Octávio César completa 80 anos neste 19 de setembro com a sua maneira preferida de encarar o tempo. Trabalhando.
À noite, sobe ao palco do Sesc Cajuína, em Teresina, para cantar, contar histórias, fazer rir e celebrar uma vida que atravessou boa parte da história moderna do espetáculo brasileiro. Estará acompanhado de Pedrinho Araújo, nos teclados, e Darcyel, no saxofone. Não é festa de despedida. É show.
A idade octagenária de Octávio está no calendário. O artista aprendeu o raro ofício de remoçar. Percebo pelos olhos que permanecem ágeis, curiosos, luminosos. A conversa não se arrasta atrás da memória. O pensamento chega depressa, encontra a palavra, reconhece a deixa, devolve humor. Há nele a vivacidade de quem passou a vida sabendo que, no palco, um segundo pode separar o riso do silêncio. Aos 80, Octávio César traz muitos personagens na trajetória.
Octávio César de Carvalho Cavalcanti nasceu em Luzilândia, no Norte do Piauí, em 19 de setembro de 1946. Saiu cedo. Aos 11 anos, foi para Juiz de Fora, Minas Gerais. A mudança geográfica acabaria mudando o destino. Na juventude, entrou para o ambiente do Teatro Universitário e mergulhou numa efervescência cultural que misturava palco, música, universidade e os grandes festivais que mobilizavam o Brasil dos anos 1960.
Começava a se desenhar uma característica que nunca mais o abandonaria. Octávio não caberia numa profissão artística só. Era ator. Cantor. Seria humorista. Apresentador. Aprendeu a misturar tudo apenas com a autorização da criatividade.
Com outros artistas, integrou o Grupo Mineiro, conjunto vocal que ganhou projeção na época dos festivais. No final dos anos 1960, o caminho levou o grupo ao Rio de Janeiro. Há registros de Octávio no Festival Internacional da Canção, em trabalhos ao lado de Marlene e Beth Carvalho e na passagem pelo Festival de Viña del Mar, no Chile.
Também trabalhou como crooner. Cantava em português e em outras línguas, exercitando uma escola que hoje quase desapareceu. O intérprete que precisava dominar repertório, plateia, improvisação e presença. Antes da televisão descobrir o humor, o artista era preparado na música e no teatro.
A trajetória de Octávio César cruza alguns dos momentos mais importantes da cena brasileira durante a ditadura. Sua estreia profissional é associada a Botequim, de Gianfrancesco Guarnieri. Depois vieram montagens que hoje pertencem à história do teatro nacional.
Em 1973, Octávio estava no elenco de Calabar, O Elogio da Traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra, dirigida por Fernando Peixoto e produzida por Fernando Torres e Fernanda Montenegro. Seu nome está na ficha técnica original, com registro fotográfico de Octávio nos ensaios. A montagem se tornaria símbolo da violência da censura sobre a produção cultural brasileira. Preparada, ensaiada e praticamente pronta para encontrar o público, foi impedida de estrear.
Octávio estava lá. Um jovem ator nascido em Luzilândia integrava uma produção quando palco e poder travavam uma das batalhas culturais mais tensas daquele período. No ano seguinte, 1974, aparece documentado no elenco de A Torre em Concurso, com direção também de Fernando Peixoto, no Teatro Glaucio Gill, no Rio de Janeiro.
Em 1976, Arena Conta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com música de Edu Lobo. No elenco estavam, entre outros, Aracy Cortes, Wolf Maya, Maria Pompeu e Octávio César. Não era um ator observando de longe o grande teatro brasileiro. Estava dentro dele.
No final da década de 70, Octávio participou de Com Panos e Lendas, musical infantil de José Geraldo Rocha e Vladimir Capella. O espetáculo ajuda a medir a dimensão de seu trabalho como ator. Na temporada carioca, Octávio César foi indicado ao Troféu Mambembe na categoria ator.
Durante muito tempo, sua biografia acabou sendo resumida ao humor televisivo. Mas ele vinha sustentado por teatro. A canção era sustentada por interpretação. O personagem tinha técnica. Por isso, conseguia passar de mulher a criança, de político a bêbado, de tipos populares a imitações, mudando corpo, voz, ritmo e intenção. Não bastava colocar peruca. Era preciso construir a criatura.
A televisão acendeu outra luz. A Rede Globo ampliou a plateia. Octávio passou por programas que pertencem à memória afetiva da TV brasileira. Entre eles O Planeta dos Homens, Viva o Gordo e Estados Anysios de Chico City.
A convivência com Jô Soares merece atenção especial. Durante anos, Octávio participou do universo de Viva o Gordo, na época em que o humor televisivo dependia fortemente de atores e atrizes capazes de entrar e sair de personagens em poucos minutos. As fontes biográficas sobre sua trajetória registram cerca de sete anos de trabalho no programa. Foi uma extraordinária escola. Jô precisava de atores. Não de figurantes que apenas oferecessem a deixa.
Um quadro poderia exigir voz, corpo, improvisação, cumplicidade, silêncio, reação e precisão absoluta de tempo. Humor também é música. Quem entra um compasso atrasado pode destruir a piada. Timing é tudo. Ou nada. Octávio conhecia o ritmo.
Chico Anysio foi outro gigante da construção de personagens que o piauiense também trabalhou. Passar por Jô e Chico na época de ouro dos humorísticos brasileiros significa ter convivido com duas escolas fundamentais do gênero. E sobreviver artisticamente às duas exige muito mais do que ser engraçado. Exige ator.
1980 traz outra curva deliciosa da trajetória. Octávio reencontrou João Bosco, conhecido dos tempos de Minas. A amizade e a saborosa memória dos dois envolvidos em serenatas mineiras nos anos difíceis da ditadura fortaleceu a parceria. João o aproximou de Aldir Blanc. Da aproximação nasceu Octávio César Conta e Canta. O primeiro show solo, escrito em parceria com Aldir.
César achou a síntese que procurava desde jovem. Cantar e representar. Contar e interpretar. Fazer rir e emocionar. Octávio inventou uma palavra para definir o que fazia. “Humorsical”. A palavra é um autorretrato.
Vieram outros espetáculos, como Viva o Riso, Humor de Classe, Um Senhor Show e Octávio César Canta a Mulher dos Outros. Em 1988, uma reportagem do Diário da Manhã, de Goiânia, já o descrevia como showman capaz de alternar piadas, música e sátira política, levando ao palco repertório que passava por Chico Buarque e Dorival Caymmi. Octávio encontrou uma forma artística essencialmente sua.
Biografias ficariam incompletas se contassem apenas os trabalhos. A vida tratou de escrever uma parte mais doce. No Piauí, Octávio encontrou Rosângela, sua musa e companheira. Estão casados desde 1998. Dessa união nasceu um filho. Depois de tantos deslocamentos, palcos, temporadas, hotéis, camarins, personagens e aeroportos, havia também um lugar para ficar.
O retorno ao Piauí ganhou dimensão que nenhuma ficha técnica consegue registrar. Não foi apenas voltar para casa. Significou encontrar casa. Rosângela adocica a história porque lembra que por trás do ator capaz de assumir dezenas de personagens existe o homem que construiu uma vida afetiva, uma família e uma permanência.
Octávio César não retornou ao Piauí para administrar saudades da Globo. Continuou e continua artista. Vieram outros espetáculos, retomou a música, realizou sucessivas edições do Bolero Baile. Foram 19. Dividiu palco com novos artistas e permaneceu ligado à cena cultural.
Em 2009, por exemplo, já estava novamente em cartaz em Teresina com Humor & Música, acompanhado pela pianista Carla Ramos. O relato do período o descreve costurando causos e músicas de Tom Jobim, Sinatra, Pavarotti e até Waldick Soriano.
A capacidade de atravessar gerações também aparece nos depoimentos dos mais jovens. O humorista Guiga Ferreira, que dividiu com ele o espetáculo Humor em Dose Dupla, resumiu a convivência: “Aprendi muito com o Octávio César”. O decano continuava formando gente até quando simplesmente trabalhava ao lado dela.
Na TV Assembleia, Octávio encontrou ainda outra forma de permanência. O Sarau, que apresenta há muitos anos, tornou-se espaço de divulgação da literatura e da cultura piauiense. Somente em 2025 foram 52 programas, 158 entrevistas e 119 livros divulgados. Falando sobre esse trabalho aparece uma frase capaz de revelar muito do artista aos 80 anos. “Minha função não é fazer crítica literária, mas ajudar a divulgar a literatura”, diz Octávio. E completa, “Uma entrevista pode despertar um novo leitor.”
Depois de passar décadas com a luz sobre si, necessidade legítima de qualquer ator, Octávio aprendeu a direcionar os holofotes. Entrevista escritores. Divulga livros. Recebe artistas. Apresenta eventos. Empresta voz e experiência para que outros sejam vistos.
Continua cantando. Em junho deste ano, esteve no Festival de Inverno de Pedro II, participando da Big Band Paulo Dantas. Meses antes, esteve no projeto Um Canto de Resistência, reunindo novamente música e memória.
O verbo correto permanece no presente. Octávio faz. O garoto de oitenta anos carrega oito décadas sem aparentar carregar o peso delas. O corpo guarda inevitavelmente o calendário, mas o olhar ainda procura a próxima deixa. A resposta vem rápida. O humor continua à espreita. A memória passeia por nomes, músicas, personagens e episódios de uma vida comprida sem transformar a conversa em museu.
Não é necessário fazer qualquer diagnóstico da juventude que permanece nele. Basta vê-lo atuando artisticamente. O ator continua atento ao outro. O apresentador escuta. O humorista localiza a fresta. O cantor procura a nota. O homem ri. Há cérebro em movimento porque há curiosidade em movimento. A arte ajudou.
Representar exige memória. Cantar exige ouvido. Entrevistar exige atenção. Humor, velocidade. Palco, presença. Octávio exercitou tudo isso durante mais de meio século. Chega aos 80 não como peça preservada de um passado glorioso, mas como artista em circulação.
É um dos grandes decanos da cena piauiense porque sua longevidade não é apenas biológica. É longevidade artística. Ele cantou no Brasil dos festivais. Viveu o teatro sob censura. Esteve na montagem histórica de Calabar. Atuou em Arena Conta Zumbi. Experimentou o teatro infantil de alto nível. Entrou na televisão quando os grandes humorísticos reuniam verdadeiras companhias de atores. Trabalhou no universo de Jô Soares e Chico Anysio. Criou espetáculo com Aldir Blanc. Cantou. Fez rir. Voltou ao Piauí. E continua no palco.
Neste 19 de setembro, seria muito fácil organizar homenagem olhando para trás. Octávio César marcou show. Aos 80 anos, enquanto tantos recebem flores sentados numa cadeira, o velho ator prefere a luz acesa, o músico esperando a entrada, a plateia diante dele e aquela fração de segundo anterior à primeira palavra. Então começa. Outra vez.