Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
Lugar de Fala

A santa enxergava quem ninguém via

Neste 13 de agosto, celebrar Santa Dulce é também recordar a mulher que fez da própria vida uma resposta concreta à pobreza, ao abandono e à falta de cuidado com o próximo.

Por Willian Tito

13 de agosto de 2026 às 21:06 ▪ Atualizado há 7 horas


Hoje, 13 de agosto, é dia de Santa Dulce dos Pobres. Para quem é devoto, como eu, não é apenas lembrança no calendário. É dia de afeto, fé e gratidão. Dia de olhar para a santa e recordar a grandeza que nasceu tão simples e tão difícil de praticar. O foco no outro.

Santa Dulce viu quem muita gente preferia não enxergar. Viu o pobre, o doente, o abandonado, o faminto. Viu pessoas onde a sociedade muitas vezes via problema. E não ficou apenas comovida. Fez alguma coisa. É uma das razões de minha devoção. Dulce transformou oração em atitude. Rezava e caminhava. Pedia e repartia. Batida uma porta, procurava outra.

Sem espaço para acolher os doentes, improvisou. Onde havia quase nada, começou a construir tudo. O pequeno galinheiro que serviu de abrigo tornou-se símbolo de uma obra gigantesca. A mulher franzina mostrou que a força não precisa fazer barulho.

Sua fé tinha mãos. Tinha pés e pressa diante da dor alheia. Santa Dulce não precisava perguntar de onde alguém vinha, em quem acreditava ou quanto tinha no bolso. Bastava saber que a pessoa precisava. Uma das maiores lições que ela nos deixou.

Fé sem humanidade corre o risco de virar apenas discurso. Dulce fez diferente. Sua religião estava na comida servida, no remédio conseguido, na cama oferecida, no abraço, na palavra, na insistência e na porta aberta. Foi chamada de Anjo Bom da Bahia. Mas sua obra atravessou o estado onde nasceu. Tornou-se patrimônio afetivo do Brasil e referência para todos que acreditam que cuidar do próximo também é uma maneira de encontrar Deus.

Eu tenho por Santa Dulce uma devoção feita de admiração e proximidade. Gosto de pensar nela não como uma santa distante, colocada num lugar inalcançável, mas como a mulher que andava depressa porque havia sempre alguém esperando.

Uma santa ocupada do cotidiano. Uma santa brasileira. Nossa amada Santa Dulce. Neste 13 de agosto, mais do que pedir, talvez seja também dia de agradecer e de fazer uma oração que nos comprometa.

Que Santa Dulce interceda por nós. Mas que também nos ensine a olhar como ela olhava. Porque o mundo continua cheio de gente precisando de ajuda. Um dos maiores milagres que precisamos é que a dor do outro nunca se torne uma coisa normal diante dos nossos olhos.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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