A inteligência artificial passou a ocupar um espaço cada vez mais visível na propaganda das eleições de 2026. No Piauí, a campanha de Júlio César ao Senado esteve entre as que primeiro chamaram atenção pelo uso frequente da tecnologia em seus conteúdos. As peças renderam críticas, sobretudo pela aparência artificial de algumas produções. Com a aproximação da votação, porém, vídeos, cards e jingles feitos com auxílio de IA passaram a aparecer também na comunicação de outras candidaturas.
A mudança não significa que os eleitores tenham deixado de perceber ou criticar esse tipo de material. Mostra que, para as equipes de campanha, a tecnologia se tornou uma solução prática diante da necessidade de publicar em ritmo intenso, adaptar mensagens às redes sociais e produzir peças em pouco tempo. Uma mesma ideia pode virar imagem, vídeo curto e música sem depender, em todas as etapas, de uma produção convencional.
O caso de Júlio César ajuda a retratar essa transição. O uso da IA em sua campanha foi percebido quando ainda causava estranhamento. Agora, a presença de recursos semelhantes em outras candidaturas desloca a discussão: o que parecia uma marca de determinada campanha se apresenta como parte de uma mudança mais ampla na produção da propaganda eleitoral.
Isso não torna todas as peças iguais. Há diferenças entre usar uma ferramenta para auxiliar na criação de um card, gerar imagens que representam situações fictícias ou produzir uma fala que o candidato nunca fez. Para o eleitor, essa distinção importa porque a propaganda pode recorrer à criatividade, mas não deve apresentar uma fabricação como registro de um acontecimento real.
O Tribunal Superior Eleitoral exige que conteúdos sintéticos criados ou significativamente alterados por inteligência artificial sejam identificados de forma explícita, destacada e acessível. A regra alcança imagens, vídeos, áudios e textos usados na propaganda eleitoral. O tribunal também estabeleceu restrições específicas para a publicação de novos conteúdos sintéticos com imagem, voz ou manifestação de candidatos e pessoas públicas no período próximo à votação.
A expansão da IA, portanto, não é por si só motivo para condenar ou celebrar uma candidatura. Ela altera o tempo e o custo da produção, amplia o volume de peças e torna mais difícil identificar, à primeira vista, o que foi gravado e o que foi gerado. No Piauí, a passagem das críticas iniciais ao uso disseminado na reta final indica que a tecnologia já entrou na rotina das campanhas. A questão que permanece para quem recebe a propaganda é saber com clareza o que está vendo e ouvindo.