Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

A tela mudou

A televisão saiu da sala, entrou no bolso, atravessou o streaming e encontrou novos caminhos para permanecer presente numa sociedade que nunca consumiu tantas imagens.

Por Willian Tito

11 de agosto de 2026 às 20:58 ▪ Atualizado há 33 minutos


A televisão já foi um móvel. Tinha lugar certo na sala, às vezes com toalhinha por cima, antena que exigia alguma habilidade doméstica e uma família inteira organizada diante dela. Quem queria assistir tinha que chegar na hora.

O mundo mudou. Hoje, a televisão cabe no bolso. A tela ficou menor, depois maior, depois portátil, depois múltipla. O programa que antes começava às oito pode ser visto às onze, amanhã ou nunca. A audiência deixou de esperar. Escolhe, pula, acelera, comenta, grava, compartilha.

Neste 11 de agosto, tradicionalmente lembrado como Dia da Televisão por coincidir com a celebração de Santa Clara de Assis, padroeira do meio, vale pensar menos na caixa e mais na linguagem. Santa Clara foi proclamada padroeira celestial da televisão por Pio XII em 1958. A tradição religiosa conta que, impossibilitada pela doença de participar presencialmente de uma celebração, teria acompanhado à distância aquilo que acontecia na igreja.

Uma metáfora perfeita. Ver de longe o que acontece em outro lugar. Foi o que a televisão entregou ao século XX. No Brasil, começou oficialmente em 18 de setembro de 1950, com a TV Tupi, primeira emissora do país e da América Latina. 

Em poucas décadas, transformou costumes, lançou artistas, criou ídolos, acompanhou tragédias, campeonatos, eleições, novelas, festivais, guerras, carnavais e chegadas à Lua. Mostrou o Brasil e ajudou o Brasil a se enxergar. Nem sempre por inteiro.

Durante muito tempo, alguns rostos apareceram demais e outros quase nunca. Alguns sotaques foram considerados nacionais. Outros, regionais. Algumas histórias ocuparam o horário nobre. Outras precisaram bater à porta.

Discutir televisão é discutir representação. Quem aparece? Quem fala? Quem é protagonista? Quem só entra na história para confirmar o estereótipo que escreveram para ele? Perguntas que não envelhecem. Apenas migram para outras telas.

A televisão disputa a atenção com redes sociais, plataformas de vídeo, podcasts, videocasts e serviços de streaming. Todos aprenderam alguma coisa com ela. Enquadramento, edição, roteiro, apresentador, entrevista, intervalo, suspense, episódio, temporada. Até quem anuncia a morte da televisão costuma fazê-lo... em vídeo.

Há uma bela ironia nisso. A tecnologia muda. A vontade humana permanece. Queremos histórias. Queremos saber o que está acontecendo, rir juntos de alguma coisa, assistir ao gol novamente e responder alguém do outro lado dizendo “Boa noite!”.

A televisão do futuro não será como a conhecemos. Tudo bem. O rádio também não morreu quando chegou a TV. O cinema não morreu quando chegou o streaming. O livro sobreviveu ao rádio, à televisão, à internet e à profecia recorrente de seu próprio funeral. Os meios raramente desaparecem. Aprendem novos truques para continuar contando histórias.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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