Por Willian Tito
24 de julho de 2026 às 20:47 ▪ Atualizado há 1 hora
A campanha eleitoral ainda não começou oficialmente. Mas tente explicar isso ao celular. Na tela, ela já está em pleno funcionamento. Há pré-candidatos inaugurando obras, visitando mercados, abraçando crianças, tomando café em cozinhas humildes, dançando, cozinhando, rezando, correndo, chorando e transformando qualquer acontecimento, inclusive os mais íntimos, em conteúdo político.
A propaganda eleitoral geral, inclusive na internet, será permitida a partir de 16 de agosto. O primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro e o eventual segundo turno, no dia 25. Até lá, a legislação tenta separar pré-campanha de campanha. No mundo digital a fronteira parece cada vez mais fina.
A eleição deixou de ser temporada. Tornou-se estado permanente. Governar também passou a significar gravar, editar, postar, impulsionar e disputar atenção. Quem ocupa mandato procura demonstrar serviço. Quem deseja ocupá-lo tenta construir presença, reconhecimento e proximidade. O velho palanque não foi desmontado. Apenas coube dentro do telefone.
A democracia precisa da comunicação. Mas quando a disputa deixa de apresentar ideias e passa a fabricar realidades, aí fica confuso. As eleições de 2026 encontrarão a inteligência artificial mais acessível, rápida e convincente. Já é possível reproduzir vozes, movimentar rostos, alterar falas e produzir vídeos de pessoas dizendo coisas que jamais disseram. Falsificação não chega mais com aparência de falsificação. Pode vir com imagem perfeita, entonação familiar e indignação sob medida. É a mentira vestida de prova.
Uma deepfake pode colocar uma frase absurda na boca de um candidato, simular confissão, inventar apoio, forjar desistência ou criar escândalo poucas horas antes da votação. Quando a perícia comprovar a fraude, o conteúdo já poderá ter atravessado milhares de grupos, perfis e consciências. A mentira viaja de avião. O desmentido ainda procura a mala.
O Tribunal Superior Eleitoral determinou que conteúdos criados ou significativamente alterados por inteligência artificial sejam identificados de forma explícita, destacada e acessível. Também proibiu a publicação, a republicação e o impulsionamento de novos conteúdos sintéticos nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação. É a tentativa necessária de proteger a liberdade de escolha diante da tecnologia capaz de adulterar até o que os olhos e os ouvidos juram ter testemunhado.
Mas nenhuma resolução substituirá inteiramente a responsabilidade de candidatos, partidos, equipes, plataformas e eleitores. A desinformação não é apenas desvio técnico. É decisão moral. Quem encomenda vídeo falso sabe o que está fazendo. Espalhar montagem sabendo que ela é fraudulenta paga pela consciência. Quem transforma mentira em estratégia revela mais do que desespero eleitoral. Emerge sua compreensão do poder.
A forma como se ganha ajuda a prever a forma como se governará. Quem falsifica uma voz para conquistar votos poderá maquiar números para prestar contas. Quem destrói reputações para subir ao palanque dificilmente chegará ao gabinete tomado por um repentino compromisso com a verdade. Quem trata o eleitor como alvo de manipulação tende a tratá-lo, depois da eleição, como simples número de pesquisa. Os métodos não ficam para trás quando termina a campanha. Eles entram no mandato.
Outro risco. Quanto mais as pessoas souberem que vídeos e áudios podem ser falsificados, mais fácil será tentar negar conteúdos verdadeiros. Uma gravação real pode ser chamada de inteligência artificial. A fala autêntica pode ser rejeitada como montagem. A tecnologia que fabrica a mentira também pode ser usada como esconderijo para quem foi alcançado pela verdade.
Haverá eleição que será necessário perguntar não apenas “quem disse?”, mas “isso foi realmente dito?”. Ao lado dessa guerra informacional, haverá a velha desigualdade econômica, agora modernizada. As supercampanhas contarão com mega produtoras, equipes jurídicas, especialistas em dados, monitoramento permanente, influenciadores, pesquisas, impulsionamento, estúdios, drones, editores e capacidade para transformar qualquer movimento em dezenas de peças digitais.
O dinheiro não compra necessariamente uma boa candidatura. Compra repetição, frequência, acabamento e alcance. Compra a sensação de que determinado nome está em todos os lugares. E, nas redes, parecer grande já é parte da estratégia para se tornar grande.
As campanhas de baixo orçamento, estruturas reduzidas e candidaturas que precisam fazer muito com pouco ou quase nada. Terão de substituir a abundância financeira por criatividade, organização, presença territorial, militância, identidade e verdade. Podem surgir cartazes artesanais, vídeos gravados com simplicidade, músicas feitas com poucos instrumentos, reuniões pequenas, visitas comunitárias e conteúdos sem o brilho industrial das grandes estruturas, mas carregados de sentido.
Não se deve romantizar a falta de recursos. A criatividade diminui distâncias, mas não extingue desigualdades. A ideia brilhante precisa circular. Uma mensagem verdadeira precisa alcançar as pessoas. Campanhas pequenas também necessitam de planejamento, estratégia e profissionais capazes de transformar limitações em linguagem.
Criatividade não é improvisação permanente. É inteligência aplicada à escassez. A própria inteligência artificial pode ajudar gerando legendas, ampliando acessibilidade, organizando dados, facilitando pesquisas, melhorando processos e permitindo que equipes reduzidas realizem tarefas antes restritas às grandes estruturas.
Uma coisa é utilizar a inteligência artificial para comunicar melhor. Outra é empregá-la para enganar. Uma coisa é corrigir um áudio. Outra é fabricar uma voz. Uma coisa é melhorar a apresentação de uma proposta. Outra é inventar uma “realidade” para destruir um adversário.
A campanha que se aproxima será uma disputa por votos, mas também pela própria percepção da verdade. O TSE ampliou em julho a cooperação com plataformas digitais e empresas de inteligência artificial para enfrentar conteúdos falsos, manipulados e comportamentos coordenados fraudulentos. Ainda assim, nenhuma tecnologia de detecção será mais importante do que a sociedade menos apressada a compartilhar e mais disposta a verificar.
O eleitor precisa desconfiar do conteúdo que chega pronto demais para provocar ódio. Deve observar a origem, procurar outras fontes, ouvir a gravação inteira e resistir ao impulso de transformar indignação em encaminhamento automático. Nem tudo que viraliza nasceu espontaneamente. Nem toda multidão digital existe fora da tela. Nem toda popularidade é popular. Nem toda imagem é prova.
A inteligência artificial pode fabricar rosto, voz, abraço, declaração e até multidão. Pode simular emoção, entusiasmo e proximidade. O que ainda não consegue fabricar é caráter, que continua sendo muito importante verificar antes de escolher quem vai receber o poder. A forma como alguém chega ao cargo não desaparece depois da apuração.
*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.
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