Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu a eleição de virada, mas vai governar o quarto mandato sem maioria no Congresso. A partir de 1º de fevereiro de 2027, o PL de Flávio Bolsonaro terá 121 deputados federais e 29 senadores, as maiores bancadas da nova legislatura nas duas Casas.
Com 99,89% das seções totalizadas pelo TSE, Lula somava 51,77% dos votos válidos, contra 48,23% de Flávio. Pela primeira vez, um candidato que terminou o primeiro turno atrás venceu a eleição presidencial. A virada, porém, não mexe na composição do Congresso. Ela foi definida em 4 de outubro, quando Flávio liderava a disputa.
A Câmara do PL
Os 121 deputados do PL formam a maior bancada de um único partido desde a redemocratização. Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), o número supera os 109 do PMDB em 1990. O partido cresceu 22 cadeiras em relação a 2022.
A federação PT, PCdoB e PV elegeu 88 deputados, sete a mais que em 2022. A federação União Brasil e PP ficou com 87 e perdeu 19 cadeiras. O PSD tem 43, o Republicanos 41, o MDB 36 e o Podemos 27. O Novo mais que triplicou a bancada e chegou a 10.
Pela classificação do DIAP, os partidos de direita somam 260 cadeiras, acima da maioria absoluta de 257. Esquerda e centro-esquerda têm 124. Centro e centro-direita ficam com 129.
Senado mais hostil
No Senado, a mudança foi ainda mais profunda. Segundo projeção da Agência Senado, com a renovação de 54 vagas o PL passa de 15 para 29 senadores e o PT terá 10. O PSD, que hoje tem 14, cai para 4.
Somados, os partidos de direita reúnem cerca de 48 dos 81 senadores. Esquerda e centro-esquerda ficam com 16. A renovação atingiu 74% das vagas em disputa, e nomes como Renan Calheiros, Ciro Nogueira e Randolfe Rodrigues não voltam à Casa.
A contagem ainda pode mudar. O registro de Deltan Dallagnol (Novo), eleito pelo Paraná, depende de julgamento no TSE. Além disso, senadores podem trocar de partido sem perder o mandato.
A conta que não fecha
Mesmo que todo o centro feche com o governo, esquerda, centro e centro-direita somam 253 deputados e 33 senadores. Isso não alcança a maioria absoluta nas duas Casas, de 257 e 41. Fica ainda mais longe dos 308 deputados e 49 senadores exigidos para aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição.
Na outra ponta, a direita sozinha consegue travar qualquer PEC do governo. Também tem assinaturas suficientes para abrir CPIs, que exigem 171 deputados ou 27 senadores.
O mandato em si está mais protegido. Para barrar um pedido de impeachment na Câmara, o governo precisa de 172 votos, e esquerda, PSD e MDB já somam 203.
O ponto mais sensível é o Senado. Em abril, o plenário rejeitou por 42 a 34 a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, a primeira recusa de um indicado à Corte em mais de 130 anos. Com o PL maior, sabatinas difíceis e pedidos de impeachment de ministros do STF ganham força.
O caminho de Lula
A saída mais provável é repetir a fórmula do terceiro mandato. Isso significa ministérios para PSD e MDB e espaço para parte de União Brasil, PP e Republicanos. Esses três partidos estiveram no governo, mas apoiaram Flávio no segundo turno.
O próprio Lula indicou esse roteiro durante a campanha. "Quando você ganha, você precisa pensar na governabilidade", afirmou. Ele lembrou que governou com 70 deputados do PT e mesmo assim aprovou a maior parte da agenda.
As emendas parlamentares seguem como moeda central. O projeto de Orçamento de 2027 reserva R$ 44,8 bilhões para emendas individuais e de bancada, de pagamento obrigatório. Ao mesmo tempo, decisões do ministro Flávio Dino, do STF, endureceram as regras de transparência. Com isso, o governo tem menos margem para usar esses recursos como barganha.
A eleição que decide o resto
O primeiro teste vem em 1º de fevereiro, com a eleição das Mesas. Na Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) busca a recondução, enquanto o PL quer lançar nome próprio. No Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) articula a reeleição. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já anunciou a candidatura de Rogério Marinho (PL-RN).
A tendência é que o PT apoie candidatos de outros partidos. Um presidente do Senado alinhado ao PL teria a caneta para pautar CPIs e pedidos de impeachment de ministros do Supremo.
Piauí na contramão
O país elegeu um Congresso mais conservador, mas o Piauí fez o caminho inverso. Marcelo Castro (MDB) foi reeleito e Júlio César (PSD) conquistou a segunda vaga. Ficou de fora Ciro Nogueira (PP), presidente nacional do partido e ex-ministro de Jair Bolsonaro. A terceira cadeira é de Wellington Dias (PT), licenciado e substituído pela suplente Jussara Lima (PSD). Assim, as três vagas do estado ficam com aliados de Lula.
Na Câmara, o Piauí elegeu três deputados do PT, dois do PSD, dois do MDB, um do PV, um do Republicanos e um do PP. O PL não elegeu ninguém. Georgiano (PSD) foi o mais votado, com 234.254 votos.
Num Senado hostil ao governo, os votos piauienses viram ativo de negociação. O governador Rafael Fonteles, que comandou a comunicação da campanha de Lula no segundo turno, chega a Brasília com essa bancada a tiracolo.
Lula venceu a eleição. A partir de fevereiro, começa a disputa para conseguir governar.