Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

A esperança joga no ataque

Sob as bênçãos de São João, ao som da sanfona nos arraiais e na cadência do alujá, o Brasil entra em campo carregando alegria, talento e fé que calçam chuteiras revestidas de identidade.

Por Willian Tito

24 de junho de 2026 às 16:19 ▪ Atualizado há 1 hora


Em nenhum lugar do mundo um jogo consegue alterar tão profundamente a rotina nacional. O expediente rende menos. O relógio parece caminhar diferente. As ruas esvaziam. Os bares lotam. Os grupos de mensagens fervem. Os especialistas surgem aos milhões. O país inteiro vira técnico, preparador físico, comentarista, psicólogo esportivo e, em situações extremas, vidente.

Quando a Seleção Brasileira entra em campo, não entra sozinha. Entra junto uma parte da nossa história. Vem o menino descalço improvisando traves com chinelos à pelada no campinho de terra. Entra gol narrado no rádio do avô. No velho álbum de figurinhas. Até na rua interditada por duas pedras que, naquele momento, tornam-se um estádio internacional.

O futebol tem endereço fixo. Mora no Brasil. Está enfronhado no imaginário do povo brasileiro. Não nasceu aqui, mas foi onde encontrou seu habitat perfeito para florescer. Nós sempre tivemos uma relação especial com a invenção. Somos o povo que aprendeu a criar caminhos onde aparentemente não existiam estradas.

O futebol chegou como esporte. O Brasil o transformou em linguagem. A referência é Pelé, que encantou o planeta ainda menino. Mas antes dele já havia a ousadia criativa de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, transformando a bicicleta em obra de engenharia poética.

Depois veio Didi, que tratava a bola como quem assina uma carta de amor em campo aberto. A Folha Seca veio muito antes da Jabulani e seus efeitos impensáveis. E então surgiu Garrincha. Não existiu outro igual. Garrincha não driblava adversários. Driblava a lógica. Era como se Deus tivesse decidido contar uma piada e escolhido um campo de futebol para fazê-lo.

Então chegou Pelé. O futebol brasileiro deixou de ser apenas brasileiro. Tornou-se universal. Uma biblioteca completa de futebol em uma única pessoa. Até de goleiro tinha boa performance. Pelé fez algo raríssimo na história humana. Transformou talento em consenso. Reis costumam ser discutidos. O Rei do Futebol, não. Sua majestade foi reconhecida até pelos adversários.

Pelé não era apenas um jogador. Era uma hipótese científica. Demonstração prática de até onde um ser humano pode levar um talento quando encontra disciplina, inteligência e imaginação trabalhando juntas. Depois vieram os herdeiros. Romário, o baixinho que fazia gols de cabeça entre gigantes. Ronaldo Nazário parecia desafiar a física. Ronaldinho Gaúcho, o Bruxo, parecia desafiar a gravidade. Atropelavam defesas. Enlouqueciam zagueiros. Sorrindo, desmontavam sistemas táticos inteiros. Nosso futebol também é espetáculo.

Hoje, a chama continua acesa com Vinícius Júnior e a irreverência clássica dos grandes pontas que nasceram para entortar zagueiros. Endrick parece ter chegado ao futebol profissional antes mesmo de terminar de conversar com a adolescência. Rayan e Luiz Henrique representam a nova safra do país que nunca deixou de fabricar sonhos em formato de chuteira que calçam pés maravilhosos.

Seria impossível falar da alma futebolística brasileira sem reverenciar Marta. A maior de todas. A Rainha. Enquanto discutiam se mulheres poderiam jogar futebol, Marta resolveu mostrar ao mundo como se joga. Grandeza que dispensa explicações. Ela é a pura elegância. Dentro e fora do campo.

Ninguém duvida que o futebol ocupa espaço tão singular na identidade brasileira. Não tem classe social. Nem religião. Atravessa ideologias e gerações. É territórios onde o país consegue se reconhecer coletivamente.

E justamente hoje, 24 de junho, existe uma beleza adicional no encontro. As fogueiras de São João iluminam os arraiais e o Brasil entra em campo. Vamos encarar os Highlanders escoceses. Sem Rafinha. Do outro lado, um povo que aprendeu a transformar bola em técnica, com força e fôlego.

Que São João Batista ilumine o caminho das chuteiras brasileiras e que a fogueira acenda a coragem. Que os balões levem embora a ansiedade. Que o milho, a pamonha e o forró alimentem a esperança dos torcedores.

Já que o Brasil é especialista em sincretismos afetivos, vale recorrer também às forças ancestrais que habitam nossa memória afrocultural. Que Xangô seja a pedreira da defesa. Que seu Oxé corte os avanços adversários. Que o alujá marque o ritmo do meio-campo. Que a equipe encontre o compasso exato entre força e inteligência. Kawô Kabiessilê

Quando a Canarinho entra em campo, o brasileiro revela a curiosa vocação ecumênica. Reza para Deus. Acende vela para o santo. Faz promessa. Muda de lugar no sofá. Veste a camisa da sorte. Repete o ritual que funcionou em 2002. Negocia diretamente com todas as instâncias disponíveis do universo. Tudo em nome de um único objetivo. Abrir o caminho do gol.

O Brasil ama o futebol porque ele nos permite acreditar durante noventa minutos que a alegria ainda pode vencer por goleada. Em noite de festa de São João, a bola rola e a esperança de ouvir muitas vezes a palavra mais bonita do dicionário brasileiro vai junto. Gol!

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E nem falamos de Zagallo, Amarildo, Rivelino, Tostão, Carlos Alberto, Ademir da Guia, Zico, Sócrates, Júnior, Nelinho, Éder, Reinaldo, Careca, Rivaldo, Bebeto, Roberto Carlos, entre outros destaques da seleção. Sem esquecer goleiros como Barbosa, Veludo, Gilmar, Félix, Leão, Carlos, Acácio, Taffarel, Dida, Zetti. As ex-jogadoras Roseli, Andréia, Maravilha, Meg, Pretinha, Sissi, Formiga, Bárbara, Cristiane. E sempre vai ficar algum ou alguma craque de fora que já nos deu muitos momentos de alegria.  

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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