Hoje, 21 de setembro, o calendário parece ter sido escrito para Elvira Raulino.
Na data que durante décadas o rádio brasileiro celebrou como Dia do Radialista, uma das mulheres mais importantes da história da comunicação piauiense completa 80 anos. A coincidência é tão perfeita que parece roteiro. Elvira nasceu em 21 de setembro de 1946 e fez da voz, da notícia, da curiosidade, da presença e de uma impressionante capacidade de estabelecer relações matéria-prima de uma vida inteira.
Oitenta anos de Elvira Raulino significam percorrer boa parte da própria história da comunicação moderna no Piauí. Rádio, jornal, televisão, publicidade, colunismo social, entretenimento, turismo, política, gestão pública, empreendedorismo. Em quase todos os lugares, chegou quando ainda havia poucas mulheres e em muitos deles foi pioneira.
Chegou cedo. Muito cedo. Uma adolescente, por volta dos 13 anos, entrou no rádio. O que hoje poderia parecer precocidade profissional, tinha outro peso no final dos anos 1950 e início dos 1960. Rádio não era exatamente lugar adequado para uma “moça de família”. Elvira encontrou uma solução muito própria ao problema. Adotou o pseudônimo Márcia Beatriz e falou assim mesmo. Antes de ser conhecida pelo próprio nome, precisou inventar outro para poder usar a própria voz. Difícil encontrar metáfora melhor para a história das mulheres na comunicação.
Há vários trabalhos sobre ela. Registram via da Universidade Federal do Piauí sua passagem pela Rádio Pioneira e, depois, pela Rádio Clube e Rádio Difusora. Também documentam o início da carreira nos jornais, passando por O Compasso, Folha da Manhã, O Dia e O Estado. Em O Dia, sua presença se estendeu por décadas e atravessou diferentes fases do próprio jornal.
Arimathea Tito Filho a chamou de Papisa do Colunismo Social. O título pegou. Mas corre o risco de ficar pequeno. Elvira fez colunismo social quando a coluna social era muito mais do que fotografia de festa. Os espaços funcionavam como rede social impressa da cidade que ainda conversava pelo jornal. Ali estavam os casamentos, aniversários, viagens e vestidos, evidentemente, mas também negócios, comportamento, problemas urbanos, política, turismo, tendências, cultura e personagens.
Pesquisa de mestrado defendida na UFPI em 2024 transformou a produção de Elvira em objeto acadêmico, estudando a representação das mulheres em suas colunas de O Dia. Um belo sinal da passagem do tempo. O que um dia foi notícia ligeira agora é fonte para compreender a sociedade piauiense. Elvira não apenas escreveu sobre seu tempo. Ela ajuda a explicá-lo.
Sua inquietação ultrapassou cedo as fronteiras do Piauí. Quando ainda não havia televisão instalada em Teresina, Elvira já fazia televisão no Maranhão. Participava da TV Difusora, em São Luís, e produzia conteúdos envolvendo personalidades piauienses. Depois, com a televisão finalmente implantada no estado, ocupou os estúdios locais. Foram vários formatos de programas. Auditórios, entrevistas, variedades. Elvira repórter. Apresentadora. A mulher diante das câmeras quando a câmera ainda era novidade por estas bandas.
Elvira apareceu ao lado de uma das figuras mais extraordinárias da televisão brasileira. A lenda Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Foi jurada de programas do Velho Guerreiro, atravessando aquele universo de buzinas, calouros, bacalhaus, chacretes, fantasias e uma televisão que parecia caber inteira dentro de um carnaval. Não deixa de ser curioso. Havia alguma coisa de Chacrinha em Elvira e vice-versa. Era visível o quanto se admiravam pelo mútuo tratamento carinhoso. Ambos entenderam cedo que comunicação era muito mais que transmitir. É ocupar a cena. Elvira ocupou.
Muito antes da palavra “empoderamento” frequentar seminários, campanhas publicitárias e legendas de redes sociais, Elvira simplesmente fazia. Jogou futebol. Manteve forte ligação com equipes femininas numa época em que o Brasil impunha restrições oficiais à prática de determinados esportes pelas mulheres. Criou fã-clube de Elvis Presley. Apoiou os primeiros grupos de rock locais. Mexeu com moda. Promoveu concursos. Produziu festas. Fez publicidade. Tornou-se empresária. Viajou. Participou da vida política. Administrou. Um verdadeiro furacão. Experimentou praticamente todos os lugares onde pudesse haver notícia, gente, novidade ou movimento.
A velha Teresina provavelmente levantou mais de uma sobrancelha para aquela mulher inquieta. Elvira ignorou qualquer adversidade e continuou andando. É uma boa chave para compreendê-la. Ela não pediu licença ao tempo. Foi entrando.
A política partidária entrou na história. Candidatou-se à Câmara Municipal de Teresina em 1970 e novamente em 1976, num período em que candidaturas femininas eram raríssimas. Participou da organização de mulheres na ARENA e, anos depois, chegaria à Prefeitura de Altos, eleita no pleito de 2000. Sua trajetória política, como quase tudo em sua vida, não cabe confortavelmente em classificações retrospectivas.
Um episódio marcante em 1983. Depois da manifestação no rádio criticando a dependência econômica brasileira em relação ao Fundo Monetário Internacional e aos bancos estrangeiros, Elvira acabou despertando a atenção do sistema de informações do regime militar. A mulher que havia militado em partidos ligados ao governo entrou no radar do próprio aparato de vigilância estatal.
Existe um capítulo particularmente precioso nesta história. A Rádio São José dos Altos. As transmissões experimentais começaram em agosto de 1987. A inauguração oficial aconteceu justamente num 21 de setembro, aniversário de Elvira, transformado numa enorme festa popular em Altos. A emissora passou a ocupar uma faixa do dial e, principalmente, um pedaço importante da memória afetiva da região. Ela conseguia trazer as principais atrações da música brasileira para apresentações em praça pública. Celebrações apoteóticas. Inesquecíveis.
Elvira montou um grande time de comunicadores. Nesse ponto, a coluna deixa de contar parte da história por pesquisa. Eu estava lá. Fiz parte de um timaço. Na Rádio São José dos Altos, apresentei o Altos Domingos, programa de variedades que animava as manhãs de domingo. Era rádio como rádio deve ser. Sempre próximo, vivo, espontâneo, com informação, música, conversa e a capacidade de transformar voz que sai de estúdio em companhia dentro da casa de alguém.
Trabalhar na emissora criada por Elvira permitiu perceber que biografias nem sempre conseguem registrar. Ela formava ambientes. Articulava. Juntava pessoas. Descobria talentos. Colocava gente para fazer. Comunicação também é isso. A grande comunicadora não apenas brilhava diante do microfone. Ela colaborou para ativar outros microfones. A São José foi isso. Em 2009, o Senado Federal registrava os 22 anos da emissora, destacando o serviço prestado a Altos e a toda a região alcançada pelo sinal. Para mim, foi capítulo dourado que tem som, memória de estúdio, domingo, presentes da roça que chegavam dos ouvintes. Voltava com abóboras, quiabo, feijão, milho, muita manga. Nunca voltava de mãos vazias.
Quando ela fez 70, a história novamente nos aproximou. Tony Trindade me convocou para escrever o texto do documentário preparado à celebração. Eu escrevi. Tony gravou. A voz era dele. As palavras eram minhas. A história era dela.
Agora, uma década depois, cá estamos outra vez. Num grupo de comunicação do Tony, estou eu escrevendo uma coluna sobre os 80 anos de nossa Musa do Rádio Piauí. Certos encontros obedecem a um curioso relógio afetivo. A vida anda, as gerações mudam, os equipamentos de comunicação desaparecem, surgem outros, o AM (Amplitude Modulada) vira lembrança, os jornais impressos encolhem, o telefone entra dentro da televisão e a televisão dentro do telefone.
Elvira permanece um personagem forte e instigante a quem escreve. Aos 70, ajudei a contar sua história num documentário. Aos 80, volto a ela com a singela homenagem. Fazendo o melhor, no meu entendimento, a uma comunicadora estelar. Continuar encontrando assunto em sua vida e repercutindo sua história.
A história de Elvira estaria incompleta sem a família. Com José Ronaib Oliveira, ligado ao futebol piauiense e também à comunicação pública, teve as filhas Beatriz, Sanmya Beatriz e Mara Beatriz. Vieram os netos. Depois, novas extensões da família na comunicação, organização de eventos, jornalismo, publicidade e vida pública. A carga hereditária deixa sinais de continuidade.
Mara, ainda adolescente, já escrevia coluna social e construiu posteriormente longa trajetória no cerimonial. Na geração seguinte, Maria Elvira Raulino de Oliveira Soares, neta da aniversariante, é jornalista, atua profissionalmente em comunicação e atualmente ocupa função na área de comunicação estatal. A genética deixou claros sinais.
Em torno de Elvira há filhos da convivência profissional e uma nova geração familiar para a qual microfone, câmera, texto, evento, imagem e notícia parecem idiomas que vêm do berço.
Hoje, Beatriz, Sanmya e Mara comandam a celebração dos 80 anos com Tertúlia Dançante no Clube dos Diários. Lugar que dialoga perfeitamente com a personagem. É um retorno simbólico à Teresina dos grandes encontros, do salão, da música, da conversa demorada, das pessoas se vendo pessoalmente. Costume antigo que nenhuma rede social conseguiu aperfeiçoar.
O Clube dos Diários recebe a mulher que ajudou a documentar o Piauí. Quando começou, uma menina precisava usar pseudônimo para trabalhar no rádio. Depois, a menina ocupou jornais. Entrou na televisão. Extrapolou o território. Chegou à televisão nacional. Viu filhos e netos tomarem seus próprios caminhos. E segue assistindo ao tamanho da história que construiu.
São oito décadas da mulher que testemunhou transformações profundas no lugar feminino na sociedade. Muitas vezes, não esperou que as transformações chegassem para começar a viver. Foi antes. Sua verdadeira condição sempre foi de espírito pioneiro. Algumas pessoas acompanham o tempo. Outras chegam um pouco adiantadas e obrigam o tempo a correr atrás.
A gente que faz e vive da comunicação, reconhece em algum ponto da trajetória a missão. Árdua. Espinhosa. Mas também com suas vantagens e benefícios. Mas tem um grupo muito menor de pessoas cuja própria vida acaba se confundindo com a história da comunicação do lugar. É o caso da Papisa. O tempo passou e minha admiração e respeito permanecem intactos.