O rádio passou a maior parte de sua história ensinando o mundo a imaginar. Agora ganhou câmeras.
Durante décadas, ninguém sabia como estava vestido o locutor. Nem se fazia careta, gesticulava, lia de óculos ou tinha derramado café na mesa. Bastavam voz, música, um ruído certo, a pausa bem colocada e extraordinária máquina de produzir imagens chamada imaginação. Cada ouvinte construía o próprio cenário.
Hoje, 25 de setembro, Dia Nacional do Rádio, a data foi incorporada oficialmente ao calendário brasileiro pela Lei nº 15.101, de 2025. Ainda se pergunta se o rádio vai sobreviver. Muitos observam no que ele está se transformando.
Morrer, ele já morreu muitas vezes. Morreria com a televisão. Depois, com o videoclipe. Morreria com o CD, com a internet, com o streaming, com o YouTube, com o podcast, com o Spotify, com as redes sociais. Deve ser um dos defuntos mais ativos da história da comunicação.
Mas houve um tempo em que o rádio não disputava espaço. Ele era o espaço. Mandava e desmandava. Antes da televisão, reunia a família, dava a hora, anunciava produtos, apresentava cantores, transmitia futebol, fazia humor, dramaturgia e jornalismo. Criava estrelas. Uma voz conhecida podia adquirir dimensão quase familiar sem que boa parte dos ouvintes conhecesse o rosto de quem falava.
Quando a televisão chegou, não ocorreu simplesmente a substituição. Durante muito tempo, rádio e TV dividiram a centralidade da comunicação. E a televisão brasileira levou do rádio muito mais que profissionais. Levou linguagem, apresentadores, humoristas, cantores, programas de auditório, dramaturgia, publicidade e até uma maneira de conversar com o público.
O rádio criou a gramática da comunicação. Durante décadas ainda teve enorme poder para lançar música, consagrar artista, espalhar notícia, transformar bordão em linguagem popular e colocar um assunto na conversa da cidade. Fazer e acontecer o burburinho. Era comum os outros meios acompanharem aquilo que o rádio havia começado a dizer. Era a caixa de ressonância da sociedade.
No Piauí, a história começou longe da capital. A Rádio Educadora de Parnaíba entrou no ar em 1940, reconhecida pela pesquisa histórica como a primeira emissora piauiense. Teresina teria sua Rádio Difusora no ar em 1948. A Pioneira chegaria em 1962, acrescentando uma dimensão educativa, popular e comunitária ao veículo.
No tempo da amplitude modulada, as ondas avançavam distâncias enormes e as vozes entravam pelas casas. Muita coisa se perdia. A chiadeira levava parte da transmissão. Até que o som ficou bonito. Limpo.
Além do charme, a chegada da frequência modulada produziu uma pequena revolução estética. O som ganhou limpeza, definição, estéreo. A música ganhou ainda mais importância. Mudou a locução, as vinhetas, a publicidade e até a atitude de quem estava diante do microfone.
Em Teresina, a FM O Dia abriu o caminho no começo de 1981. A Poty FM entrou no ar em 1985, na frequência 94,1 MHz. Vieram a Cidade Verde, em 1988; a Antena 10, em 1989; a Mirante, no início dos anos 1990. A FM Cultura entrou no ar em 30 de dezembro de 1996. Está para fazer 30 anos. Entre outras experiências que fizeram do período um laboratório sonoro da cidade.
Tive o privilégio de viver por dentro boa parte dos anos dourados da frequência modulada. Há projeto de juntar e registrar a memória da rádio FM, no Piauí. Passei por O Dia, Poty, Antena 10, Cultura. O projeto artístico de duas delas passou por minhas mãos. Não assisti apenas à transformação. Trabalhei dentro dela.
Na Poty, cheguei em 1986. Em 17 de fevereiro completou 40 anos. O registro histórico guarda nomes de uma geração que ajudou a estabelecer a nova linguagem. Entre eles Garelli, Nivaldo Ribeiro, Tony Trindade, Anete Campos, Zé Lula, Marquinhos Silva, Arnaldo Ribeiro, Beto Rego, Amadeu Campos, Gil Balla, Jorge Canalito, César Fire e eu. A Antena 10 reuniu depois outra turma extraordinária e levou muito a sério a ideia de uma FM jovem, plástica, ágil e musicalmente inquieta.
Quem viveu aquilo sabe. Disco chegando era acontecimento. Disco mesmo. Vinil. CD importado podia ser notícia interna. Vinheta nova alterava a personalidade inteira da emissora. O programador tinha poder. O locutor anunciava a música e ajudava a dar importância a ela. Plástica era uma palavra fundamental. A identidade sonora da rádio precisava ser reconhecida antes mesmo de alguém dizer seu nome.
Hoje, quase tudo dentro de uma emissora mudou. Foi do vinil e agora está no algoritmo. O vinil virou CD, que virou arquivo, que entrou num sistema de automação. A fita de rolo, cartucheira e outros objetos que pareciam eternos acabaram em museus, depósitos ou coleções sentimentais.
A carta do ouvinte cedeu espaço ao telefone, que enfrentou o torpedo. Depois chegou o WhatsApp, carregando texto, áudio, vídeo, fotografia e a urgência nossa de cada minuto. Antes, alguém telefonava para pedir uma música. Hoje manda mensagem, emoji, áudio, fotografia do trânsito, vídeo da chuva e ainda reclama se não for respondido em três minutos.
O ouvinte deixou de ser ouvinte. Virou fonte, repórter eventual, comentarista, produtor de conteúdo e, algumas vezes, diretor informal de programação. Cargo para o qual ninguém se candidatou, mas muita gente exerce. É parceiro.
Então apareceu a câmera. O rádio, que durante um século aperfeiçoou a arte de ser ouvido, resolveu também ser visto. Câmeras estão nos estúdios. Programas passaram a ser transmitidos pelo YouTube, televisão, aplicativos e redes sociais. Cortes circulam no Instagram e no TikTok. Entrevistas que antes desapareciam no instante seguinte à transmissão agora permanecem disponíveis. O estúdio deixou de ser bastidor. O locutor, que podia trabalhar de bermuda porque ninguém estava vendo, precisa reconsiderar algumas escolhas profissionais.
Existe algo mais profundo acontecendo. Durante cem anos, o rádio disse “imagine”. Agora também diz, “olhe”. Acrescenta possibilidades, mas cobra um preço. A mulher belíssima inventada pela voz pode finalmente aparecer. O galã radiofônico corre o mesmo risco. A imaginação é sempre generosa.
Outra fronteira desapareceu. O rádio não tem mais dial. Rádio também era território. Emissora tinha transmissor, potência e área de cobertura. Depois de determinado ponto da estrada, começava o chiado. Mais alguns quilômetros e acabava a companhia. A internet destruiu a geografia. Uma rádio de Teresina pode ser ouvida em Lisboa, Tóquio ou Piripiri com a mesma facilidade. O velho aparelho receptor deixou de ser condição à existência do meio.
Rádio está no celular. Se estiver lendo pelo cel, olhe à parte superior. Clique e ouça a rádio Lupa1. Também está no computador, televisão, automóvel conectado, aplicativo, site. Pode aparecer em vídeo. Pode virar podcast. Pode ser recortado em trinta segundos e viajar pelas redes.
O rádio deixou de depender do rádio. O aparelho envelheceu. A linguagem, não. Os números ajudam a desmontar seu obituário permanente. O estudo Inside Audio 2025, da Kantar IBOPE Media, apontou alcance de 79% da população nas 13 grandes regiões metropolitanas pesquisadas, com média de 3 horas e 47 minutos diários de escuta entre os ouvintes. Considerando rádio, música, streaming e podcasts, 92% consumiram algum formato de áudio.
O ouvido permite algo que a tela não consegue exigir. Podemos ouvir dirigindo. Cozinhando. Caminhando. Trabalhando. Tomando banho. Arrumando a casa. Esperando alguém. Podemos ouvir no escuro. O áudio acompanha sem sequestrar completamente o corpo. A imagem não pode matar a imaginação
A chegada da imagem ao rádio precisa ser entendida menos como rendição à televisão e mais como expansão. A câmera acrescenta. Não deveria aprisionar. Quando um programa de rádio passa a depender de algo que precisa ser visto para ser compreendido, alguma coisa essencial se perdeu no caminho. O vídeo precisa enriquecer a experiência de quem olha sem empobrecer a experiência de quem apenas escuta. Será um dos grandes desafios da transformação.
O rádio ajuda a preservar o que a tecnologia não consegue melhorar porque já nasceu extraordinário. A intimidade da voz e suas delicadas nuances. O rádio sempre falou para milhares criando a impressão de falar para uma pessoa. Pouquíssimos meios conseguiram reproduzir a proeza. Por isso atravessa tantas supostas mortes.
Passou da válvula ao transistor, do AM ao FM, do analógico ao digital, do toca-discos ao algoritmo, do aparelho ao aplicativo e agora do invisível à imagem. Já foi o senhor absoluto da casa. Depois dividiu a sala com a televisão. Hoje cabe no bolso e circula por todas as telas. Mas continua entrando pelo mesmo lugar. O ouvido. Enquanto houver alguém dizendo alguma coisa que mereça ser escutada, haverá do outro lado alguém disposto a imaginar.