precisa. O Pronaf oferece linhas voltadas à agricultura familiar, mas o acesso ainda depende de documentação, regularidade fundiária, elaboração de projetos, orientação técnica e capacidade de atravessar uma burocracia que, para muitos trabalhadores, parece uma cerca alta demais. Crédito que não chega no tempo do plantio transforma-se em estatística, não em produção.

Assistência técnica também não pode aparecer apenas quando existe projeto, fotografia ou solenidade. O(a) agricultor(a) precisa de acompanhamento continuado. Alguém que ajude a escolher a cultura adequada, analisar o solo, usar melhor a água, combater pragas, organizar custos, melhorar a produção e alcançar os mercados. Sem conhecimento técnico acessível, o pequeno produtor continua obrigado a aprender pela tentativa, pagando sozinho por cada erro.

Existem iniciativas importantes em andamento. Em 2026, projetos anunciados pelo Governo do Piauí preveem atender 217 associações em sete territórios, enquanto o edital Pilares II destinou R$ 33 milhões ao fortalecimento de cooperativas e organizações da agricultura familiar. São ações necessárias. Mas toda política pública precisa responder a simples pergunta se chegou à ponta. Chegou ao agricultor mais distante? Chegou às mulheres rurais? Chegou aos jovens que pensam em abandonar o campo? Chegou às comunidades tradicionais? Chegou antes que a família desistisse?

O programa anunciado não mata a sede. Recurso autorizado não recupera automaticamente a estrada. Equipamento entregue sem manutenção pode virar sucata. Crédito sem orientação pode virar dívida. Associação criada apenas para cumprir exigência burocrática não se transforma necessariamente em organização produtiva.

A política agrícola precisa ser medida menos pela quantidade de cerimônias e mais pela quantidade de famílias que conseguem produzir, vender e viver dignamente. É preciso garantir mercado. Prefeituras e governos compram alimentos para escolas, hospitais e outros equipamentos públicos. Parte das compras pode fortalecer diretamente os produtores locais, fazer o dinheiro circular dentro dos municípios e oferecer alimentos mais frescos à população.

Não existe sentido em transportar de longe o que o(a) agricultor(a) da própria cidade pode produzir. Valorizar o campo é comprar do campo. É assegurar estradas transitáveis, energia, internet, escolas, saúde, transporte e segurança. É compreender que sucessão rural não acontece por decreto. Para que os jovens permaneçam nas comunidades, o campo precisa representar possibilidade de futuro, e não condenação à pobreza.

Nenhum filho de agricultor deveria precisar abandonar sua origem para ter o direito de sonhar. É preciso reconhecer a mulher agricultora. Muitas trabalham no plantio, na colheita, na criação dos animais, no beneficiamento dos alimentos, na administração da casa e na comercialização da produção. Ainda assim, parte do trabalho continua sendo tratado como simples “ajuda”. Mas não é ajuda. É trabalho, produção e economia.

O Dia do(a) Agricultor(a) será realmente importante quando a homenagem vier acompanhada de políticas permanentes. Quando a água chegar antes da seca, o crédito chegar antes do plantio, a assistência técnica chegar antes da perda, a estrada estiver pronta antes da colheita e o comprador aparecer antes que o alimento estrague.

Quem vive no campo não pede piedade. Pede respeito a quem planta sem controlar o céu, deposita sementes na terra e espera que natureza, trabalho e política pública façam, cada qual, a sua parte.

Hoje é dia de agradecer. Amanhã, porém, o(a) agricultor(a) estará novamente diante da roça, do sol, das contas e das incertezas. É exatamente amanhã que o poder público deve provar se a homenagem era compromisso ou apenas mais uma bonita postagem no calendário.

Quem coloca comida na mesa do país não pode continuar recebendo abandono como pagamento. Quem alimenta o Brasil merece, antes de qualquer aplauso, condições dignas para continuar plantando. Gratidão por tanta produção!

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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