Lugar de Fala

Coluna assinada por Willian Tito, jornalista, ator e redator. Cultura, teatro e diversidade social com sensibilidade e firmeza.
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Arqueologia da fé

A peregrinação de Helena pela Terra Santa ajudou a transformar narrativas religiosas em lugares concretos, preservados e reconhecidos por milhões de pessoas.

Por Willian Tito

18 de agosto de 2026 às 09:27 ▪ Atualizado há 45 minutos


O cristianismo nasceu perseguido, espalhado de boca em boca, celebrado em casas, catacumbas e pequenas comunidades. Quando Helena chegou à Terra Santa, no século IV, a fé cristã já atravessara fronteiras. Mas ainda faltava alguma coisa fundamental para uma religião que começava a assumir dimensão mundial. Memória.

Santa Helena, celebrada em 18 de agosto pela tradição católica ocidental, merece ser compreendida para além da imagem da mãe do imperador Constantino. Ela percebeu, mais de mil e seiscentos anos antes de falarmos em patrimônio histórico, que a memória também precisa de endereço.

Por volta de 326, já idosa e investida da dignidade de Augusta, percorreu a Palestina. Eusébio de Cesareia, praticamente contemporâneo aos acontecimentos, registra sua presença nos lugares associados à vida de Jesus e a relaciona diretamente à monumentalização de dois deles. Em Belém, ligada ao nascimento de Cristo. E o Monte das Oliveiras, associado à Ascensão.

Não era apenas erguer paredes. Era marcar território. Um lugar transmitido oralmente durante gerações passava a ganhar uma construção, peregrinos, celebrações, referências permanentes. A memória deixava de depender exclusivamente da palavra e passava também a morar na pedra. O que ajuda a compreender a dimensão da iniciativa.

A Basílica da Natividade, em Belém, e o complexo cristão do Monte das Oliveiras transformaram episódios das Escrituras em pontos concretos de peregrinação. O cristianismo começava a construir a verdadeira geografia da fé. Estudos históricos sobre a formação da Terra Santa cristã mostram a paisagem sagrada foi sendo configurada ao longo do século IV, quando lugares ligados à narrativa bíblica passaram a ser identificados, monumentalizados e incorporados às práticas dos peregrinos.

Jerusalém completa o grande triângulo simbólico. No lugar tradicionalmente associado à crucificação, sepultamento e ressurreição de Jesus surgiu o monumental complexo do Santo Sepulcro. É importante separar história e tradição. A documentação de Eusébio atribui diretamente a Constantino, em articulação com o bispo Macário de Jerusalém, a ordem para construir a igreja sobre o lugar então identificado como o túmulo de Cristo. O imperador determinou inclusive gastos, materiais e monumentalidade extraordinários para o edifício.

Já a célebre história de Helena encontrando a Vera Cruz, os restos da cruz em que Cristo teria sido crucificado, consolida-se em relatos posteriores. O primeiro grande cronista contemporâneo de Helena, Eusébio, conta a peregrinação detalhadamente, mas não registra a descoberta da Cruz por ela. A associação aparece e ganha forma nas décadas seguintes, tornando-se uma das mais poderosas tradições do cristianismo. Isso não diminui Helena.

Mesmo deixando as relíquias no campo em que história, tradição e fé se encontram, permanece documentado algo extraordinário. Uma mulher de quase 80 anos percorreu o Oriente do Império ajudando a localizar, valorizar e monumentalizar referências fundamentais da memória cristã. Ela compreendia algo bastante moderno. Quando um lugar desaparece, parte da história pode desaparecer junto.

Hoje falamos em sítios históricos, patrimônio material, preservação, memória coletiva. Seria anacrônico chamar Helena simplesmente de arqueóloga no sentido científico atual. Ainda assim, a comparação é inevitável. Ela procurava lugares, investigava tradições, reconhecia espaços considerados sagrados e mobilizava o poder econômico do Império para transformá-los em marcos duradouros.

Outra faceta de Helena merece aparecer. Eusébio relata que, durante sua passagem pelas províncias orientais, ela distribuía recursos aos pobres, fornecia roupas, ajudava pessoas submetidas ao trabalho nas minas, intervinha por prisioneiros e exilados e fazia doações inclusive às pequenas igrejas. A atuação não se limitou à construção de monumentos. Havia pedra, mas havia gente.

Uma das camadas mais bonitas da história mostra que, enquanto o filho Constantino oferecia ao cristianismo uma nova condição política dentro do Império Romano, Helena ajudava a construir algo diferente. Consolidava a memória visível da fé.

Belém passou a ter um grande marco. O Monte das Oliveiras ganhou outro. Jerusalém se consolidou como centro de peregrinação. Relíquias passaram a alimentar devoções. Caminhos começaram a ser percorridos por pessoas vindas de lugares cada vez mais distantes. Algumas décadas depois, peregrinos já descreviam ritos em Jerusalém envolvendo lugares e objetos associados diretamente à narrativa de Cristo.

Helena não criou o cristianismo nem foi responsável sozinha por sua expansão. Seria exagero atribuir a uma pessoa o processo histórico daquela dimensão. Mas ela ajudou a fazer algo decisivo. Deu chão à lembrança. Transformou tradição em lugares que podiam ser vistos, percorridos e transmitidos. A fé que viajara durante três séculos principalmente pela palavra começava também a viajar pelos caminhos.

Religiões também são feitas de memória, que precisa ser cuidada. Dezessete séculos depois, milhões de pessoas continuam chegando a Belém, Jerusalém e ao Monte das Oliveiras procurando os mesmos pontos que aquela senhora percorreu quando o cristianismo ainda dava seus primeiros passos como religião de dimensão mundial.

Helena ajudou, conscientemente, a preservar referências que atravessaram impérios, guerras e séculos para chegar até nós.

*** Texto escrito por colaborador externo. As opiniões nele contidas não refletem, necessariamente, a opinião do veículo.




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