Por Willian Tito
16 de agosto de 2026 às 10:23 ▪ Atualizado há 4 horas
Aos 174 anos perdeu o jeitinho de menina. Já conhece alguma coisa sobre crescimento, perdas, escolhas, contradições e permanências. Sua maior virtude foi amadurecer sem perder o viço, sem ameaçar sua juventude. Continua inquieta, sedutora, imperfeita, cheia de vontade de ser.
A cidade que nasceu entre dois rios e aprendeu a conviver com o sol. O Poti e o Parnaíba são parte de sua persona. Assim como a sombra das mangueiras, a cadeira na calçada, a primeira chuva no chão quente, a conversa que atravessa o muro e aquela mudança quase milagrosa de humor quando a tarde começa a cair.
Teresina tem alma de quintal e corpo de capital. Cresceu recebendo gente de todo o Piauí. Gente que veio estudar, trabalhar, cuidar da saúde, procurar oportunidade ou simplesmente recomeçar. Muitos chegaram dizendo de onde vinham e, sem perceber, passaram a dizer também que são daqui. Há um pedaço de cada município dentro da cidade. Teresina não deixa de ser familiar mesmo quando tenta ser metrópole.
Mas aniversário não deve servir apenas para elogiar. Amar a cidade também é sentir quando ela dói. E dói demais observar o patrimônio histórico entregue ao abandono. Magoa passar diante de residências que sobreviveram ao tempo, mas podem não sobreviver ao descaso. O antigo casarão do Barão de Gurguéia, que já abrigou a Casa da Cultura, é uma das feridas. Vê-lo abandonado é mais que lamentável. É um insulto à memória dos teresinenses.
Quanta honra ter a minha primeira oficina profissional de teatro, ministrada pelo mestre carioca, Hamílton Vaz Pereira, na então sede da Cultura piauiense. Estava tudo estalando de novo. “Semelhante aos deuses” revelou uma geração que atuaria fortalecida pelo conhecimento mediado entre suas grossas paredes. Lá pelo comecinho dos anos 90 do último século do milênio passado. Fiquei e estou tocado eternamente pela linguagem teatral, ministrada por um dos gigantes do teatro brasileiro. Aquela legítima lenda viva, que deve retornar brevemente à The a partilhar sua arte.
Patrimônio não é parede velha. É uma forma de saber quem fomos para decidir quem queremos ser. Cidade que derruba ou deixa morrer seus marcos vai ficando parecida com qualquer outra. Perde sotaque arquitetônico, memória, referência, identidade. Modernizar não pode significar apagar. Uma cidade verdadeiramente moderna sabe levar seus antigos afetos para o futuro.
A cultura também clama o olhar. Quem viu Teresina em outros momentos sabe da extraordinária pulsação artística que esta cidade já foi capaz de produzir. A Fundação Municipal de Cultura era plural. Havia festivais de vídeo, teatro, dança e circulação de diferentes linguagens. Intensa atividade cultural acontecia pelos quatro cantos, formando público, promovendo encontros, impulsionando descobertas e gerando inquietação.
Jamais diminuir a música. Muito menos os grandes eventos. Música é uma das nossas grandes forças. Mas cultura não termina quando o amplificador é desligado. Música é cultura. Teatro, dança, cinema, literatura, artes visuais, fotografia, circo, cultura popular, audiovisual também são. Política cultural não pode significar apenas palco, banda e calendário festivo.
Quem conheceu a Teresina culturalmente fervilhante lamenta ver tanto potencial ainda esperando oportunidade. Os artistas não param. O(a) criador(a) teresinense parece trazer de fábrica o DNA da resistência. É safo. Quando falta palco, inventa um. Quando falta dinheiro, cria solução. Quando não há galeria, ocupa parede. Quando não há sala, ensaia no quintal. Quando uma porta fecha, procura janela, fresta, corredor.
Não deveríamos romantizar a precariedade. Artista precisa de política pública, estrutura, circulação, formação e reconhecimento. Mas é impossível não admirar a capacidade de continuar. E ela continua apesar do calor extremo, das árvores que perdemos, dos rios ainda insuficientemente incorporados à vida urbana, das desigualdades, do Centro que pede socorro, da memória arquitetônica ameaçada e de tantas oportunidades desperdiçadas.
A enorme potência em seus bairros, universidades, hospitais, mercados, cozinhas, palcos, ateliês, escolas, ruas e periferias não é canalizada a beneficiar a todos. Há talento demais por aqui. A cidade criativa espera ser mais bem cuidada.
Aos 174 anos, Teresina já não precisa mais provar que é grande. Precisa decidir que grande cidade deseja ser. Mais arborizada. Que eduque e compreenda que sombra é infraestrutura. Que trate seus rios como patrimônio e devolva vida ao Centro. Que proteja seus casarões e enxergue cultura como política permanente. Que reconheça a periferia como território de invenção e ofereça às próximas gerações algo além de concreto e asfalto.
Não! Não é mais menina. Tem cicatrizes, algumas rugas precoces e histórias que não deveria ter deixado desaparecer. Mas conserva algo que o tempo ainda não conseguiu levar. Tem juventude. Tem invenção. Gente que insiste. Rio correndo. Árvore resistindo e uma capacidade teimosa de acreditar que amanhã pode ser melhor.
Uma cidade jovem sempre tem surpresas. Teresina quando parece seca, surpreende com sombra. Se parece cansada, inventa movimento. Quando parece esquecer, alguém aparece para lembrar. E quando tudo está árido demais, basta olhar com atenção. Precisamos recuperar o título de Cidade Verde, mas Teresina ainda está cheia de esperança, como os ipês que desabrocham e tingem o sertão com suas flores.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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