A aliança anunciada pelo deputado estadual Dr. Vinícius Nascimento, do PT, com o pré-candidato a deputado federal Emanoel Paiva, do Progressistas, pode abrir um novo foco de tensão dentro da base governista no Piauí. O gesto ganhou peso político porque ocorre justamente no momento em que o presidente estadual do PT, deputado Fábio Novo, tem cobrado publicamente que filiados ao partido votem em candidatos da própria legenda ou em nomes da base aliada do governador Rafael Fonteles.
O anúncio foi feito em Teresina e apresentado como uma parceria voltada ao fortalecimento da representatividade da capital e do Piauí nas esferas estadual e federal, mesmo que o pré-candidato Emanoel Paiva sendo vereador da cidade Água Branca. O problema político está no partido escolhido para a dobradinha. Emanoel Paiva é filiado ao Progressistas, legenda que hoje ocupa o posto de principal adversária do PT no estado e tem como maior liderança o senador Ciro Nogueira, nome central da oposição ao Palácio de Karnak.
A movimentação coloca Fábio Novo diante de um teste de coerência interna. O presidente do PT já adotou tom duro em relação a prefeitos, deputados e lideranças petistas que declararam apoio a candidatos do Progressistas, especialmente quando o apoio envolveu Ciro Nogueira. Em mais de uma ocasião, Fábio defendeu que filiados devem seguir as decisões coletivas do partido e chegou a falar na aplicação de medidas disciplinares contra quem descumprisse a orientação partidária.
Em um dos episódios, o dirigente petista reagiu à possibilidade de prefeitos do PT apoiarem Ciro Nogueira e sustentou que, se o partido funciona como um time, todos precisam jogar juntos. A fala foi interpretada como um recado direto a gestores filiados à legenda que vinham se aproximando do senador do Progressistas. Na ocasião, Fábio afirmou que o diálogo seria o primeiro caminho, mas não descartou punições previstas no estatuto do partido, inclusive expulsão em caso de insistência no descumprimento das regras internas.
O discurso voltou a ganhar força quando lideranças do Progressistas passaram a apontar contradições na postura do PT em relação a prefeitos que mantinham relação política ou administrativa com Ciro Nogueira. Fábio Novo foi citado em falas nas quais defendia punição exemplar a filiados que não acompanhassem as deliberações da legenda. A cobrança tinha como pano de fundo a disputa pelo comando político do estado e a tentativa do PT de manter sua base coesa em torno do projeto de reeleição de Rafael Fonteles e das chapas aliadas.
Um dos casos mais concretos envolveu o prefeito de Cajueiro da Praia, Felipe Ribeiro, filiado ao PT. Após declarar apoio a Ciro Nogueira, o gestor virou alvo de reação interna no partido, com suspensão de sua filiação. O episódio teve repercussão política e acabou passando por mediação envolvendo lideranças do Partido dos Trabalhadores e do próprio governador Rafael Fonteles. Ainda assim, o caso ficou marcado como exemplo de que o comando estadual do PT estava disposto a reagir quando filiados se aproximassem do principal adversário da legenda.
Outro episódio recente envolveu a prefeita de Luzilândia, Fernanda Marques, que declarou apoio à reeleição de Ciro Nogueira, e Fábio Novo afirmou que o partido poderia adotar medidas disciplinares. O presidente estadual lembrou que o PT já havia aprovado orientação interna em favor da reeleição de Lula, da reeleição de Rafael Fonteles, das chapas proporcionais da sigla e dos nomes aliados ao Senado. Para ele, não seria razoável que um petista atuasse fora do que foi decidido pelo partido.
É nesse contexto que a parceria de Dr. Vinícius com Emanoel Paiva ganha dimensão maior. Diferentemente de prefeitos do interior ou lideranças municipais, Dr. Vinícius é deputado estadual, filiado ao PT, ocupa a função de líder do Governo na Assembleia Legislativa e atua politicamente em Teresina, principal colégio eleitoral do estado. A aliança com um pré-candidato do Progressistas, portanto, não é um movimento isolado de bastidor municipal, mas uma composição feita por um parlamentar petista com posição estratégica dentro da base.
O caso também reforça uma movimentação que já vinha sendo observada na política piauiense. Outros nomes do PT também apareceram em agendas ou articulações com Emanoel Paiva, indicando que a aproximação de petistas com o Progressistas pode estar avançando na disputa proporcional, e não apenas na disputa majoritária pelo Senado. Isso amplia o desconforto dentro da base e aumenta a pressão sobre o comando estadual do PT.
A pergunta que agora circula nos bastidores é simples: Fábio Novo adotará com Dr. Vinícius a mesma postura que defendeu contra prefeitos e outras lideranças petistas que se aproximaram do Progressistas? A cobrança aos filiados é apenas em relação ao apoio a Ciro Nogueira? O PT vai rechaçar apoios de filiados ao Progressistas? Se mantiver o discurso de fidelidade partidária, o presidente do PT terá que explicar qual medida a sigla pretende adotar diante da dobradinha de um deputado estadual petista com um pré-candidato do principal partido adversário. Se relativizar o caso, abrirá espaço para cobranças de tratamento desigual dentro da própria legenda.
No fim, a questão vai além da aliança entre Dr. Vinícius e Emanoel Paiva. O episódio testa o limite real da disciplina partidária defendida por Fábio Novo. Até aqui, o presidente estadual do PT tem sustentado que filiados precisam respeitar as decisões coletivas da legenda e da base governista. A partir de agora, a força desse discurso passa a ser medida também pela forma como o partido reagirá quando a aproximação com o Progressistas envolver um nome de peso da própria bancada petista.